Se o leitor esperava o desembainhar de uma rapieira, um corte teatral na bochecha, um toque
no peito seguido de um “En garde!” — sinto informar: foi vítima. Vítima de um bom SEO
técnico, caso tenha aqui chegado via Google ao pesquisar o autor referido no título, ou do que pode ser visto como um clickbait bem servido, se se deparou com este texto no feed de alguma rede social.
É que o título não está necessariamente errado, não, não está. Mas está certamente
exagerado.

Verão, aliás, como não discordo necessariamente de muitos dos pontos que Carlos Guimarães Pinto apresenta no seu artigo "A terceira onda", publicado a 23 de setembro, que recomendo vivamente, não apenas pela qualidade, mas porque, salvo no caso do filme Exterminador do Futuro, raramente compensa ver a sequela antes do original.O que defendo é que o seu ensaio ganharia densidade com os elementos que aqui pretendo acrescentar. E espero que o próprio Carlos, assim como o leitor, os possa levar na devida conta.

O artigo

Carlos Guimarães Pinto sustenta que o nosso cérebro, forjado em ambientes de escassez e ameaça, conserva vieses - atenção ao negativo, procura de padrões, tribalismo - que a tecnologia moderna explora sem piedade. Cada grande salto comunicacional (imprensa, rádio, internet) teria exposto populações a informação disruptiva mais depressa do que a mente humana consegue adaptar-se, alimentando ciclos de polarização e, por vezes, violência, até se atingir um novo equilíbrio social.

Não discordo, necessariamente. A tese tem certa evidência empírica: basta pensar em como a imprensa imprimiu as heresias protestantes que antes morreriam em conventos abafados. Os Valdenses? Ficaram onde nasceram, e morreram, diga-se. Os Cátaros? Não saíram do Sul de França, a não ser pela fogueira. Mas Lutero teve a tipografia. E isso fez toda a diferença. A rádio, por sua vez, prestou-se a fins bem mais altos e audíveis: da Marcha sobre Roma aos microfones da BBC, foi instrumento de uniões nacionais e de forças totalitárias. A Internet, claro, é a herdeira nervosa disso tudo. E ainda assim, discordo.

(Se este fosse de facto um duelo, seria aqui o momento em que ajeito a postura e dou dois passos atrás)

Ou melhor: discordo do salto - o salto que vai de ‘novas tecnologias ampliam a comunicação’ para ‘amplificam o ódio ao diferente’, ignorando a rivalidade entre semelhantes. Do salto lógico, sim, mas também do salto de fé — aquele que deposita na tal “mente tribal” a chave universal para explicar por que nos odiamos tanto, com tanto prazer. Atribuir o atrito à nossa aversão ao diferente é uma ideia tentadora. É também confortável, se o outro fosse menos diferente não haveria problema. Também referir que o Carlos Guimarães Pinto, apesar de ser alguém bastante inteligente e ao mesmo tempo humilde (uma das mais nobres características que podemos ter) caiu, ainda que inconscientemente, num erro arrogante, de achar que seria a racionalidade a resposta para o problema apontado.

A difusão tipográfica no século XVI não opôs civilizações distantes, intensificou rivalidades intra-cristãs. Não foi o Islão contra a Cristandade, mas católicos contra protestantes, anglicanos contra puritanos, irmãos separados por doutrinas recém-impressas e, às vezes, uma vírgula teológica. A rádio de massas, por sua vez, não mobilizou contra um “absolutamente outro”; produziu unanimidades nacionais entre semelhantes, no interior da mesma comunidade política. Claro que, no caso da Alemanha nazi, é fácil apontar o inimigo estrangeiro. Mas o Holocausto acontece, ainda assim, no seio da comunidade germânica, entre vizinhos que falavam a mesma língua, partilhavam cafés, ofícios, calçadas. Os judeus estavam mais bem integrados ali do que em quase qualquer outro lugar da Europa. E foram eles os escolhidos.

No Império Otomano, os arménios eram a minoria mais bem integrada: poder económico, influência política, papel activo nas trocas comerciais e nos conselhos do sultão. Depois da independência grega, herdaram, sozinhos, o papel de conselheiros cristãos - e pagaram por isso. Quando chegou a hora de punir alguém, não se foi buscar um bárbaro do deserto. Foi-se buscar quem estava à mão, dentro, próximo. No Ruanda, o conflito étnico deu-se entre grupos que, para um alienígena imparcial, seriam exactamente iguais. E não é força de expressão: não há, entre hutus e tutsis, uma diferença genética, linguística ou cultural minimamente relevante. E, ainda assim, foi entre eles que ocorreu um dos genocídios mais sangrentos do século XX — patrocinado, curiosamente, por aquela mesma rádio de massas mencionada pelo Carlos.

