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O Vasco tem nove anos e o Vicente quatro. O mais novo ainda troca meia dúzia de letras quando fala, mas já desliza o dedo no ecrã com uma destreza que, confesso, me assusta um pouco. Os dois davam uma bela fotografia.

Foi exatamente a pensar nisso que parei.

Porque há aqui qualquer coisa que não encaixa. Celebramos a infância no dia 1 de junho, mas o que comemoramos pouco tem a ver com aquilo que andamos a entregar aos miúdos.

A minha infância era lenta (felizmente!)

Eu cresci com um Windows 95 que demorava uma eternidade a arrancar. Carregava-se no botão e ia-se fazer outra coisa, porque o computador ainda estava a pensar se valia a pena ligar-se.

Passei tardes inteiras a jogar Minesweeper e FreeCell sem perceber bem as regras, só pelo prazer do clique e do risco. Outras tantas a olhar para os efeitos visuais do Windows Media Player, aquelas ondas coloridas que dançavam ao som da música como se tivessem vida própria. Não havia ali nada para fazer. E era isso o melhor.

A internet, então, era um acontecimento. Ligava-se pela linha telefónica, a uns gloriosos 56 kbps, e lá em casa eu tinha direito a surfar uma hora por semana. Sim, uma única hora. E, como é óbvio, passava a semana toda a planear esse tempo. Pesquisava no AltaVista coisas que provavelmente nunca encontrava, entrava no mIRC para falar com desconhecidos sobre o tempo e, quando a hora acabava, acabava mesmo.

O resto do tempo era meu e grande parte dele era tédio. Repara bem nesta palavra, porque desapareceu.
Tédio.

Aquele vazio em que não havia notificações nem algoritmos a dizer-me o que fazer a seguir. Era nesse vazio que eu inventava. Desmontava o computador para perceber como funcionava por dentro. Explorava menus que ninguém me tinha mandado abrir. Abria o Paint e mexia nele durante horas, a pintar, a apagar e a recomeçar como se fosse um designer de renome. O aborrecimento não era um problema a resolver, mas sim a matéria-prima da curiosidade.

Os meus filhos quase nunca se aborrecem. E isso, que à primeira vista parece uma vitória da parentalidade moderna, talvez seja o que de mais valioso lhes estamos a tirar.

Na escola do meu filho, já ninguém quer ser astronauta

Há dias, o meu mais velho contou-me, com a maior das naturalidades, que vários colegas dele já sabem o que querem ser quando forem grandes. Youtubers. Não bombeiros, médicos ou astronautas.

A minha primeira reação foi a do costume, aquele resmungar de adulto convencido de que no seu tempo é que era. Mas travei-me a tempo, porque o problema não é o sonho ser pior. Ser youtuber não é mais pobre do que ser carteiro. O problema é outro e mais fundo.

Quando eu era miúdo, olhava para o ecrã. Os miúdos de hoje querem viver lá dentro, porque ver conteúdo já não lhes chega. O objetivo é serem eles o próprio conteúdo.

E não é impressão de pai preocupado. Ser famoso na internet deixou de ser uma fantasia e passou a ser plano de carreira, talvez o único que parece mesmo ao alcance de qualquer um, sem cursos nem anos de preparação, apenas um telemóvel e uma ideia.

Fica a pergunta a martelar na minha cabeça: onde é que uma criança de nove anos aprende que o que vale a pena é ser vista na internet?

Desconfio que a resposta começa em casa, porque não lhes demos só o ecrã. Pusemo-los lá dentro.

A criança de hoje não é apenas espectadora do digital. É conteúdo puro. Antes de saber escrever o próprio nome, já tem uma pegada online com fotografias de aniversários, vídeos de primeiros passos, o dia da praia, a birra engraçada que rendeu 273 likes. Tudo publicado por quem mais a ama e sem que ela tenha consentido o que quer que fosse.

E sei do que falo, porque também já o fiz.

Já partilhei fotografias deles e senti aquele pequeno orgulho quando os corações começavam a chegar. O problema é que, algures pelo meio, deixa de ser sobre a criança e passa a ser sobre nós. Aquela imagem que queremos passar de pais presentes, de família feliz e de infância perfeita. A criança vira prova social de um projeto que é nosso, não dela.

Trabalho em Marketing há mais de dez anos. Passo os dias a pensar como se constrói uma audiência, como se gera confiança, como uma imagem comunica. E reconheço o mecanismo quando o vejo. A verdade é que muitos pais, sem darem por isso, fazem branding pessoal com os filhos. A diferença é que uma marca pode escolher o que publica sobre si. Uma criança de quatro anos não.

Então o que estamos a celebrar no Dia da Criança?

A criança ou a versão dela que dá jeito mostrar?

Não tenho uma resposta certa e desconfio de quem tenha. Eu próprio vou continuar a hesitar entre o impulso de partilhar e a vontade de proteger. Mas há uma pergunta que passei a fazer antes de carregar no botão de publicar: isto é para ele ou para mim?

Calma, não estou a fazer um apelo para atirar os telemóveis pela janela fora nem para fingir que vivemos em 1996. O digital também trouxe coisas boas e seria desonesto da minha parte dizer o contrário.

É só um convite a abrandar. A deixá-los aborrecer-se outra vez, para que o tédio os faça inventar. E a expô-los menos, para que cresçam sem uma plateia.

Talvez o melhor presente que possamos dar a uma criança no dia 1 de junho seja, precisamente, não publicar nada.

Deixá-la ser criança longe do ecrã. E, sobretudo, longe do nosso.

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