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Não faltam ensaios e opiniões sobre o papel da Arte na sociedade. Uma situação parece consensual, a Arte reflete a sociedade de um período histórico (curto ou longo, tanto faz) e aponta o caminho do momento seguinte. Diz que é uma crítica ao presente, mas é muito mais uma representação desse presente e do desejo de progredir – sempre de olhos no futuro. Mas isto não é consensual; a Gioconda é o símbolo do Renascimento ou foi o Renascimento que tornou possível a obra de Da Vinci? Picasso é um percursor permanente, por isso tornou-se o grande artista do século XX, ao mudar constantemente, num século em que houve mais mudanças do que nos anteriores. E, tal como o tempo foi de rotura constante, a arte “rompeu-se” a si própria ao criar a obra conceptual. Uma peça de arte deixa de usar os suportes clássicos (quadros, esculturas) e passa a exprimir um conceito. Sai do espaço dimensional para entrar no não espaço. Isto é difícil de compreender para um público que não tem uma formação artística muito profunda (a situação é universal) e passa a haver aquilo a que poderíamos chamar de arte heterónima (não é um bom nome, mas não nos ocorre melhor): a Arte “artística” – aquela que todos podem perceber – a arte “mercantilista” – os clássicos e modernos que vendem por quantias exorbitantes, mais como investimento e símbolo do estatuto de quem pode dar milhões de euros por uma peça – e a arte “experimental” em que as instalações propõem conceitos em vez de representações da realidade.
Voltando à questão paridade entre a Arte e o mundo real, como o mundo real está uma confusão infernal, em que as ditaduras se dizem democráticas, as democracias estão cada vez mais ingovernáveis e os protagonistas políticos parecem cada vez mais sem sentido, contradizendo-se, alterando regras instituídas sem consultar ninguém, contradizendo-se e fazendo tábua rasa de convenções que se julgava inexpugnáveis, a Arte entra também no nonsense, com propostas difíceis de reconhecer como Arte.
Este clima tinha forçosamente de aparecer na 61ª Bienal, que abriu a 9 de maio, a meio-gás, com cerca de 20 pavilhões fechados devido à greve em protesto contra a presença da Rússia e de Israel no certame (os pavilhões representam países.) Em princípio estará aberta até Novembro, mas é impossível dizer se estarão em exposição todas as “peças” conceituais.
A Bienal permanecerá até ao final de novembro de 2026, mas a abertura foi marcada por tensões que refletem as atuais clivagens mundiais entre conflitos em curso e facções políticas. O Ministro italiano da Cultura, Alessandro Giuli, teve um confronto amargo com a organização e decidiu boicotar a “vernissage” (abertura). Nos últimos dias, anunciou que visitará o pavilhão italiano "para honrar a arte italiana e Itália", mas não é claro se está previsto um encontro com o presidente da Bienal, Pierangelo Buttafuoco. Aliás Buttafuoco foi escolhido há apenas dois anos, pois a sua antecessora, morreu subitamente. Era suíça, nascida nos Camarões, chamava-se Koyo Kouoh; tinha sido escolhida em 2024. Faleceu em 2025, com 57 anos.
Por vários motivos esta Bienalle quase não ia acontecer. Houve países que não se candidataram, artistas foram despedidos, fundos cortados. Aconteceram dezenas de protestos e petições mesmo antes de se escolher a primeira obra. O júri despediu-se poucos dias antes da abertura, depois o Irão retirou-se e a seguir a Comissão Europeia também. Os protestos contra a participação da Rússia e Israel, levaram muitos artistas a fazer greve e algumas obras de arte foram substituídas por instalações com a bandeira palestiniana.
Lubaina Himid, a artista inglesa nascida no Zanzibar fez um trabalho para o pavilhão britânico tendo como tema o passado colonial, com pinturas enormes e uma colagem sonora a que chama “o somatório britânico perfeito”. Lydia Ourahmane, outra inglesa, nascida na Argélia, com 33 anos, está a viver em Veneza há um ano e criou uma exposição fora da Bienal, mas calculada para abrir ao mesmo tempo. Habitualmente vive entre Barcelona e a Argélia, depois de uma infância no Reino Unido e considera-se uma “artista conceitual” no sentido de “criadora de ideias.” Recentemente disse: “Antes mesmo de começar uma peça, tenho de ver como ela pode ser absorvida pelo mundo. É por isso que os meus trabalhos anteriores incluíram, por exemplo, um implante de ouro nos dentes.” (No coments da minha parte...)
Anish Kapoor, o artista inglês nascido na Índia e que representou a Grã Bretanha em 1990 (numa altura em que as peças de arte, mesmo conceptuais, ainda podiam ser reconhecidas como tal pelo vulgo) diz que os Estados Unidos deviam ser excluídos “por causa da sua abominável política de ódio e belicismo incessante.” (Por mim, acho que deveriam ser excluídos para evitar que seja Trump a fazer a escolha...)
Arthur Brooks o famoso “cientista social” norte-americano, escreveu na revista digital Free Press: “Em1960, muitos americanos preocuparam-se que se um católico, John F. Kennedy, fosse eleito presidente o lema nacional passaria de “acreditamos em Deus” para “acreditamos no Papa” e que, assim, o maior líder da maior nação do mundo passasse a seguir o mais importante líder religioso do mundo. Essas preocupações desapareceram no pó da História, não apenas porque Trump não é católico mas porque não hesita em criticar o Papa como se fosse mais um opositor político. (Depois do Papa Leão XIV – o primeiro Papa norte-americano – ter condenado a guerra contra o Irão, Trump disse que o Papa era “fraco no combate ao crime e péssimo em relações internacionais.” O governo americano retirou a ajuda às instituições de caridade católicas que apoiam crianças migrantes, alegando que precisam de muito menos do que durante o governo Biden. (Mas isto já é outra história.)
O que se verifica é que a Arte, mais uma vez, continua a refletir e influenciar (talvez) a política mundial: caótica, facciosa, disfuncional, sem critérios de referência e prestes a implodir. Lembra, de certo modo, os exageros do fim do Império Romano e de outros impérios que se afundaram no seu próprio lixo.
Enfim, daqui a dois anos há mais. O mundo pode desfazer-se de valores, mas não acaba. Antes a História tivesse um fim.
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