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O que a economia russa experenciou desde a invasão de 2022 não foi crescimento orgânico. Foi um efeito de estufa criado pelo regime: o governo esvaziou o Fundo Nacional de Bem-Estar para financiar a indústria de guerra e sustentar a aparência de normalidade. Esse fundo está agora praticamente esgotado. O crescimento travou no início de 2026 e o que é revelador é que o próprio governo russo o admitiu. Quando Moscovo confessa os seus problemas económicos, é porque estes são demasiado graves para serem disfarçados.

O investimento privado caiu mais de 5% nos primeiros meses do ano. A inflação dispara a um ritmo que envergonharia qualquer banco central ocidental. Estamos perante a pior combinação possível: estagflação, contração económica com inflação elevada. A solução que resta ao Kremlin, imprimir dinheiro para cobrir défices de 80 mil milhões de dólares só nos primeiros quatro meses do ano, não é uma solução. É um acelerador do problema.

Seria tentador pensar que a guerra no Médio Oriente, com o petróleo em alta, oferecia a Moscovo uma tábua de salvação inesperada. Não é assim. A subida brusca do preço do barril valorizou o rublo em cerca de 25% nos últimos dois anos, o que significa que, por cada dólar recebido pela venda de petróleo, a Rússia leva para casa menos rublos. E são os rublos que pagam os salários, os mísseis e as pensões.

Na recente conferência da indústria de defesa, até Sergei Chemezov, amigo pessoal de Putin e presidente da gigante estatal Rostec, se queixou publicamente do rublo forte. Quando os aliados mais próximos do Kremlin se lamentam em público, percebe-se que o problema não é marginal.

A Reuters por estes dias noticia que a economia russa, de 3 biliões de dólares e dependente de matérias-primas, desacelerou drasticamente para um crescimento de cerca de 1% no ano passado, face aos 4,9% de 2024, e encolheu 0,2% no primeiro trimestre de 2026. As autoridades atribuíram a queda às elevadas taxas de juro, às sanções ocidentais e à valorização do rublo. A previsão é agora de um crescimento modesto de 0,4% para este ano e Putin ordenou às autoridades que procurem formas de restaurar o crescimento da economia russa, mas os empresários afirmam que a melhor forma de alcançar este objetivo é acabar com a guerra contra a Ucrânia.

Os ataques com drones da Ucrânia às infraestruturas petrolíferas russas têm ocupado as manchetes. As imagens de terminais em chamas são dramáticas, mas a realidade operacional é menos catastrófica do que parece. Um depósito a arder é fotogénico, mas não impede os petroleiros de carregar. Os portos têm sido reparados rapidamente, e as exportações de petróleo continuam.

O verdadeiro impacto dos drones é outro: é psicológico e político. Quando os aeroportos de Moscovo fecham por causa de ataques, um voo de uma hora transforma-se numa viagem de comboio de dois dias. As empresas russas, mesmo as que nada têm a ver com a guerra, absorvem os custos dos danos e da proteção, sem qualquer apoio estatal. A irritação acumula-se. A elite empresarial, que durante anos fechou os olhos à aventura ucraniana, começa a sentir o peso dela no seu próprio bolso.

Porém, seria um erro de análise confundir deterioração económica com mudança política iminente. A Rússia não opera de acordo com as premissas frequentemente usadas nas análises ocidentais. O Estado russo foi historicamente construído em torno de narrativas de força, resistência, sacrifício e confronto. Admitir a fraqueza é perigoso num sistema em que a legitimidade está intimamente ligada ao poder e à percepção de ser capaz de defender e expandir os interesses do Estado.

A economia pode deteriorar-se significativamente sem que Putin caia, porque não existem mecanismos legítimos para canalizar o descontentamento. A repressão atingiu níveis que não se viam desde os anos 1950. Expressar insatisfação pode resultar em anos de prisão. A população cala-se. A elite resmunga em privado, mas o silêncio não é estabilidade. É pressão acumulada.

As promessas do Kremlin falharam uma a uma: a vitória rápida nunca chegou, a substituição das importações ocidentais não aconteceu, a aliança com a China revelou-se uma relação de exploração unilateral, e o sistema financeiro alternativo dos BRICS permanece uma miragem. O descontentamento com Pequim cresce silenciosamente em Moscovo. Putin governa hoje um país em que a população, as elites e os oligarcas estão insatisfeitos, mas ninguém sabe como transformar essa insatisfação em mudança. Isso não é estabilidade. É um beco sem saída.

Para Putin, o que está em causa é cada vez mais existencial. Um regime que ligou a sua legitimidade ao confronto, à mágoa histórica e à ideia de defender uma esfera de influência russa não pode facilmente reconhecer o fracasso sem pôr em risco a sua própria sobrevivência. Isto torna os períodos de vulnerabilidade potencialmente mais perigosos, e não automaticamente mais estabilizadores. Um regime acossado pode escalar, não recuar.

As guerras não são sustentadas apenas pela economia. São sustentadas pela sobrevivência política, pela ideologia, pelas estruturas de poder e pela legitimidade percebida. Mesmo as instituições russas que avaliam os riscos económicos reconhecem que os gastos militares continuam a ser a prioridade absoluta do Estado e que os recursos continuarão a fluir para a produção de armamento, independentemente dos desequilíbrios estruturais crescentes.

Assumir que sanções, pressão económica ou dificuldades internas produzirão inevitavelmente o resultado político desejado é subestimar tanto a natureza do sistema russo como o comportamento histórico das autocracias em tempo de guerra.

O que se pode esperar?

A Rússia mostra cada vez mais fissuras. A pressão externa, sanções, apoio à Ucrânia, isolamento diplomático, continua a ser essencial para apressar o momento em que essas fissuras se tornem irreparáveis, mas o Ocidente não pode construir a sua estratégia sobre a premissa de que o problema se resolverá por si.

A democratização da Rússia é a única saída duradoura para a sua agressividade crónica. Enquanto isso não acontecer, a Europa precisa de se preparar para um desafio de longo prazo, não para uma correção de curto prazo. O milagre russo acabou. Os seus reflexos de sobrevivência, porém, continuam tão perigosos hoje como ontem!

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