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Na semana passada, ao prognosticar os acontecimentos previstos para este ano, incluí a Gronelândia como o próximo objectivo imperialista de Trump.
A vontade do Presidente e dos seus mais próximos de transformar a ilha no 51º Estado norte-americano, surgiu logo no início deste segundo mandato, alegando que era um território “essencial” para a segurança nacional e que a Rússia e a China poderiam tomar o controlo do território caso os EUA não o fizessem.
Como é habitual em Trump, as desculpas geopolíticas escondem interesses económicos e a maneira de resolver as questões é sempre inábil, para não dizer estúpida e disruptiva.
Para já, e independentemente do seu estatuto futuro (independente ou “associada” a outro país), a Gronelândia tem importância para os milhares de milhões de habitantes do planeta. Isto, porque está a perder gelo com uma rapidez impressionante. A inexorável subida de temperatura no mundo, como já sabemos pelas COP (reuniões internacionais sobre alterações climáticas) estão a provocar um degelo contínuo maior na Gronelândia do que em qualquer outro território – o dobro, precisamente. Entre Agosto de 2024 e Agosto de 2025 perdeu 105 mil milhões de toneladas métricas. Entre 2015 e 2022 tinha perdido cerca de 5.200 quilómetros quadrados. Se todo o gelo da Gronelândia derretesse (o que é improvável neste século) o nível do mar subiria sete metros.
Além disso, o degelo reduz a área reflectora, “devolvendo” o calor do Sol. Mais calor do Sol é absorvido pela água, contribuindo para o aquecimento dos oceanos.
Uma consequência é a subida do nível dos oceanos, outra é a o acesso mais fácil aos minérios do subsolo (essenciais para as tecnologias que abrandam a mudança de clima) e ainda outra é a abertura de rotas marítimas mais curtas e alternativas às actuais entre o oriente (Rússia e China) e o ocidente. Os russos têm aumentado substancialmente a sua frota de quebra-gelos, que já é a maior do mundo e a China prepara-se para abrir uma “Rota da Seda Polar”.
Na prática, o acesso dos americanos à Gronelândia é total, via um tratado assinado com a Dinamarca em 1951. Durante a Guerra Fria construíram inúmeras bases militares, aeroportos e estações metereológicas, que abandonaram com o fim da União Soviética, em 1989; mas poderiam reconstruir uma infraestrura nova, sem precisar de pedir; basta que informem as autoridades dinamarquesas e da Gronelândia. Todavia, esta simplicidade não agrada a Trump, que prefere ser “dono” de mais território a simplesmente usá-lo, sem os constrangimentos a que poderia levar um tratado (arrendamento gratuito, digamos assim).
Ainda por explorar estão os depósitos de grafite, zinco e terras raras. A União Europeia já considerou estes materiais essenciais para a sua indústria. A grafite, por exemplo, crítica para fazer baterias, é actualmente produzida pela China em grandes quantidades.
Outra coisa que não satisfaz Trump é que todas estas riquezas estão fora do tratado de 1951 e, entretanto, o governo semi-autónomo da Gronelândia proíbe a mineração de urânio por causa dos estragos ambientais que provoca. Há ainda o petróleo, cuja recolha é proibida desde 2021, pelas mesmas razões.
Finalmente, pensando no futuro próximo, e conforme referi no artigo supra-citado, há a questão das rotas de satélites que passam mais pelo Polo Norte do que pelo equador, e que serão essenciais numa guerra futura.
Tudo isto justifica o interesse de Trump pela Gronelândia; mas nada justifica a abordagem hostil que tem levado a cabo contra a Dinamarca e os 47.000 habitantes do território semi-autónomo. A acção normal seria simplesmente aumentar a presença norte-americana ao abrigo do tratado de 1951. A acção trumpista tem sido uma série de ameaças de “invasão” e hipótese de transformar a enorme ilha no 51º Estado dos Estados Unidos, sem consultar o interesse dos habitantes.
Estes declararam várias vezes que não querem ser norte-americanos, o que lhes tiraria as vantagens de ser dinamarqueses; a Dinamarca, referida em vários anos como “o país mais feliz do mundo” tem assistência social gratuita e outras vantagens do chamado “modelo social europeu” – tudo situações inexistentes nos Estados Unidos. Para não falarmos também das várias crises do país, como o armamento exagerado da população, o racismo, a política de imigração e a existência de uma polícia secreta, o ICE, que tem aterrorizado mesmo os americanos natos. Hoje em dia é muito mais perigoso e desagradável ser norte-americano do que dinamarquês.
Então, como ficamos? Os dinamarqueses e habitantes da Gronelândia (que têm um governador eleito por eles) têm feito esforços para uma solução pacífica da situação. J.D. Vance e Marco Rubio já foram a Copenhaga e esta semana os dinamarqueses estiveram em Washington. O resultado prático destes encontros tem sido nulo, uma vez que os norte-americanos não aceitam outra situação que não seja a tal do 51º Estado. Irão invadir, como já anunciaram várias vezes?
Um ataque de um país da NATO a outro país da NATO acabaria imediatamente com a Aliança e tornaria a União Europeia de facto inimiga dos Estados Unidos. (Ursula van de Leyen já disse claramente que a EU está ao lado da Dinamarca.
Depois de Trump ter raptado o Presidente da Venezuela, acrescentando que não reconhece as leis internacionais e que o seu limite é a sua própria consciência, tudo é possível.
Pode ser que ataque primeiro Cuba, ou a Colômbia, ou o Irão. À medida que o apoio interno tem diminuído – o aumento do custo de vida, a não publicação do dossier Epstein, e a acção brutal do ICE foram muito mal recebidos mesmo pela sua base sólida – Trump precisa de provocar histórias que façam esquecer as desgraças e que, pelo menos aos olhos dele, o mostrem como um Presidente com uma política internacional coerente.
Se há alguma coisa bem visível em Trump (fora a decadência cognitiva) é a imprevisibilidade. Faz, ou diz, sempre pior do que se espera. Os esperançosos e os democratas esperam que sofra uma derrota nítida das eleições intercalares de Novembro. Mas Novembro é daqui a muito tempo e nada indica que Trump passe a levar em consideração as decisões do Congresso.
A ver vamos, como diz o cego.
Começando pelos interesses económicos, a Gronelândia
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