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Virgílio Antunes, novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), destacou a seriedade da Igreja no processo de identificação dos casos de abuso sexual e afirmou esperar que o modo como a instituição lidou com esta realidade possa servir de exemplo para a sociedade. Estas declarações exigem mais do que perplexidade. Exigem memória. Porque o que a Igreja fez, desde o início deste processo, está longe de qualquer ideia de exemplaridade.

Comecemos pelo princípio. Não faltaram vozes proeminentes dentro da própria Igreja a recusar a necessidade de investigar os abusos sexuais no seu seio. Manuel Linda, bispo do Porto, chegou a classificar os abusos como um fenómeno fundamentalmente anglo-saxónico, sugerindo que o problema não tinha expressão relevante em Portugal. Noutra ocasião, comparou a necessidade de investigar estes casos à queda de um meteorito, revelando uma perceção profundamente desfasada da realidade. Nuno Brás, bispo do Funchal, recusou criar uma comissão de investigação na sua diocese, alegando que não existiam casos que o justificassem. A negação, portanto, não foi episódica. Foi estrutural. E não foi mais do que o eco de uma longa tradição de auto preservação. Enquanto foi sendo repetida, serviu um único propósito: adiar o confronto com a realidade e evitar a assunção de responsabilidades perante centenas de vítimas.

E o bem-estar das vítimas?

Com a criação da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja Católica Portuguesa, o respeito pelas vítimas esteve longe de ser garantido. Faltou apoio psicológico desde o início. Faltou um sistema sólido de acolhimento. Faltou, sobretudo, uma resposta que colocasse as vítimas no centro, e não a evidente gestão do dano reputacional.

Porque, se há algo que atravessa toda esta história, é a lógica de autoproteção. Durante décadas, a instituição protegeu abusadores, transferindo-os, silenciando denúncias, abafando casos. Esse passado não desaparece com declarações públicas. Exige responsabilização real.

Mais recentemente, com o Grupo VITA, emergiu uma realidade desconcertante: cerca de metade das pessoas que procuraram apoio acabou por ser excluída, muitas vezes com o argumento de “falta de provas”. Segundo dados divulgados publicamente, apenas uma parte dos pedidos foi considerada elegível para acompanhamento, deixando de fora dezenas de testemunhos que não reuniam os critérios definidos pela própria estrutura criada pela Igreja. Num contexto em que a violência sexual é, por natureza, difícil de provar e frequentemente marcada por silêncio prolongado, este tipo de filtragem levanta sérias dúvidas e agrava a sensação de injustiça entre as vítimas, muitas das quais veem, uma vez mais, a sua palavra colocada sob suspeita.

O que estas declarações revelam, no fundo, é uma ausência profunda de autocrítica. Basta ouvir as vítimas. Os sobreviventes que foram abusados no âmbito da igreja e que chegam à Quebrar o Silêncio relatam frustração, revolta e um sentimento persistente de desrespeito face à forma como foram tratados. As palavras de Virgílio Antunes não são um ponto de viragem. Soam, para muitos, como mais um gesto de distanciamento face à realidade vivida.

A Igreja pode querer dar lições. Mas, enquanto não enfrentar com honestidade a sua própria história, continuará a falar a partir de um lugar fragilizado e profundamente desacreditado.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.

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