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Muito se discutiu sobre se a NATO devia usar os seus meios para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, mas para lá de toda a retórica do Direito Internacional e outras desculpas de mau pagador, a problemática é outra. Ninguém dá o que não tem para dar. E o problema não é só português, nem só europeu.

Olhemos para as Forças Armadas do Reino Unido, frequentemente apontadas como referência. Contam hoje com 136.960 militares no activo. Comparado com os 24.000 de Portugal parece muito, mas em 1975 eram 338.000 e em 2000 eram 208.00, uma redução de cerca de 60% em meio século. E lá como cá, o que faz a diferença é o efectivo operacional, treinado e com experiência, que não andará acima dos 125.000. Lá como cá, mesmo com mais jovens a alistar-se, eles não substituem imediatamente os militares experientes que saem na mesma velocidade. As Forças Armadas britânicas apresentam um défice de 8.590 pessoas face ao número estipulado pelo governo e representam apenas 4% do total militar da NATO. É na Marinha que o quadro se torna verdadeiramente alarmante porque, se estamos a falar do Estreito de Ormuz, é a Marinha que importa. De acordo com o levantamento oficial de Abril de 2025, a Royal Navy possuía 2 porta-aviões, 6 contratorpedeiros, 8 fragatas e 9 submarinos, cerca de 63 embarcações no total. Porém o número de navios em serviço não corresponde ao número de navios que efectivamente podem navegar. O HMS Queen Elizabeth entrou em dique seco em Agosto de 2025. Vários contratorpedeiros Tipo 45 estão em longos ciclos de modernização. Diversas fragatas estão em manutenção profunda. A frota de Tipo 23 tem mais de três décadas de serviço em alguns casos e desgasta-se mais rapidamente do que os seus substitutos são construídos. A Royal Navy admite que não estará pronta para um conflito armado antes de 2030.

Para perceber a dimensão da queda, basta olhar para as Malvinas. Em 1982, a Grã-Bretanha enviou dois porta-aviões, oito contratorpedeiros e quinze fragatas para retomar as ilhas, mantendo simultaneamente compromissos noutras partes do mundo. Em 1996, operava 17 submarinos, 3 porta-aviões, 15 contratorpedeiros e 22 fragatas. Hoje, a frota de combate foi reduzida a metade. A carga de trabalho, não. Lanchas de patrulha armadas apenas com canhões cobrem hoje missões, nas Malvinas, no Pacífico, ao largo da Grã-Bretanha, que outrora cabiam a fragatas e contratorpedeiros. Embarcações pequenas a fazer trabalho de navios grandes, porque os grandes navios simplesmente não estão disponíveis.

E quanto às munições? O tenente-general Sir Rob Magowan, vice-chefe do Estado-Maior da Defesa britânico, o ano passado declarou ao Parlamento: "não poderíamos travar uma guerra prolongada por mais de alguns meses, porque não temos munição, reservas ou equipamentos suficientes." A própria Revisão Estratégica de Defesa reconheceu que os stocks estavam esgotados e defendeu uma capacidade de produção "permanente" o que é, em si mesmo, a confissão de que essa capacidade não existe.

O Reino Unido gasta 60,2 mil milhões de libras em defesa, cerca de 2,3% do PIB. Comprometeu-se a atingir 2,5% até 2027. Os membros da NATO acordaram 3,5% até 2035. E uma fatia considerável desse dinheiro não vai para navios, aviões ou munições vai para dissuasão nuclear, pensões militares, habitação e burocracia do Ministério da Defesa. Da próxima vez que alguém disser que o Reino Unido, ou a NATO, vai ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, há uma pergunta simples a fazer: com o quê?

O leitor, certamente, que agora estará a perguntar a si próprio: e Portugal? Pois, a questão dos stocks de guerra, reservas de guerra como lhe chamamos, é particularmente relevante em Portugal. Colocar estas realidades na praça pública não ajuda a criar um cenário de dissuasão que iniba tentações imperialistas alheias, nomeadamente russas, mas a situação é tão grave que é necessário que os militares gritem e que os políticos os ouçam.

Portugal teve um longo e notável historial na produção de munições e armamento, marcado por centros fabris centenários com destaque para Lisboa, Braço de Prata, Moscavide, Arroios e para Barcarena. D. João II mandou construir a Casa das Ferrarias em Barcarena ainda no século XV. D. Manuel I acrescentou o moinho de pólvora em 1515, dando origem à Real Fábrica de Pólvora que funcionou durante quase 500 anos. Em 1764, o Arsenal Real do Exército centralizou fundição de artilharia, armas portáteis e pólvora. Em 1898 abriu a Fábrica de Pólvora Sem Fumo de Chelas. Em 1908, Braço de Prata iniciou a produção de granadas e projécteis, o embrião da principal fábrica de munições do século XX.

Foi um longo caminho. E foi desfeito com assinalável rapidez.

Com o 25 de Abril e depois com a queda do Muro de Berlim chegou uma nova visão e com ela a desmobilização industrial. A fábrica de Braço de Prata foi integrada na INDEP em 1980 e encerrada na década seguinte. Ironicamente, durante a guerra Irão-Iraque (1980–1988), Portugal vendia munições dali para os dois contendores. Num instante a fábrica fechou, na euforia da década do betão e dos dividendos da paz. Encerraram-se as minas, acabou a produção, e ninguém pensou que a doutrina é clara e sempre foi: sem munições suficientes para aguentar mais que o inimigo, não se deve ir para a guerra.