O inimigo já não é o outro longínquo, mas o quase-igual: o colega de campo ideológico, o aliado que falha um pronome, o influenciador que rivaliza pelo mesmo prestígio.

Terceiro — e mais desconcertante — é o padrão que vemos hoje, nas redes digitais. O inimigo já não é o outro longínquo, mas o quase-igual: o colega de campo ideológico, o aliado que falha um pronome, o influenciador que rivaliza pelo mesmo prestígio. O padrão dominante não é o medo do alheio, mas o zelo inquisitorial dentro do próprio clã, a escalada de censuras recíprocas entre quase-irmãos. A isto acrescenta-se um dado empírico difícil de encaixar na tese tribalista: o aumento de contacto e de visibilidade entre grupos semelhantes não reduz o antagonismo, intensifica-o. Mais proximidade não gera compreensão, mas fricção.

Teoria Mimética: desejamos o que vemos outro desejar

Agora, caro leitor - e caro Carlos, se ainda estiveres comigo nesta sala imaginária - , apresento o meu florete preferido: René Girard. É com ele que entro neste duelo de ideias, e prometo não usá-lo em vão.

A teoria mimética de René Girard - que, aviso desde já, é menos esotérica do que parece - parte de uma observação desconcertantemente simples: não desejamos em linha recta. O nosso desejo não é espontâneo, original; ele é triangular. Desejamos o que vemos outro desejar. Há sempre um sujeito (eu), um objecto (o que eu quero) e, crucialmente, um mediador - alguém que já deseja o objecto e, por isso mesmo, me indica que aquilo vale a pena desejar.

Quando este mediador é distante, inacessível, elevado - uma figura canónica, um santo, um herói, um autor clássico que vive nas estantes de cima - temos o que Girard chama de mediação externa. O modelo inspira, mas não concorre. O desejo é orientado, mas não é ameaçado. Dom Quixote não quer derrubar Amadis de Gaula; ele quer imitá-lo. Há reverência, não rivalidade. Ou, se quiser um exemplo mais lavável: Cristiano Ronaldo como mediador do shampoo que eu vou comprar. Ele usa, eu imito - mas não vou disputar com ele o contrato de publicidade, nem o cabelo, e muito menos os abdominais.

Desejamos não o que é distante, mas o que está à mão - o mesmo prestígio, o mesmo like, a mesma autoridade num campo onde só há lugar para um.

Tudo muda, porém, quando o mediador é próximo - igual, tangível, vizinho, colega de curso, youtuber do mesmo nicho, militante no mesmo grupo de WhatsApp. Aí entramos na mediação interna. Desejamos não o que é distante, mas o que está à mão - o mesmo prestígio, o mesmo like, a mesma autoridade num campo onde só há lugar para um. E eis que o modelo vira obstáculo: aquilo que me inspira é também o que me bloqueia. Surge o escândalo - o skándalon - esse atrito mimético que gera inveja, ressentimento, e, claro, o impulso de empurrar o outro do palco. O mediador, antes figura orientadora, torna-se rival. E aqui, caro leitor, começa a escalada.

É precisamente neste ponto que o diagnóstico “tribalista” tropeça. Porque o conflito mais virulento não nasce da diferença radical - do outro, do bárbaro, do estranho - mas da proximidade competitiva entre semelhantes.

Uma vez instalada a mediação interna, entramos num ciclo de simetria inquietante: as diferenças substantivas esbatem-se, os rivais tornam-se duplos especulares, e tudo se devolve na mesma moeda - insultos, jargões, rituais, hashtags, memes. A querela, ao invés de separar, aproxima: os antagonistas copiam-se enquanto se denunciam. Freud chamou a isso “narcisismo das pequenas diferenças”. Girard apenas mostra o motor por trás: o desejo imitado gera rivalidade; a rivalidade apaga a diferença; a simetria acelera. Até que já não sabemos quem começou - mas sabemos que ninguém quer parar.

Nos dias de hoje: todos contra todos

Quando a rivalidade mimética se generaliza - quando já não é um campo contra outro, mas todos contra todos, como num mercado saturado de desejos espelhados -, o corpo social entra em sobretensão. A violência torna-se indiferenciada: não há mais regras claras, nem inimigos definidos, apenas um zumbido contínuo de acusações, indignações e reações em cadeia.

