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Ao contrário do que muitos imaginam, a máquina de propaganda do Kremlin não vive da improvisação nem da divulgação ocasional de notícias falsas. Assenta numa arquitectura política cuidadosamente construída ao longo de décadas, herdeira da tradição soviética, mas profundamente modernizada pela revolução digital. O seu objectivo não é convencer toda a gente de que a Rússia tem razão. É algo muito mais sofisticado: semear a dúvida, fragmentar os consensos, enfraquecer a confiança nas instituições democráticas e tornar impossível distinguir a verdade da manipulação.
Existe um padrão que atravessa praticamente toda a comunicação estratégica de Moscovo. A Rússia apresenta-se sistematicamente como vítima, mesmo quando é o agressor. Acusa os seus adversários das acções que ela própria está a cometer ou se prepara para cometer. Transforma qualquer intervenção militar numa alegada resposta defensiva a uma ameaça externa. Esta inversão moral tornou-se uma das principais ferramentas do regime de Vladimir Putin.
A invasão da Ucrânia constitui talvez o exemplo mais evidente desta estratégia. O Kremlin procurou justificar uma guerra de conquista apresentando-a como uma operação de "desnazificação", de protecção das populações russófonas e de defesa da própria Rússia perante uma suposta expansão hostil da NATO. A realidade dos factos foi substituída por uma narrativa cuidadosamente construída para consumo interno e para exploração das fragilidades do espaço informativo internacional. Porém, a verdadeira novidade reside na forma como estas narrativas circulam. A propaganda já não depende exclusivamente da televisão estatal ou das declarações oficiais do Kremlin. Alimenta-se de uma vasta infraestrutura composta por canais no Telegram, redes automatizadas no X, vídeos no TikTok, páginas falsas que imitam jornais europeus, campanhas coordenadas por inteligência artificial e milhares de contas aparentemente independentes que reproduzem a mesma mensagem sob diferentes formatos.
O objectivo deixou de ser apenas influenciar cidadãos. Procura contaminar todo o ecossistema digital, incluindo motores de pesquisa e modelos de inteligência artificial, criando uma ilusão de pluralidade através da repetição permanente das mesmas narrativas.
A Europa tem sido um dos principais alvos desta estratégia. As campanhas conhecidas como “Doppelgänger, Storm-1516 ou Portal Kombat” demonstram um elevado grau de sofisticação operacional. Não procuram apenas defender a posição russa, pretendem dividir as sociedades europeias, explorar tensões políticas internas, desacreditar governos democraticamente eleitos e enfraquecer o apoio à Ucrânia. As eleições em vários países europeus ilustram bem este fenómeno. Questões como imigração, custo de vida, apoio militar a Kiyv ou confiança nas instituições democráticas foram amplificadas por operações digitais coordenadas, muitas delas recorrendo a inteligência artificial, redes de “bots” e identidades fictícias. A finalidade, no limite, não será necessariamente alterar um resultado eleitoral específico, mas é pelo menos a de aumentar a polarização e reduzir a capacidade de as democracias produzirem consensos.
A instrumentalização da religião representa outra dimensão frequentemente subestimada. Ao associar a guerra à defesa da fé, da civilização russa e dos chamados valores tradicionais, Putin procura conferir legitimidade moral e espiritual à violência política. Quando um conflito deixa de ser apresentado como uma decisão política para passar a ser descrito como uma missão histórica ou divina, qualquer compromisso passa a ser entendido como uma traição.
A guerra da informação acompanha igualmente as operações militares. Sabotagens, interferências eletrónicas, ataques cibernéticos, drones e incidentes fronteiriços podem produzir efeitos muito superiores ao seu impacto físico imediato. Mesmo quando não conseguem demonstrar responsabilidade ucraniana ou ocidental, bastam para criar incerteza, alimentar suspeitas e perturbar a tomada de decisão política. O surgimento de drones em áreas criticas em vários países europeus insere-se nessa estratégia.
É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios para a Europa. O problema não consiste apenas em desmentir notícias falsas. Essa abordagem é insuficiente. O verdadeiro combate passa por compreender o funcionamento da máquina de propaganda russa e reconhecer os seus padrões de atuação antes que estes condicionem o debate público.
As democracias europeias continuam excessivamente reactivas. Respondem a cada mentira isoladamente, quando deveriam desmontar o próprio método que produz essas mentiras: a vitimização permanente, a inversão entre agressor e vítima, a projecção das próprias acções sobre os adversários e a exploração sistemática das fragilidades das sociedades abertas.
Existe ainda uma questão que merece maior reflexão estratégica: o futuro da Rússia depois de Vladimir Putin.
É tentador acreditar que a saída de cena do actual Presidente resolveria automaticamente muitos dos problemas existentes. Seria um erro de análise. O sistema político, os serviços de segurança, os mecanismos de propaganda e a cultura estratégica construída ao longo de mais de duas décadas dificilmente desaparecerão com a mudança de um líder.
Por isso, a Europa deve preparar-se simultaneamente para duas realidades. A primeira é enfrentar uma Rússia que continuará a utilizar a informação como instrumento permanente de poder. A segunda é estar preparada para dialogar com uma futura liderança russa sem repetir o erro histórico de confundir mudança de liderança com mudança de regime.
A segurança europeia já não depende apenas de carros de combate, aviões, drones ou mísseis. Depende igualmente da capacidade de proteger o espaço informativo das democracias. Porque, no século XXI, conquistar território começa muitas vezes por conquistar percepções. E uma sociedade que deixa de distinguir entre verdade e manipulação torna-se vulnerável muito antes de ouvir o primeiro tiro.
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