O argumento para fechar tudo foi o mesmo de sempre: existem países aliados com capacidade de fornecimento; os avisos de crise darão tempo para reconstituir stocks via mercado. O resultado está à vista. Hoje, todos os países estão simultaneamente a reconstituir stocks e Portugal ficará na fila, sem capacidade própria, a aguardar a vez.

E a situação nunca foi confortável, mesmo antes dos encerramentos. O Ministério da Defesa calculava as reservas com base num cenário de 30 dias de combate divisional, herança da Guerra Fria. As reservas de munições de artilharia já então estavam em défice. Não existia sequer um sistema de inventário central fiável. A história dos paióis de Tancos só surpreendeu quem tinha razões para se surpreender.

Hoje, incorporar as lições da Ucrânia significa reconhecer que a dependência de cadeias de abastecimento externas e a insuficiência de reservas de munições não são fragilidades aceitáveis, são vulnerabilidades estratégicas. Desmontar capacidades industriais nacionais em nome da eficiência económica foi um erro de palmatória. Manter os estaleiros de Viana do Castelo é o único exemplo que o governo aponta como estratégico para a indústria militar naval, o que diz muito sobre o estado geral da questão.

Será justo reconhecer o que este governo e o actual Ministro da Defesa (MDN) têm feito. O investimento nas OGMA representa uma aposta concreta na sustentação da componente aérea, garantindo à Força Aérea uma capacidade nacional de manutenção e modificação de aeronaves que poucos países da nossa dimensão conseguem manter. O relançamento do Arsenal do Alfeite, por sua vez, ancora na Marinha uma estrutura industrial própria de manutenção e reparação naval, decisão estratégica que o tempo virá a confirmar. São passos reais, numa direcção certa, e o mérito deve ser reconhecido sem hesitação. Mas há uma lacuna que não pode ser ignorada: o Exército ainda está de fora. Num momento em que se fala dos novos blindados Boxer e em que os Pandur continuam a exigir manutenção intensiva, não existe uma solução industrial equivalente para a componente terrestre. E o paradoxo é cruel, foi o próprio Exército que se viu forçado a encerrar as OGME, as Oficinas Gerais de Material do Exército, precisamente a estrutura logística que deveria garantir parte desse apoio. Fechou-se o que existia, sem que nada de equivalente tenha sido construído para o substituir. A Força Aérea tem as OGMA. A Marinha tem o Alfeite. O Exército tem um vazio e esse vazio, num contexto de rearmamento europeu acelerado, é uma fragilidade que não se resolve com boas intenções nem com concursos públicos lançados em tempo de crise.

Neste quadro, é também justo reconhecer o papel crescente e positivo do idD Portugal Defence na dinamização da base industrial e tecnológica de defesa nacional. O IdD tem trabalhado com determinação para aproximar o tecido empresarial português das oportunidades geradas pelo rearmamento europeu, identificando nichos de mercado, facilitando consórcios e posicionando empresas nacionais nas cadeias de valor da NATO e da União Europeia. É um trabalho silencioso, técnico e muitas vezes ingrato, mas estruturante. O MDN tem neste instituto um instrumento valioso para dinamizar não apenas as empresas sob a sua tutela directa, mas todo o ecossistema industrial de defesa que Portugal precisa de construir ou reconstruir. Porém, enquanto a Força Aérea e a Marinha encontram nas suas estruturas industriais próprias uma resposta de sustentação, o Exército continua a ser o parente pobre desta equação. Condicionado por restrições orçamentais, amarrado por limitações absurdas na contratação de civis para as suas estruturas de manutenção, como se mecânicos e técnicos especializados fossem um luxo e não uma necessidade operacional, o Exército vê-se impossibilitado de manter o que tem, quanto mais de preparar o que virá. A defesa não se faz só com estratégia e diplomacia. Faz-se também com chaves de fendas, linhas de montagem e paióis cheios.

Falar hoje de paióis cheios, leia-se reservas de guerra vai muito além de munições e mísseis. Se num estado de emergência fosse necessário integrar mais 10.000 militares, sendo conservador, onde estão as armas, o fardamento, o equipamento, as instalações e as munições de treino? Faz-se um concurso público internacional no momento da crise? E os mísseis, os drones, os anti-drones, etc… estão em instalações seguras e subterrâneas para o efeito? Adquirem-se e constroem-se quando houver necessidade?

Este é o drama. Eventos de defesa multiplicam-se pelo país, pela Europa e na NATO. Os discursos são ambiciosos, mas são ainda poucos os investimentos reais e as melhorias concretas nesta área. Tirando as minas da Panasqueira com Volfrâmio, Estanho e Cobre, ou o Lítio de Montalegre, o que é feito das quase 200 minas encerradas? Com os requisitos ambientais actuais, quem investe? E o mesmo se aplica às fábricas: desde o anúncio político até à produção efectiva, quanto tempo e quantas crises passarão?

Há um ditado moderno que o General CEME, Eduardo Ferrão, parafraseia com propriedade: "o que faz a diferença não é o exército com as melhores ideias, mas o exército que consegue implementá-las primeiro." Velocidade, adaptação, operacionalização da inovação, interoperabilidade, eis o que separa a retórica da realidade em assuntos militares.

Não faltam diagnósticos. Não faltam relatórios, comissões, seminários e conferências onde se descreve, com rigor e preocupação genuína, a dimensão do problema. O que falta é a coragem política de agir antes da crise e não durante ela, quando o preço a pagar é incomparavelmente mais alto.

A pergunta que fica não é nova. É apenas mais urgente do que nunca:

- Já está feito?

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