As sociedades arcaicas, confrontadas com esta mesma espiral de caos, responderam com um dispositivo ao mesmo tempo simples e terrível: convergir sobre uma vítima substitutiva. Os gregos chamaram-lhe pharmakós: um marginal, um corpo-limite, escolhido e marcado como portador do mal comum - e depois expulso (ou eliminado, assassinado, quando necessário) para “curar” a cidade. A ambivalência deste gesto está inscrita no próprio léxico: pharmakon significa, ao mesmo tempo, remédio e veneno - sim, a mesma raiz de onde brota, domesticada agora, a nossa palavra “farmácia”.

O efeito desta expulsão é estrutural: cessando a violência logo após a eliminação, a comunidade interpreta o silêncio como um sinal, um sinal de que funcionou. E, por isso, atribui ao gesto uma eficácia sagrada, retroactiva, sacralizando a própria vítima. A partir daí, o rito sacrificial passa a ser a reencenação regulada daquele primeiro homicídio eficaz: uma tentativa ritualizada de repetir o gesto fundador da paz. Ao institucionalizar o sacrifício, a comunidade encontra uma forma de prevenir novas crises, canalizando a violência potencial para alvos controlados, em momentos controlados, com gestos controlados.

É assim que nasce o sagrado. E com ele, emergem os tabus: o que não se diz, o que não se toca, o que não se reparte. Cada proibição funciona como uma barreira simbólica contra a recaída no caos. Cada limite ritual marca uma zona de perigo.

No mundo contemporâneo, porém, o imaginário moral centrado na vítima faz ruir a aura do mecanismo: já não acreditamos na culpa absoluta do sacrificado. (E com razão, dirá o leitor.) Mas atenção: o resultado não é a abolição do bode expiatório - que seria, até certo ponto, um progresso. É algo mais subtil e mais frustrante: a sua ineficácia crónica. Continuamos a fabricar pharmakoi - mas agora sem a magia de antes. A catarse dura o tempo de uma partilha. O conflito reaparece noutro ponto, com outro nome, outro rosto, outro pretexto. As plataformas digitais tornam-se, então, multiplicadoras de um padrão antigo: micro-ritos de expulsão, fragmentos sacrificiais lançados em série. Pile-ons, cancelamentos, exílios relâmpago - todos sem centro comum, sem estabilização social, sem transcendência.

A internet junta o custo nulo da difusão com a publicidade da comparação. Todos falam, todos vêem, todos contam. Todos se comparam

A tecnologia, diga-se, não cria a polarização. Funciona como amplificador mimético: intensifica o desejo, encurta as distâncias, aumenta a exposição, torna o prestígio algo visível, público, quantificável. Partilhas, reacções, likes, listas de tendências - é tudo menos inócuo.

Historicamente, a imprensa padronizou o discurso e acelerou a circulação das doutrinas. A rádio centralizou a emissão, sincronizou a recepção e impôs, pela simultaneidade, uma forma de comunhão nacional. A internet, a última metamorfose, junta o custo nulo da difusão com a publicidade da comparação. Todos falam, todos vêem, todos contam. Todos se comparam.

O padrão, se me permitem a frieza analítica, é estável: quanto mais proximidade e comparabilidade entre rivais, mais rivalidade. A fórmula é implacável - e profundamente entediante, se esperávamos que a modernidade nos libertasse de nós mesmos.

Com este pano de fundo, é crucial - crucial - distinguir cancelamento de polarização. O primeiro é uma tentativa de gerar unanimidade local, um “todos contra um” que produz, por instantes, alívio ao grupo executor. Já a polarização é de outra ordem. Trata-se de um estado prolongado em que duas ou mais unanimidades concorrentes se mantêm em paralelo, cada qual a fabricar os seus próprios bodes expiatórios, com simetria e nenhuma catarse comum.

Em termos girardianos, vivemos numa crise mimética sem válvula sacrificial central - ou, como explicou Dumouchel, numa proliferação de sistemas sacrificiais parciais, pequenas purgas que aliviam localmente e reacendem, quase imediatamente, o conflito no sistema como um todo.

O resultado, previsível, é um ressentimento simétrico: cada lado proclama a própria inocência, atribui ao outro a posição de agressor absoluto, e todos, em uníssono, se julgam injustamente perseguidos.

Em democracias de massa, ambos reclamam autoridade moral, centralidade institucional, legitimidade para nomear o que conta como verdade, virtude e normalidade; assim, cada campo se faz modelo-obstáculo do outro - modelo, porque indica o que vale (atenção, prestígio, influência); obstáculo, porque ocupa o lugar cobiçado. O “outro” deixa de ser longínquo e torna-se o duplo que me barra o reconhecimento como representante do comum.

