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Nesta época em que vivemos, os conflitos mudam de tática e estratégica semanalmente, se não diariamente; o que escrevi aqui no dia 7 já está desactualizado em relação a hoje, dia 15.
Podemos usar um marco da mudança: o lançamento iraniano de um novo míssil nunca visto, o Khorramshahr-4, contra Telavive. Trata-se de um rocket com uma velocidade de 9,800 km/h (Match 8) e um alcance de 2.000 km, que quando chega ao alvo abre um leque de 80 “cluster bombs” relativamente pequenas, com tempos de explosão diferentes (umas explodem no ar, outras em contacto com o solo, outras ainda ficam dormentes para explodir depois). É lançado de uma plataforma móvel, escondida num subterrâneo até poucos minutos antes do lançamento e, como utiliza combustível sólido, pode ser abastecido com antecedência, o que significa um ou dois minutos entre o momento que sai à superfície e é disparado. Segundo o Irão, tem uma grande quantidade destes mísseis prontos, centenas, talvez, e continuam a produzi-los em larga escala em fábricas subterrâneas. Ou seja, o Irão pode atingir o que quiser pelo tempo que quiser. O impacto deste primeiro lançamento contra Telavive foi devastador, material e moralmente.
O que acontecia, até ao dia 7, é que os vários sistemas de deteção e destruição de mísseis, entre os quais a famosa Cúpula de Ferro (“Iron Dome”) israelita e o Patriot norte-americano, conseguiam destruir uma alta percentagem de atacantes, às vezes todos. O Khorramshahr-4 é mais rápido que qualquer defesa disponível; mesmo que detetado no momento do lançamento, a sua velocidade não dá tempo a nenhum sistema de lhe chegar a tempo; e as 80 bombas que espalha podem ser detonadas já em cima do alvo, causando praticamente os mesmos estragos do que se explodissem por si. Nas imagens do bombardeamento a Telavive vê-se uma espécie de chuva de fogo a cair do céu. Imagina-se o efeito de um míssil destes numa cidade de arranha-céus, como Riade ou Abu Dhabi, porque tem alcance para todas as capitais da península da Arábia – pode mesmo chegar a Atenas, Chipre ou Roma.
Fiz esta descrição pormenorizada da nova arma para explicar o que significa a sua existência e o que muda no conflito. Em primeiro lugar percebe-se agora que o Irão há muitos anos que se andava a preparar para ser atacado e tem um arsenal que pode durar indefinidamente; a “ameaça nuclear” que preocupava Israel e Estados Unidos e levou ao longo dos anos a várias negociações e acordos, não era mais do que uma cortina de fumo iraniana para esconder o arsenal subterrâneo que estava a construir. Em segundo lugar, torna-se evidente que esta guerra não será curta, pode até prolongar-se anos. Também é óbvio que qualquer ideia de invadir militarmente (“boots on the ground”)1.648.000 km2 do Irão está fora do alcance.
Quando Israel e os Estados Unidos decidiram atacar de frente o Irão, talvez há uns seis meses (o ataque começou em 28 de Fevereiro), tinham objectivos diferentes; para os Estados Unidos, fazendo uma média das constantes contradições de Trump, o objectivo era provocar caos no país, levando a população a mudar o regime. Bastaria os americanos bombardearem tudo e mais alguma coisa para que os iranianos não radicais acabassem com a República Teocrática. (Vale a pena lembrar a estupidez desta tese; quando um país é atacado, a população une-se para o defender, mesmo que não concorde com o governo que tem. Os exemplos são muitos, de todas as épocas.)
Para os israelitas o objectivo era desarmar o Irão, impedir que construísse uma bomba atómica e acabar com a sua influência no Líbano, na Síria, Gaza e todos os países anti-israelitas.
Trump, na sua infinita arrogância e limitada inteligência, pensava que uma semana e uns 10 mil milhões de dólares de bombas faria com que um regime enraizado há cinquenta anos e herdeiro de um ódio tremendo aos Estados Unidos (começado quando a CIA fez cair Mohammad Mosaddegh, em 1953, seria suficiente para uma mudança de regime, muito bem explicado neste vídeo do académico inglês Jeffrey Sachs.
Ao ser atacado, o Irão respondeu atacando todos os países árabes do Golfo com armas relativamente fracas. Sabia que não iria vencer os dois adversários principais, mas podia provocar o caos na economia de todos, bombardeando os produtores petrolíferos e interditando no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo. Neste objectivo, o Irão ganhou e não se vê que venha a perder no futuro. O outro objectivo é a sua sobrevivência, não só como país independente, mas também como República Teocrática – e aqui também está a ganhar, ou pelo menos a não perder.
Quanto mais tempo passa, pior fica o abastecimento do petróleo mundial, com consequências para todas as economias e todos os habitantes do mundo. Podem fazer-se algumas modificações na produção e transporte do petróleo, mas não são suficientes e, além disso, beneficiam alguns maus elementos, como a Federação Russa de Putin, cujo petróleo e gaz estavam embargados e agora são essenciais.
Os bombardeamentos aos países produtores do golfo fazem com que estes tentem de todas as maneiras acabar com a situação, fazendo pressão nos Estados Unidos para parar a guerra ou tentando negociar com o Irão. As bases norte-americanas em alguns desses países, que eles consideravam uma protecção, passaram a ser um inconveniente.
Trump já diz que a guerra vai durar mais do que o esperado, mas não diz como é que vai acabar – porque não sabe e porque, numa reviravolta surpreendente, agora é o Irão que decide sobre o fim. Esta semana recusou iniciar conversações de paz, ou pelo menos um cessar-fogo, porque está numa posição melhor e só tem a ganhar com o prolongamento do conflito. (Entretanto morrem muitos iraquianos nos bombardeamentos, mas a morte de civis nunca preocupou os ayatolás.)
Os efeitos económicos desta guerra fazem-se sentir no mundo inteiro das mais diversas maneiras, que se podem condensar no aumento do custo dos alimentos e diminuição do tráfego internacional. Tal como nas duas Guerras Mundiais (1914-18 e 1939-45) nem todos os países são beligerantes – na prática, uma pequena percentagem – mas todos sofrem as consequências. E não há fim à vista.
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