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Tinha pensado em muitos títulos para a coluna de hoje, como “São todos maus e ninguém se aproveita” ou “De volta à Idade da Pedra” a histórica ameaça de Trump, reduzida a “ganhamos, o regime mudou” – mais uma, de mil mentiras. Acabei por escolher uma analogia com o futebol, porque é a primeira vez que me lembro de ver a política substituir os comentários futebolísticos em tempo de antena e intensidade.

Fazendo um balanço prematuro de uma situação que se irá arrastar por alguns anos, a teocracia iraniana está para ficar, os israelitas perderam a aura de vítimas para ganharem o estatuto de genocidas, e os norte-americanos mostraram mais uma vez que não aprenderam nada com as derrotas no Vietname e Afeganistão. Quem ganhou? A China e a Rússia, que nem precisaram de se envolver abertamente no conflito. Quem perdeu? Os habitantes do mundo inteiro, que viram o custo de vida subir em flecha. 

Podia ficar-me por aqui, porque, no meio da refrega, não há muito mais a dizer além do que já foi repetido até à exaustão. Mas não resisto a esmiuçar alguns pormenores.

Para começar, esta desgraça, que ainda está longe do fim, foi certamente congeminada por Netanyahu. Porque o grande medo dos judeus, justificado, é que o Irão se torne uma potência nuclear. Todos os outros inimigos de Israel são “peanuts”, prontos para serem enviados para a Idade da Pedra. Aliás, a faixa de Gaza já foi, e o Líbano está em vias de ser. Ninguém duvida que um Irão nuclear é uma ameaça existencial para Israel, uma vez que basta uma única bomba atómica para pulverizar os seus 22.145 km2. E também basta um único míssil ultrassónico para a levar a Telavive, misturado num ataque disruptivo de centenas ou milhares de mísseis e drones.

Israel tem conseguido as suas vitórias e destruições massivas graças ao equipamento que chega todos os dias dos Estados Unidos (e a eficiência das IDF, com certeza). E o lóbi judaico nos Estados Unidos garante que esses equipamentos cheguem a tempo. Os judeus norte-americanos, maioritariamente liberais, estão horrorizados com a brutalidade das incursões israelitas (conheço alguns, sei o que digo), mas mesmo assim mantêm o seu apoio inabalável à pátria-mãe. Passaram a vida a lembrar-nos constantemente do Holocausto e agora são eles os perpetradores, mas estão-se nas tintas para a mudança de reputação, o que eles querem é reconstituir a Israel bíblica e erigir um novo Templo em Jerusalém. Vão consegui-lo, certamente, mesmo que Netanyahu perca as próximas eleições – é o seu Destino, como diriam os Vikingues.

Porque é que, de repente, Trump decidiu atacar o Irão? O regime teocrático é horrível, dentro e fora de casa, mas já é assim desde 1979, e os presidentes norte-americanos sempre tentaram negociar com eles, até porque qualquer militar de baixa patente sabe que é impossível deitá-lo abaixo. Com certeza que desde a Revolução dos ayatolas, os estrategas do Pentágono fizeram centenas de cenários e sabem que o Irão é impossível de derrotar – quer dizer, invadir e ocupar. Não foram eles, certamente, que aconselharam Trump a fazer esta guerra. A sugestão veio do lóbi nos Estados Unidos e a pressão de Telavive.

Trump, narcisista mórbido e negociante compulsivo, achou que “as melhores forças armadas que o mundo já viu” não teriam grande dificuldade em anular a ameaça nuclear e mudar o regime de Teerão – os seus objetivos declarados no dia da invasão. Desde o rapto expedito de Maduro que acha que nem é preciso mudar de regime; basta agarrar o ditador e manter o regime com dirigentes mais maleáveis. Aliás sempre foi esse o seu objetivo mais imediato, mudar os dirigentes iranianos e esta semana disse mesmo que os ayatolas de serviço foram todos mortos e portanto o regime mudou. Ninguém lhe disse que a república teocrática tem centenas de dirigentes e matar alguns apenas faz com que a segunda linha substitua as baixas.

Portanto, Trump perdeu em toda a linha; gastou ziliões de dólares (mil milhões por dia, é o que se diz), não mudou o regime e não eliminou o programa nuclear; ainda por cima perdeu a livre passagem de navios no estreito de Ormuz, causando uma crise séria mundial. (Até o nosso Afonso de Albuquerque sabia que o estreito era fundamental para controlar o comércio, isto há 500 anos, antes da globalização.)

O Irão ganhou a toda a linha; mantém o regime e o programa nuclear e até descobriu um novo negócio, controlar o estreito e receber portagem pelos 138 navios que passam diariamente pelo estreito – fala-se que quer dois milhões de dólares por cada um. Nem todo o potencial militar norte-americano consegue manter o estreito aberto.

Israel não ganhou nem perdeu, mas a guerra deles, agora centrada no Líbano, ainda não acabou. Irá continuar a bombardear alvos do programa nuclear iraniano, como já faz há anos e pode continuar a fazer ad eternum.

Toda a gente sabe – seria preciso viver numa gruta para não saber – que ontem, sábado, começaram as negociações entre norte-americanos e iranianos em Islamabad, no Paquistão, que se voluntariou para a arbitragem.

(Entretanto o Paquistão está em guerra com o Afeganistão, mas isso é outro filme). As negociações são para um cessar-fogo, em preparação para um tratado de paz. Mas o Irão exige como pré-condições o acesso ao dinheiro retido no estrangeiro e o fim das hostilidades no Líbano. O acesso ao dinheiro talvez ainda passe, mas Israel já declarou em alto e bom som que não terminou as operações no Líbano e só irá pará-las quando o Hezbolah for destruído – nunca, portanto.

Hoje, agora, domingo, ao meio-dia de Lisboa, a CNN diz que as conversações em Islamad ainda não deram nenhum resultado.

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