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A pesca, setor em que a Islândia é uma potência mundial (bacalhau, arenque, carapau) opõe-se à adesão porque esta indústria recusa ficar submetida às regras limitativas da União Europeia. Mas a segurança geopolítica leva muitos islandeses à discussão sobre se devem ou não continuar sozinhos no meio do mar, no Atlântico Norte vizinho do Ártico. O debate já vem de longe e cresceu ao ouvirem a vontade de Donald Trump de anexar a Gronelândia. Há quem pergunte: e se Trump se lembrar de também pretender este país (independente do Reino da Dinamarca e que em 1944 se tornou república) a escassos 300 quilómetros da Gronelândia?
A Islândia é um país da NATO, mas sem exército – a força de defesa de que dispõe é a Guarda Costeira. Há na Islândia quem entenda que a NATO não está proteção suficiente na hipótese, por mais remota que seja, de a gente de Trump (o próprio ou algum sucessor na linha MAGA) vir a cobiçar a Islândia. A Europa é vista como uma âncora fiável.
É facto que a UE ainda não tem um exército, mas tem, para além de força política, as tropas, os aviões e os navios dos seus Estados-membros vinculados ao compromisso de proteção mútua através da obrigação de defesa mútua. É proteção também contra ameaças híbridas e os submarinos russos.
É com este enquadramento que os islandeses votam neste 29 de agosto se querem retomar as negociações com a União Europeia. Há algum trabalho negocial que já está feito: em 2009, o governo da Islândia, então de centro-esquerda, apresentou a candidatura à União Europeia, as negociações começaram de imediato e 11 dos 35 capítulos do processo de adesão ficaram negociados até março de 2015, quando o governo das direitas então eleito pelos islandeses, com linha fortemente eurocética e alinhado com o setor das pescas, suspendeu as negociações com a Comissão Europeia.
Em 2024, a Islândia voltou a escolher um governo de centro-esquerda e uma das promessas eleitorais era a de um referendo sobre a adesão à União Europeia. Foi marcado para o ano que vem, mas o cenário geopolítico levou o governo de Reiquejavique a antecipá-lo para este sábado.
A campanha está renhida. O campo do “Não” à adesão centra-se na perda de soberania, com grande repercussão na pesca (8% do PIB islandês, 40% das receitas das exportações) e na agricultura (a Islândia tem mais ovelhas do que pessoas). Um dos argumentos pelo “Não” é a ameaça de o mar da Islândia ser invadido por navios pesqueiros da União Europeia, outro é o de perda da capacidade de decisão sobre quotas de peixe capturado.
A campanha do “Sim”, que inclui o atual governo, refuta estes argumentos, explicando que em caso de adesão a Islândia iria requerer à UE a chamada cláusula de exclusão opt-out e assim manter-se fora da Política Comum das Pescas, tal como outros países fizeram com o Euro ou com o Espaço Schengen.
Mas o discurso dominante na campanha pelo “Sim” passa pela segurança geopolítica que representa a integração na União Europeia, e junta argumentos económicos que as sondagens dizem ser convincentes, por incidirem no bolso das pessoas.
A volatilidade da coroa islandesa, a inflação elevada e as taxas de juro que ascendem a 8% são instabilidade que os islandeses sentem todos os dias e que, prometem, com a Islândia na União Europeia, ficariam resolvidas. A adesão, acrescentam, permitiria a exploração de novas fontes de financiamento para estradas, túneis e serviços públicos em regiões isoladas como os Fiordes Ocidentais e reforçaria a resposta a avalanches, erupções vulcânicas (sucedem-se, são espetaculares mas palizam a vida nos lugares próximos) e outros desastres naturais a que a Islândia está habituada.
Neste sábado, o povo da Islândia vai escolher. Se o "Não" ganhar, o debate estará encerrado, sabe-se lá por quantas gerações. Se o "Sim" vencer, as negociações serão retomadas e a Islândia poderá ser o 28º Estado-membro da União Europeia.
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