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Todos os atletas (bem, quase todos) tomam produtos médicos e paramédicos para estar em forma e melhorar o seu desempenho. Os limites são definidos pela Agência Mundial Antidopagem e usados mesmo em provas fora das grandes competições internacionais. É uma prática aceite por todos, tanto por razões éticas como físicas. Quer dizer, em última análise, o que as provas desportivas querem é mostrar os limites físicos do homem numa série de categorias, como velocidade ou força.

Esta tradição foi desafiada abertamente em 2026, com a realização em Las Vegas dos primeiros “Jogos Turbinados” (Enhanced Games), idealizados pelo empresário australiano Aron d’Sousa e financiados pelos milionários disruptores do costume Peter Thiel e Elon Musk, entre outros.

Sendo em Las Vegas, poderíamos argumentar que se trata de mais uma modalidade de show business, sem ligações ao desporto. A questão é que, cada vez mais, a diferença entre um e outro se torna mais difícil de definir. Veja-se o futebol, por exemplo. Concebido como um desporto recreativo pela classe alta inglesa, em 1863, não se punha sequer a hipótese de haver alguém a ganhar dinheiro com a sua prática – é esse o conceito base de “sport”. Há até um filme famoso, “Charriots of Fire” (https://www.imdb.com/title/tt0082158/), que relata a disputa e o escândalo que foi quando dois rapazes universitários que praticavam corrida olímpica decidiram, em 1924, que precisavam de treinadores profissionais a tempo inteiro para se tornarem mais competitivos. Quanto ao futebol, que hoje em dia é abertamente (eu diria, descaradamente) um negócio, com profissionais, corrupção e todas as características de qualquer negócio. É de lembrar que até à década de 1950 os clubes eram pagos pelas quotas dos sócios, embora desde 1885 que jogadores e treinadores pudessem ser profissionais.

O problema de os praticantes dum desporto serem amadores ou profissionais praticamente desapareceu de quase todos (ou mesmo todos) os desportos. Continua a haver, e haverá sempre, amadores em todas as modalidades, mas quando se fala de um “desporto” na comunicação social, é quase exclusivamente profissional. (Hesitei se devia por o “quase”.)

Em termos práticos, existem hoje duas vertentes desportivas: o espectáculo, levado a cabo pelas chamadas sociedades comerciais desportivas, que ganham com a publicidade (as quotas dos “sócios” têm um valor simbólico) e os Jogos Olímpicos, que não estão ligados a clubes e onde, em algumas modalidades, ainda se discute o estatuto profissional amador. Discute-se mas é inevitável que ganhe o profissional, porque a exigência constante de bater recordes exige uma dedicação a tempo inteiro. Mesmo em “desportos” considerados de elite, como o “hipismo”, os melhores praticantes são patrocinados.

A profissionalização do desporto exigiu que se estabelecessem padrões físicos aos atletas, primeiro porque a ideia continua a ser a pujança física do profissional, segundo porque os resultados só são comparáveis se todos obedecerem às mesmas limitações na preparação – alimentação e aditivos. Daí a necessidade da Agência Mundial Antidopagem para decidir quais os aditivos admissíveis. (Se a AMA é corrupta, isto é, recebe dos fabricantes de aditivos para que sejam legais, isso é outro assunto...)

E aqui chegamos aos Jogos Turbinados. Os atletas fazem testes e são encorajados a usar substâncias de melhoria de desempenho (PEDs, como esteroides e hormonas, sob supervisão médica. São bem pagos, incluindo um prémio base de 250 mil dólares e a possibilidade de um bónus de um milhão. A empresa organizadora está cotada na Bolsa de Valores de Nova Iorque e tem a sua própria marca de suplementos para jogadores turbinados e pessoas que querem viver mais tempo ou em melhores condições físicas.

A Agência Mundial Antidopagem e o Comité Olímpico Internacional não reconhecem os Jogos Turbinados, mas isso não impede que eles existam, ganhem adeptos e tenham patrocinadores. Vale a pena ver este vídeo da BBC News (https://www.youtube.com/watch?v=MQUVrYMCdPs&t=6s) em que os atletas falam das questões éticas do novo espectáculo.

Vendo bem, não há nenhuma razão para um profissional usar aditivos saudáveis (ou, pelo menos, não prejudiciais) para melhorar a sua performance. Esta lógica, que é agora discutida como no século XIX foi discutida a profissionalização dos atletas e no século XX a transformação dos clubes em organismos comerciais, está-se mesmo a ver onde irá parar. A questão não é a comercialização de certas práticas mas as aldrabices que elas permitem.

Quer apostar quantos anos faltam para termos futebolistas turbinados? Ou acha que, na realidade, já os temos há anos?

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