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Não porque tenha feito planos para partir, mas porque a doença obrigou a reorganizar tudo: horários, trabalho, escola, rotinas, despesas, medos, expectativas. Quando uma criança, adolescente ou jovem adulto recebe um diagnóstico de cancro e precisa de tratamento longe da sua área de residência, a distância até ao hospital passa a ser também uma distância da casa, da família alargada, dos amigos, da escola, da vizinhança, dos lugares conhecidos.

É nesse intervalo difícil que existem as Casas Acreditar.

Situadas junto aos hospitais de referência em oncologia pediátrica, em Lisboa, Coimbra e Porto, as Casas Acreditar acolhem famílias que precisam de se deslocar para acompanhar os tratamentos dos seus filhos. Em 2025, 214 famílias fizeram destas Casas a sua casa, num total de 13.947 noites. São números importantes, porque ajudam a medir a dimensão da resposta. Mas, por detrás de cada noite, há uma família que não teve de fazer uma viagem cansativa depois de um tratamento. Há uma mãe ou um pai que conseguiu cozinhar uma refeição. Há irmãos que puderam continuar juntos. Há roupa lavada, uma porta que se fecha para descansar, uma sala onde se encontra outra família, uma conversa que acontece sem ser preciso explicar tudo desde o início.

As Casas Acreditar são mais do que alojamento temporário. São espaços onde, dentro do possível, se preserva alguma normalidade. As famílias têm quartos individuais, zonas comuns, cozinhas, lavandarias, espaços onde podem preparar refeições, tratar da roupa, organizar os seus dias e participar na vida da Casa com autonomia. Esta autonomia é, muitas vezes, uma forma silenciosa de dignidade: poder continuar a fazer pequenas escolhas quando tantas outras parecem ter sido suspensas pela doença.

Ao mesmo tempo, estas Casas são lugares de encontro. Famílias que chegam de diferentes pontos do país e de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa cruzam-se nos corredores, nas cozinhas, nas salas, nas atividades. Nem sempre é preciso dizer muito. Por vezes, basta reconhecer no outro uma experiência semelhante. A partilha entre famílias, crianças, jovens, voluntários e equipa cria uma rede discreta, mas essencial. 

Nas Casas Acreditar, também se brinca, se celebra, se aprende, se conversa, fazem-se atividades que juntam famílias e ajudam a criar memórias para além da doença. Há muitas brincadeiras no jardim, momentos lúdicos mais estruturados, iniciativas de bem-estar, refeições partilhadas. Pequenas rotinas que não anulam a dureza do que cada família vive, mas lembram que a vida não fica totalmente suspensa durante os tratamentos. Continua a acontecer, mesmo quando acontece de outra forma. 

Ao longo dos anos, muitas famílias passaram pelas Casas durante dias, semanas, meses ou anos. Algumas chegaram com bebés ao colo. Outras com adolescentes em tratamento. Outras ainda com irmãos que também precisaram de encontrar o seu lugar naquele tempo de doença. Entre essas histórias, há a de uma menina que ali nasceu quando o irmão estava em tratamento e que viu numa das Casas Acreditar a sua primeira casa. Viveu ali quase dois anos. Para ela, a Casa não foi apenas um apoio logístico à família: foi o lugar onde começou a conhecer o mundo, onde aprendeu rotinas, sons, rostos e afetos. A sua primeira casa foi uma casa partilhada com outras famílias, atravessada por tratamentos e cuidados, mas também por colo, brincadeiras, refeições, corredores conhecidos e pessoas que a viram crescer.

As Casas Acreditar existem para isso: para que uma família, mesmo longe da sua casa, não perca completamente o chão. Para que a criança ou jovem em tratamento tenha por perto quem ama. Para que os pais possam cuidar sem serem esmagados pela distância, pela logística e pelo isolamento. Para que os irmãos também tenham lugar. Para que, no meio de uma experiência exigente, continue a haver espaço para o quotidiano, para a partilha, para o descanso e para alguma esperança tranquila.

Essa capacidade de adaptação também faz parte da história das Casas Acreditar.

Durante a pandemia, quando tudo parecia contrariar a ideia de casa, as Casas tiveram de se reinventar para continuar a acolher as família, garantindo a proteção de todos.  À entrada, surgiram chinelos de hotel para que todos, sem exceção, pudessem deixar os sapatos da rua. As máscaras esconderam durante demasiado tempo os rostos, os sorrisos e tantas expressões que ajudam a reconhecer o outro. As luvas, o álcool-gel, as regras de circulação e os cuidados acrescidos passaram a marcar presença.

Foi preciso encontrar um equilíbrio delicado: garantir segurança sem transformar a Casa num lugar frio; proteger sem afastar; acompanhar sem perder humanidade. A pandemia trouxe barreiras físicas, mas também mostrou a força de uma Casa que se adapta às necessidades de cada tempo. 

Mais recentemente, também o apagão veio recordar que uma Casa se mede, muitas vezes, pela forma como responde ao imprevisto. De um momento para o outro, foi necessário reorganizar rotinas, antecipar necessidades e encontrar soluções para que, apesar de tudo, as famílias continuassem a sentir algum conforto e segurança. Compraram-se de imediato lanternas, reforçaram-se as reservas de produtos alimentares essenciais e procuraram-se formas alternativas de confecionar alimentos. Adaptaram-se procedimentos, ajustaram-se respostas e fez-se o que tantas vezes se faz nas Casas Acreditar: olhar para o que é preciso naquele momento e agir.

Nestes episódios, tão diferentes entre si, há uma mesma forma de estar. As Casas Acreditar não são espaços rígidos, preparados apenas para dias previsíveis. São casas vivas, capazes de mudar quando a realidade muda. Porque quando se acolhe famílias em contexto de doença, sabe-se que o inesperado faz parte do caminho e que acompanhar é também criar soluções simples, rápidas e humanas para que a vida possa continuar com a maior dignidade possível.

As várias histórias que por cá passaram e estes desafios mostram que o impacto das Casas Acreditar não cabe apenas em indicadores. Cabe no descanso possível depois de um dia de hospital. Na redução dos custos para uma família que já enfrenta tantas despesas acrescidas, uma vez que a estadia nas Casas é gratuita. Na poupança que representa para o Estado uma vez que as Casas Acreditar evitam a necessidade de investimento público significativo na criação e manutenção de respostas de alojamento adequadas às necessidades das crianças e jovens com cancro e das suas famílias. Na segurança da proximidade ao tratamento. Na possibilidade de manter irmãos por perto. Na serenidade de não ter de regressar a casa de madrugada. Na confiança de saber que há uma equipa de voluntários disponível. No conforto de encontrar outras famílias que compreendem sem julgar. Na construção de laços que, muitas vezes, permanecem muito para além da estadia.

Porque, quando o cancro se mete no caminho, nenhuma família deve ter de o percorrer sozinha.

Sobre a Acreditar

A Acreditar – Associação de Pais e de Amigos de Crianças com Cancro existe desde 1994 com o objetivo de minimizar o impacto da doença oncológica na criança, no jovem e na sua família. Presente em quatro núcleos regionais: Lisboa, Coimbra, Porto e Funchal, dá apoio em todos os ciclos da doença e desdobra-se nos planos emocional, logístico, social, jurídico entre outros. Em cada necessidade sentida, dá voz na defesa dos direitos das crianças e jovens com cancro e suas famílias. A promoção de mais investigação em oncologia pediátrica é uma das preocupações a que mais recentemente se dedica. 

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