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Andy Burnham, católico, ancorado à esquerda, 56 anos, sabe falar aos intelectuais, é eloquente diante dos operários, adepto ferrenho do Everton, europeísta de ferro, casado com a neerlandesa Marie-France van Heel, com quem tem três filhos, é um ex-sindicalista que nos últimos nove anos governou, com aplauso da maioria, a cidade de Manchester, com tudo em volta, que se gaba de ter regenerado, fundando o culto do manchesterismo. Renacionalizou o serviço de bus em Manchester, por considerar que o mercado privado não estava a servir as conveniências de todas as pessoas, nomeadamente as que vivem em zonas mais afastadas e que precisam de transporte público pela noite e madrugada adiante.

Chegou a hora do “London Calling”: Burnham viajou para Londres, desembarcou no parlamento de Westminster, onde fica à espera da transferência para Downing Street, a famosa residência londrina dos chefes do governo britânico.

No Reino Unido há uma condição prévia para poder ser primeiro-ministro: é preciso estar eleito deputado, ser membro do parlamento. Os apoiantes de Burnham cuidaram de tudo para preencher esse requisito. Um deputado trabalhista, Josh Simons, renunciou ao lugar para que pudesse haver eleição nominal. Burnham apostou na eleição numa circunscrição onde a direita ultra de Nigel Farage esteja em alta. Escolheu a brexiter e superbranca Makerfield. Recebeu 55% dos votos, 20 pontos percentuais à frente da candidatura ultra que semanas antes tinha sido a mais votada.

Burnham, destinado a liderar, chegou à gare de Euston, em Londres, às 13h09m de segunda-feira, 22 de junho, véspera do décimo aniversário do referendo que ditou o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia – dois terços dos eleitores acham agora que se enganaram, as promessas do Brexit não se cumpriram, a saúde do NHS está pior, o nível de vida também. Nestes 10 anos, o PIB da City, a cidadela financeira britânica, perdeu entre 6 e 8%. Foi uma década também marcada pela morte da amada e unificadora rainha Isabel II e de sobressaltos na monarquia.

A BBC e a Sky alugaram um helicóptero para acompanhar o comboio anónimo que levou o líder em potência até Londres. Burnham passou pelo pub Red Lion, onde bebeu uma Guiness, antes de entrar no parlamento de Westminster para tomar o lugar de deputado recém-eleito. Grande parte dos 411 deputados trabalhistas quiseram uma selfie com Burnham.

São eles quem o vão designar primeiro-ministro, servido por ampla maioria absoluta trabalhista. Vai substituir Keir Starmer que, há menos de dois anos, em 4 de julho de 2024, arrasou na eleição legislativa e herdar da liderança dele os 411 eleitos trabalhistas entre os 650 deputados no parlamento britânico. É facto que Starmer, nestes dois anos, ganhou autoridade na cena internacional. Impôs-se na Europa a formar trio de comando com o francês Macron e o alemão Merz. Mas para consumo interno britânico é personagem com total falha de carisma e de visão política. Cometeu erros que erros que prejudicaram gravemente a imagem dele, como a nomeação para embaixador em Washington de um Peter Mandelson que caiu na lama pelo envolvimento no caso Epstein. Starmer ainda tentou dar luta a Burnham mas rendeu-se e, depois de uma despedida em lágrimas, quer uma transição harmoniosa, com a chefia do governo a passar de um trabalhista ao centro para um trabalhista um pouco mais, mas não muito, para a esquerda. O novo líder, sobretudo, com discurso capaz de mobilizar.

Numa sondagem desta semana, 55% dos britânicos inquiridos afirmam que votariam a favor da reentrada na UE se houvesse um novo referendo. O regresso do Reino Unido à União Europeia é defendido pelo mayor de Londres, o também trabalhista Sadiq Khan, e julgado "inevitável" por outras figuras do Partido Trabalhista. O próprio Starmer, que iniciou a lenta marcha de retorno britânico à Europa, incluindo a reintegração do programa de intercâmbio de estudantes Erasmus e o reforço da cooperação em matéria de segurança, declara que "o futuro do nosso país está no coração da Europa". Andy Burnham, prestes a suceder-lhe, já afirmou que espera ver o Reino Unido regressar à UE. Mas sem avançar prazos. Dez anos depois, uma coisa é certa: para as Ilhas Britânicas, o Brexit foi o início de uma transformação que ainda continua.

É uma das causas de o número 10 de Downing Streeet ter passado a ter uma espécie de porta giratória para chefes de governo.

Fica para se ver se Andy Burnham consegue em Londres, para o Reino Unido, as simpatias que granjeou em Manchester.

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