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Uma separação implica um recomeço. Contudo, quando existem filhos, não voltamos à “casa partida”. Há um sistema em movimento que se alterou, uma vida que não pode parar e que não irá parar. É um período desafiante em que os pais necessitam de lidar com as alterações práticas da vida, da sua e da dos seus filhos, de lidar com o impacto emocional da ruptura e garantir o suporte emocional dos filhos, para que estes possam superar a perda da família como a conheciam.

Nos últimos anos, a guarda partilhada com residência alternada tem ganho maior expressão, visibilidade e aceitação em Portugal. Ainda que os dados disponíveis sejam incompletos e não permitam descrever com total segurança uma série contínua e homogénea da sua evolução, existem sinais consistentes da expansão deste modelo, deixando de ser vista como uma excepção e passando a ser mais frequente, sempre que é compatível com o superior interesse da criança ou do adolescente.

Após a separação, muitos pais descobrem rapidamente que a guarda partilhada não os obriga apenas a repartir os filhos entre duas casas, mas sim, a habitar duas vidas emocionais “distintas”. Enquanto na semana com filhos, predominam a presença e a partilha, a responsabilidade, a intensidade do cuidado físico e emocional e a necessidade de responder às exigências do quotidiano das crianças/adolescentes, na semana sem filhos, surgem o silêncio, a ausência, o vazio, a reorganização da rotina e, por vezes, a sensação de quebra da continuidade parental. É nesta alternância entre presença e ausência, proximidade e distância, que se joga uma parte importante da experiência emocional dos pais em guarda partilhada. Assim, mais do que uma fórmula jurídica ou uma distribuição de tempo, a guarda partilhada é, para muitos pais, uma exigente experiência de adaptação contínua entre dois ritmos de vida, dois estados afectivos distintos, dois modos de estar e de ser.
A semana com filhos, é marcada por uma rápida entrada na função parental, com o regresso dos horários, da escola, das actividades, das refeições, da gestão da casa em função do outro e a necessidade de responder, quase sem intervalo, às necessidades práticas e emocionais das crianças, deixando pouco espaço para a individualidade para além da parentalidade.
Por outro lado, a semana sem filhos traz uma experiência muito diferente, em que o silêncio se instala, a continuidade é quebrada e vive-se a ausência ou até mesmo a solidão. Mas também traz espaço para o trabalho ou para a recuperação, para viver a individualidade do ser.
A dificuldade não está apenas em “ter” ou “não ter” os filhos, com todas dinâmicas que implica, mas em conseguir mudar de estado emocional sem sentir que a própria identidade parental fique em suspenso ou até mesmo quebrada. 

É precisamente aqui que a dimensão emocional dos pais merece maior atenção. A guarda partilhada implica maior articulação entre os adultos e, nesse sentido, mais momentos de contacto, de tomada de decisão e de coordenação. Quando a separação foi vivida com dor, hostilidade ou conflito continuado, essa exigência pode tornar-se especialmente desafiante ou mesmo difícil. Nestes casos, o problema não está necessariamente na guarda partilhada em si, mas no facto de esta exigir uma maior cooperação entre pessoas que podem ainda estar emocionalmente magoadas, zangadas ou defensivas. A literatura mostra que o bem-estar dos pais no pós separação, depende em larga medida da qualidade da relação na cooperação parental, ou seja, quando a comunicação é funcional e o nível de conflito é baixo, a adaptação tende a ser mais estável. No sentido inverso, se persistem momentos de tensão, ressentimento e/ou rivalidade, o desgaste emocional aumenta e a organização da vida familiar torna-se mais pesada ou mesmo penosa. 

A semana com filhos traz ainda um outro desafio, a necessidade de reinstalar continuidade emocional, tendo em conta que, ao regressar de outra casa, com outras dinâmicas e com outro clima relacional, surge a necessidade de reconstruir rapidamente previsibilidade, segurança e conexão afectiva e emocional. Esta mudança exige atenção aos sinais de cansaço, irritabilidade, retraimento ou resistência, por vezes, também do próprio adulto, obrigando a uma presença e disponibilidade emocional que vai muito além da simples e rotineira gestão de tarefas. A equação torna-se particularmente exigente quando os filhos estão em idade escolar, pois as exigências académicas e logísticas juntam-se à necessidade de regulação afectiva.

Do lado dos filhos, o impacto emocional faz-se sentir sobretudo nas transições e na possível exposição ao conflito que pode acompanhar o processo, uma vez que mudar de casa não é um gesto neutro e pode implicar stress, ambivalência, dificuldade de adaptação ao novo ambiente e, em alguns casos, conflitos de lealdade. As crianças podem sentir-se divididas entre dois mundos, hesitar na expressão dos afectos a um dos pais na presença do outro ou carregar consigo a tensão emocional dos adultos. Assim, fica claro que os filhos podem sofrer de forma directa, quando são expostos ao conflito entre os pais, às discussões ou a um clima de hostilidade, e de forma indirecta, quando o sofrimento dos pais compromete a sua disponibilidade emocional, a consistência dos cuidados ou a capacidade de oferecer segurança. Ou seja, a qualidade da co-parentalidade acaba por ser uma variável decisiva, sendo protectora quando há cooperação e geradora de insegurança quando é hostil ou caótica.

Contudo, isto não significa que a guarda partilhada deva ser vista com pessimismo, mas sim, que deve ser pensada maturidade e realismo psicológico.

Os filhos não precisam apenas de duas casas. Precisam de dois adultos suficientemente estáveis para que a alternância não se transforme numa experiência de instabilidade emocional e sofrimento. 

No essencial, a vida a dois tempos é mais uma questão de regulação emocional do que uma questão de calendário ou agenda. Pode constituir uma solução protectora, se ambos os pais conseguirem manter envolvimento afectivo adequado e securizante, um mínimo de coerência educativa e de coordenação. Por outro lado, pode ser tanto mais difícil quando a ruptura conjugal permanece emocionalmente activa e o conflito invade o exercício da parentalidade.

Concluindo, a guarda partilhada com residência alternada exige, para os pais, flexibilidade, capacidade de adaptação e tolerância à ausência e à frustração. Para os filhos, exige protecção face ao conflito e continuidade afectiva entre duas casas. Quando estes elementos estão presentes, a alternância pode ser vivida com maior segurança, caso contrário, quando faltam, o peso emocional da organização pós-separação torna-se mais evidente e impactante.

A questão central, por isso, não é onde a criança dorme em cada semana, mas como dorme e como vive, o que está dependente das condições emocionais que pais e filhos conseguem habitar nessa dinâmica.

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