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No início de maio, entra-se numa superfície comercial e o cenário é quase sempre o mesmo: flores cor-de-rosa alinhadas à entrada, cartões com letras douradas, mensagens que anunciam o Dia da Mãe com semanas de antecedência. A pressa é quase automática. A pessoa passa, desvia o olhar e segue caminho como quem não quer ficar preso numa conversa que não lhe diz respeito.
Não é falta de amor. É desconforto, daqueles difíceis de explicar.
Nem toda a gente tem alguém para celebrar. Há ausências que continuam demasiado presentes, relações que ficaram por resolver e histórias que nunca chegaram a ser aquilo que deviam. E há ainda quem esteja do outro lado, quem seja mãe, e não se reconheça na versão limpa e simplificada que domina as prateleiras.
O Dia da Mãe regressa todos os anos e, para muita gente, não chega como celebração, mas como um lembrete que nunca foi pedido.
A versão que se repete todos os anos
A imagem é conhecida: mães sorridentes, filhos à volta, flores na mão, emoção no ponto certo. Funciona porque é fácil de reconhecer, de comunicar e de partilhar.
O problema começa quando essa imagem passa a ser a única.
Há quem viva este dia com a ausência de uma mãe que morreu há dois anos, há vinte ou há poucos meses. O tempo avança, mas há datas que não acompanham esse ritmo. O calendário chega sempre à mesma altura, indiferente ao que cada pessoa carrega.
Outras pessoas vivem com relações partidas, marcadas por anos de silêncio e por coisas que nunca chegaram a ser ditas. Nesses casos, o que deveria ser um gesto simbólico transforma-se num lembrete do que não existe ou do que ficou por resolver.
O lado que raramente entra na conversa
Depois há um outro lado, menos visível.
As mães reais, com tudo o que isso implica. As que amam profundamente, mas que também vivem momentos de exaustão que não cabem em palavras. As que fazem tudo e continuam com a sensação de que não chega. As que perderam partes de si no processo e não sabem bem como as recuperar.
A maternidade comporta várias camadas ao mesmo tempo. Pode ser bonita e pesada, leve e difícil, presente e ausente. O problema não está nessa complexidade. Está na forma como, muitas vezes, só uma dessas versões ganha espaço público.
Quando isso acontece, quem não encaixa nessa narrativa fica mais exposto. Não por intenção, mas por ausência de espaço.
Dar espaço também é reconhecer
Há um texto que circula há anos na internet, escrito por uma mulher que perdeu a mãe cedo, onde descreve este dia como o momento em que toda a gente celebra em voz alta aquilo que ela perdeu em silêncio. A frase resiste porque não dramatiza. Apenas descreve.
Esse silêncio não vive apenas no luto. Está também nas relações difíceis, nos afastamentos necessários e nas histórias de quem cresceu com outras figuras que ocuparam esse lugar de forma mais presente.
A realidade é sempre mais complexa do que aquilo que cabe num cartão.
Talvez este dia não precise de menos celebração, mas de mais espaço. Espaço para quem celebra com alegria genuína e para quem atravessa o dia com um nó na garganta. Para quem não tem mãe. Para quem se afastou para conseguir continuar. Para quem vive a maternidade com amor e com cansaço ao mesmo tempo.
Reconhecer isto não tira nada a ninguém. Mas pode mudar a forma como alguém atravessa o dia.
Nem todas as pessoas encaram o Dia da Mãe da mesma forma. Para algumas, continua a ser simples: ligar à mãe e dizer qualquer coisa banal, que acaba por conter tudo aquilo que não cabe em palavras maiores.
No meu caso, há também memórias pequenas que ficam. As corridas com a minha mãe para apanhar o autocarro n.º 77 a caminho da escola primária, os fascículos da Planeta DeAgostini comprados numa papelaria na Rua Visconde de Setúbal, no Porto, como “Era uma vez o Corpo Humano”, ou a coleção de xadrez do Dragon Ball Z, coisas que transformavam tardes normais em qualquer coisa maior do que pareciam na altura.
Se este texto o fez parar um pouco, talvez valha a pena partilhá-lo com alguém que possa estar a viver este dia de forma diferente.
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