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Há tradições que servem para recordar o passado, mas ao mesmo tempo nos fazem questionar futuro. As Festas do Povo da vila alentejana de Campo Maio são exemplo disso. Durante meses, milhares de pessoas organizaram-se, repartiram tarefas e trabalharam para um objetivo comum. O resultado são ruas cobertas de flores de papel. O mais importante, porém, não são as flores. É a comunidade que as torna possíveis.

No século XIX, Alexis de Tocqueville visitou os Estados Unidos da América e dessa viagem nasceu "Da Democracia na América". O que começou por ser um estudo sobre o sistema prisional norte-americano transformou-se numa das mais importantes análises sobre a sociedade americana, abordando desde a economia ao sistema político.

Entre os aspetos que mais impressionaram Tocqueville estava a predisposição dos cidadãos para se organizarem em associações civis. Era nesses grupos, mais do que nas instituições do Estado, que via a força da democracia, pessoas que se juntavam voluntariamente para resolver problemas comuns, criando hábitos de cooperação e de confiança.

Mais de um século depois, nos anos 90, o cientista político Robert D. Putnam recuperou esta ideia, acrescentando-lhe uma base empírica. No ensaio "Bowling Alone: America's Declining Social Capital" mostrou como "a qualidade do governo era determinada pela tradição do envolvimento cívico (ou pela sua ausência)". Indicadores aparentemente simples, como a existência de clubes desportivos, associações culturais ou coros, revelavam-se sinais de comunidades mais fortes e mais bem-sucedidas.

Destas investigações emergiu o conceito de "capital social": a rede de relações, normas e confiança que facilita a cooperação entre pessoas. "Por inúmeras razões, a vida é mais fácil numa comunidade com uma dose de capital social", escreveu Putnam.

Recordo estas duas obras porque ajudam a compreender uma tradição do interior alentejano, naquele lugar que muitos conhecem pelo pôr do sol, literal e musical,  ou como um refúgio dos afrontamentos citadinos. Em Campo Maior, as Festas do Povo regressam onze anos depois.

O lema diz que acontecem "sempre que o povo quer". Mas, para o povo querer, é preciso que continue a existir povo enquanto comunidade. Numa época em que a individualidade se sobrepõe ao coletivo, em que os algoritmos disputam a nossa atenção e nos prendem ao scroll infinito das redes sociais ou das plataformas de streaming, voltar a reunir milhares de pessoas em torno de um projeto comum não é um feito menor.

Naturalmente, organizar um evento desta dimensão está longe de ser um mar de rosas. Exige meses de trabalho, disponibilidade, paciência e capacidade de ultrapassar divergências. Mas é precisamente aí que reside o seu maior valor. As flores são apenas a expressão visível de algo muito mais profundo, uma comunidade que continua a acreditar que fazer coisas em conjunto vale a pena.

Talvez seja por isso que as Festas do Povo sejam muito mais do que uma atração turística ou um cartão-postal do Alentejo. São uma demonstração prática daquilo que Tocqueville observou e Putnam procurou provar, as sociedades tornam-se mais fortes quando as pessoas se encontram.

Num episódio do podcast "Aos Pés da Letra", da Companhia das Letras, Gregorio Duvivier dizia que "o que faz um país não é uma fronteira no chão, um país é um poema que se sabe de cor". Porque antes de haver instituições fortes, há comunidades fortes. E antes de haver um país, há pessoas dispostas a construir, juntas, algo que nenhuma conseguiria fazer sozinha.

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