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No sistema noticioso/informativo atual já não são os jornais e a televisão (a chamada “legacy media”) que dão o conhecimento real das decisões de quem decide ao nível global. Esse papel passou a ser desempenhado pelos “podcasts” de rádio e os “substacks” (blogues por assinatura) que vasculham o balde do lixo por conta própria – isto é, sem patrões a controlar ou patrocinadores a sugerir. Jornalistas clássicos, como Paul Krugman, Anne Applebaum e Tina Braun, ou recém-chegados à arena, como os irmãos Meidas e Aaron Parnas, sentados em suas casas à frente do computador e conectados com meio mundo, sem qualquer constrangimento político ou económico, dizem as coisas como são, doa a quem doer. 

Não é possível acreditar na sua idoneidade, mas também já não se acredita na idoneidade da “legacy media”, pelo que a única maneira de saber “as coisas” é acompanhar muitos e tirar as próprias conclusões. “Quem é que tem razão?” e “Quem é que diz a verdade?”, são perguntas inúteis desde que a Internet se tornou a maior rede de “informação” do Universo.

Dito isto, fomos investigar e encontrámos dois encontros dos que podem e sabem: Davos, a cidade Suíça onde desde 1971 se reúne o Foro Económico Mundial – este ano com 3.000 líderes de 130 países, incluindo 65 chefes de Estado e 860 presidentes de grandes empresas. E Bilderberg: o grupo de maiores ainda,  que se reúne desde 2022 em cidades diferentes (inclusive Lisboa, em 2023) e é rodeado de um secretismo suspeito – este ano foi no Hotel Salamander, em Washington, com 128 participantes de 23 países.

Escolhemos Bilderberg, porque Davos, não sendo aberto ao público, é bem coberto por jornalistas profissionais e favorece o diálogo perante audiências (presentes e televisivas). Davos é onde as vaidades se mostram e também viaja para fora da Suíça, dando oportunidade a todos os muito bem de vida de mostrar que a vida é bela.

Bilderberg, chama-se assim porque o primeiro encontro (de três dias, sempre) foi no Hotel De Bilderberg, em  Oosterbeek, nos Países Baixos. A Bilderberg só se vai por convite, e os convites são feitos pelo chamado Comité Dirigente. (São tudo dirigentes de bancos, instituições financeiras, fundos de “trust” e empresas, como Axel Springer, dono do maior grupo de media do mundo, Zanny Minton Bedoes, a diretora do “The Economist (que nunca comenta os encontros), Nadella Satya, CEO da Microsoft, e até tem um português, José Manuel Durão Barroso.(Por falar nele, é detestado no país da inveja, porque passou de jovem maoista a sénior da Goldman Sachs International).

Mas o mais importante, o homem que inventou o grupo, maior doador e muito discreto, é Peter Thiel, o ex Libertário convertido ao trumpismo, inventor da Paypal e dono de uma infinidade de empresas com currículos sinistros, como o Vanguard Group, Black Rock, e Palantir, com interesses na Microsoft e detentor de uma fortuna avaliada em 27 biliões de dólares. 

Quando digo “sinistros” estou a pensar na Palantir, cujo negócio é fazer bases de dados intrusivas de milhões de pessoas. Por exemplo, neste momento a Palantir está ligada ao Governo inglês na defesa e no Serviço Nacional de Saúde, o que tem gerado discussões sobre a sua interferência na vida privada dos cidadãos ingleses. É cidadão alemão (onde nasceu) neozelandês e americano, e tem interferência significativa no aparelho repressivo dos Estados Unidos (CIA, ICE e armamento). Segundo os críticos é considerado um “libertário conservador”, um “autocrata séptico da democracia” e, acima de tudo, um “teólogo político” e arquiteto do espírito contemporâneo de Silicon Valey – isto segundo um livro publicado pelo investidor e escritor Howard Marks, que é também um investidor em seguros de risco... 

O que se discute nestas reuniões, ninguém sabe. Será como matar a fome das crianças subnutridas do Sudão? Ou será como controlar a vida privada dos adultos integrados no “Estado Social”? Uma coisa é certa: quem detém esta quantidade de Poder e de dinheiro não tem as mesmas preocupações que os 330 milhões de pessoas sem casa para morar, ou dos três mil milhões que moram em bairros de lata sem água corrente, ou dos envolvidos nos conflitos bélicos sem fim que não nos deixam dormir descansados. Resta-nos recorrer à Bíblia: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico chegar ao céu”. Amen.

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