Daqui procede a polarização. Como os rivais disputam o mesmo centro - governo, escola, média, lei, prestígio cultural -, cada movimento imita as tácticas eficazes do adversário: retórica de urgência, fact-checking de conveniência, boicotes, exposés, tribunais morais, e, nos últimos tempos, violência explícita; enquanto o fazem, juram agir apenas em reação.

O resultado é ódio estabilizado: não por valores incomensuráveis, mas porque duas unanimidades concorrentes se enfrentam no mesmo palco, e cada gesto do adversário confirma-me vítima inocente e o fixa agressor absoluto

Esta simetria performativa apaga diferenças estruturais e fixa identidades por oposição - “somos o que eles não são” - , tentativa derradeira de repor diferença onde a rivalidade já produziu indiferenciação. Sem mecanismo sacrificial central que gere unanimidade ampla, cada lado fabrica os seus bodes expiatórios e colhe alívio breve; o outro replica em espelho e o ciclo recomeça.

O resultado é ódio estabilizado: não por valores incomensuráveis, mas porque duas unanimidades concorrentes se enfrentam no mesmo palco, e cada gesto do adversário confirma-me vítima inocente e o fixa agressor absoluto. Um conservador “odeia” um liberal - e vice-versa - não por vê-lo diferente e distante, mas semelhante e usurpador do lugar ambicionado. A tecnologia apenas acelera a proximidade e torna pública e contínua a comparação de prestígio, mantendo a rivalidade acesa.

Conclusão

Este enquadramento esclarece as incongruências do diagnóstico tribalista. Primeiro, explica por que razão as guerras mais intensas são intra-campo: porque é o semelhante - e não o estrangeiro, o bárbaro ou o radicalmente outro - quem representa o verdadeiro obstáculo. É ele que disputa connosco os mesmos bens simbólicos: prestígio, pureza, autoridade. Daí os cancelamentos “por insuficiente ortodoxia” dentro de cada movimento - Quem não foi progressista o suficiente ou quem não foi conservador suficiente.

Segundo, mostra por que motivo facções opostas convergem em formatos e tácticas: verificação, memes, exposés, boicotes. A rivalidade força a mimetização do eficaz. Não se trata apenas de combate, mas de espelhamento estratégico: gestos que se repetem entre antagonistas, como se cada campo estudasse o outro para melhor imitá-lo enquanto o denuncia.

Terceiro, esclarece por que cada escândalo não pacifica: a válvula sacrificial, fragmentada por campos, não produz uma unanimidade ampla. Ao contrário, reforça os coros rivais. A vítima de um lado é mártir; do outro, é criminoso. O gesto de expulsão não restabelece a ordem - apenas realimenta o ciclo.

Quanto mais nos vemos, menos nos toleramos. Quanto mais informação partilhamos, mais crescemos em vigilância e ressentimento

Quarto, e talvez mais perturbador, mostra por que razão mais contacto e mais informação não reduzem o conflito. Quanto mais nos vemos, menos nos toleramos. Quanto mais informação partilhamos, mais crescemos em vigilância e ressentimento. (E depois perguntam por que é que a transparência não resolveu nada.)

Os exemplos históricos, à luz desta grelha, podem ser relidos sem cair em determinismo tecnológico. A imprensa não “causou” as guerras religiosas; catalisou rivalidades pré-existentes, ao tornar doutrinas comparáveis e mobilizáveis em larga escala. A rádio não inventou o totalitarismo; forneceu a infraestrutura de difusão centralizada adequada a projectos que já a desejavam. (O Volksempfänger, recordemos, não foi desenhado para o pluralismo.)

A internet, por sua vez, não cria a disposição à malícia, torna-a contínua. Expõe os rivais uns aos outros de forma ininterrupta, publiciza a reputação por métricas, estabiliza a comparação e a competição. Tudo se torna mensurável: influência, prestígio, “engajamento”. E o que é mensurável, torna-se, inevitavelmente, disputado.

Em suma, o padrão não é “mais comunicação → mais ódio ao diferente”, esse é o mito reconfortante dos que ainda acreditam que informar resolve. O padrão real, visível, reiterado, é outro: “mais proximidade→ mais rivalidade”.

Aguardarei, de espada embainhada, pela próxima tese de Carlos — e quem sabe, uma réplica. O duelo, afinal, só vale se for entre semelhantes.