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Por todo o lado surgem notícias, publicações e artigos de opinião sobre os Ficheiros Epstein. Chegam mesmo a ser matéria para comediantes em espetáculos de stand-up, como se a violação — esse crime horrendo — não passasse de mais um produto de entretenimento. Mas o que acrescentam, afinal, estes conteúdos? Trazem algo de novo? Contribuem para uma maior compreensão deste crime ou para um melhor apoio às vítimas?

Em vez de uma abordagem centrada na educação, na contextualização e, eventualmente, na prevenção, assiste-se amiúde a uma lógica de curiosidade mórbida, especulação e consumo rápido de informação. A violência sexual transforma-se, assim, num espetáculo, onde detalhes gráficos, teorias conspirativas e listas de nomes ocupam mais espaço do que as próprias vítimas.

Associações de apoio especializado à vítima de violência sexual:

Quebrar o Silêncio (apoio para homens e rapazes vítimas de abusos sexuais)
910 846 589
apoio@quebrarosilencio.pt

Associação de Mulheres Contra a Violência - AMCV
213 802 165
ca@amcv.org.pt

Emancipação, Igualdade e Recuperação - EIR UMAR
914 736 078
eir.centro@gmail.com

Exemplo disso são as imagens de Bill Clinton numa piscina com Epstein, de Donald Trump em festas ao seu lado, ou a especulação em torno do alegado desaparecimento de um email que faria referência a Cristiano Ronaldo. Nada disto acrescenta algo que ajude as vítimas. Estarão mais protegidas? Sentir-se-ão mais apoiadas, mais seguras, mais acreditadas? Duvido.

À semelhança do que aconteceu com o #MeToo, o foco mediático recai sobretudo sobre os nomes das figuras envolvidas. Ainda que, no caso do #MeToo, tenha existido também um foco relevante nas vítimas — ainda assim, muitas vezes caso a caso — continua a faltar uma análise aprofundada de aspetos fundamentais. Como chegam os abusadores às vítimas? O que têm eles em comum? Que padrões se repetem, quer se trate de figuras com poder económico e político, como Epstein ou Weinstein, quer se trate de um padre, de um pai ou de um treinador desportivo?

É urgente educar para que se compreenda, cada vez melhor, o que une estes casos, em vez de alimentar um foco desnecessário nos nomes próprios, como se estes crimes ocorressem num vácuo, sem contexto social, cultural ou estrutural. É preciso falar do poder dos abusadores, da forma como o utilizam para impor o silêncio às vítimas e de como esse poder se sustenta através do controlo, da manipulação e da acumulação de ainda mais poder.

Este tipo de exposição mediática não é neutro.

Para as sobreviventes da rede de abuso associada a Jeffrey Epstein — e para todas as outras pessoas sobreviventes de violência sexual — esta cobertura pode ser retraumatizante, invasiva e profundamente desumanizante. A dor é reencenada, os factos são consumidos como entretenimento e o foco afasta-se do essencial: a responsabilização dos abusadores, o apoio efetivo às vítimas e a compreensão dos mecanismos que permitem que estas redes existam e persistam.

Importa recordar que a violência sexual não é um mistério a desvendar nem um enredo a seguir. É uma realidade estrutural, sustentada por relações de poder, silêncio, cumplicidade e desigualdade. Tratar estes crimes como fenómenos excecionais ou como escândalos isolados impede uma leitura crítica, informada e transformadora do problema.

Uma exposição mediática responsável deveria respeitar a dignidade e o anonimato das vítimas, evitando a repetição sensacionalista de detalhes que nada acrescentam. É urgente contextualizar a violência sexual enquanto crime estrutural e profundamente genderizado, contribuindo para a literacia pública sobre abuso, consentimento e trauma. E, sobretudo, reforçar mecanismos de apoio e caminhos seguros para a denúncia.

Quando a violência sexual é explorada como espetáculo, as vítimas voltam a ser usadas — desta vez como matéria-prima para cliques, audiências e likes. O silêncio que se quebra não é o do apoio nem o de dar voz às vítimas; é apenas ruído.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina

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