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A 25 de Setembro do ano passado, a presidente da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez o seu habitual “discurso sobre o Estado da União”, nuns termos que deixaram o Parlamento Europeu de boca aberta. Depois de enumerar os conhecidos problemas internacionais que afetam a EU – “a Europa está a travar um combate pela paz (uma meia-verdade), pelos nossos valores (...), pela nossa liberdade e o nosso destino. Que não haja qualquer dúvida: este é um combate pelo nosso futuro.” E continuou: “Porque a nossa União é, na sua essência, um projeto de paz, mas a verdade é que o mundo de hoje é implacável.”

Palavras semelhantes já tinham sido ditas naquele Parlamento muitas vezes, e uma pesquisa rapidamente verificaria que a mesma presidente e outros parlamentares já as disseram muitas vezes nos últimos dois anos. A Europa, antiga conquistadora sanguinária, considera-se agora um “projeto de paz” num “mundo implacável”. Nada de novo, todos sabemos que somos uns carneirinhos no meio dos lobos maus. Mas aí mudou de tom: “Não podemos esconder as dificuldades que os europeus sentem no seu quotidiano. (...) Traçam-se neste momento as linhas de batalha de uma nova ordem mundial assente na força. Por isso, sim, a Europa tem de combater pelo seu lugar num mundo em que diversas grandes potências adotam atitudes ambíguas ou abertamente hostis face à Europa.”

E nesta altura o discurso mudou subtilmente (A Europa deve ser actualmente a instituição mais subtil deste mundo...). "Este tem de ser o momento da independência europeia. Estou convicta de que esta é a missão da nossa União.  Temos de ser capazes de assegurar a nossa própria defesa e segurança. E de assumir o controlo das tecnologias e energias que estimularão as nossas economias. Iremos propor um novo programa com a designação Vantagem Militar Qualitativa.”

Ora até que enfim! Ao fim de dois anos em que o continente decidiu que a Ucrânia fazia parte da Europa (durante 75 anos foi Russa), porque é, geográfica e moralmente, Europa, a presidente assumiu que é preciso fazer alguma coisa (além de mandar dinheiro e equipamento militar desactualizado dos poucos estoques europeus).

Uma mostra da inércia em que estamos é que as palavras de von der Leyen provocaram um choque. Houve quem achasse que tinha sido agressiva demais. Agressiva demais, perante um ataque maciço de um inimigo histórico da Europa? As suas palavras finais foram: “No próximo Conselho Europeu, apresentaremos um roteiro claro das próximas acções. Lançaremos novos projectos comuns no domínio da defesa. Fixaremos objetcivos claros para 2030. E proporemos um semestre europeu da defesa. Porque 2030 é já amanhã. E é hoje que a Europa tem de se preparar.”

Portanto, enquanto a Ucrânia aguenta uma invasão brutal há quatro anos e, sozinha, inventou uma nova maneira de fazer guerra (os drones), os suaves europeus estão a pensar em estar prontos para o barulho em 2030.

Esta postura pró-bélica referia-se à Ucrânia. Von der Leyen mudou de tom para lamentar a situação na Palestina, as criancinhas mortas e a destruição do território, sem uma crítica sobre Israel. Era como se Gaza tivesse sido atingida por uma força vinda doutro planeta!

A 25 de Março foi a vez do presidente do Conselho Europeu, António Costa, responder indirectamente às críticas feitas a von der Leyen – não criticando-a, Deus me livre – mas adoçando as ameaças de nos tornarmos uma potência militarizada. Perante os eurodeputados, sustentou que a UE deve continuar a defender a ordem internacional assente em regras e os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, deixando implícita uma condenação aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, a que nunca se referiu directamente. Portanto, uma condenação “implícita” dos Estados Unidos, Israel e Irão, porque chamar explicitamente elefantes aos elefantes seria pouco fino. Depois o discurso do presidente derivou para as “ambiciosas” metas burocráticas dentro da União, como “garantir regras mais simples, e garantir a aprovação do 28.º regime, uma proposta da Comissão Europeia para criar um quadro jurídico harmonizado para todas as empresas da união. E continuou com as desgraças energéticas da União Europeia, uma entidade que não é autónoma energeticamente e que, apesar de não entrar no presente conflito tripartido Israel/EUA/Irão, é uma das vítimas da subida de preço dos combustíveis.

Mas a União Europeia não precisa de sair do seu território para ter chatices. As eleições realizadas, iminentes e futuras, são a maior dor de cabeça, uma vez que no contexto actual podem determinar a vitória de um partido radical de direita, anti-UE, ou de uma formação mais favorável a Putin do que a Zelenski. Os resultados têm sido confusos. Em França, ao contrário do que se esperava, o Rassemblement National levou uma abada nas municipais, mas, tradicionalmente, as eleições locais não se reflectem nas presidenciais, que são para o ano. O perigo da Madame Le Pen continua. Estamos numa época de eleições na Dinamarca, Itália, Eslovénia e dois estados alemães. As legislativas da Eslovénia, marcadas por uma descarada influência russa nas redes sociais, deram um empate entre os sociais-democratas e os pró-russos, pelo que serão necessárias coligações. Em Itália, país em que se tratou de um referendo sobre uma reforma judicial, Meloni perdeu, o que também ninguém esperava. No Reino Unido, onde só haverá eleições parlamentares em Maio e o resultado é impossível de prever, uma vez que os trabalhistas estão a conseguir ser quase tão maus como os conservadores e há dois novos contendores a levar em consideração, o Reform UK do inacreditável Farage e os Demo-liberais estão cheios de esperanças (nunca ganharam na História do partido).

(Eu sei que o Reino Unido não pertence oficialmente à EU, mas já estão arrependidos e entretanto continuam a mandar tralha para a Ucrânia e a falar nos valores do “continente”. No entanto, a palavra “Brexit” continua fora dos discursos, porque não é fácil os ingleses darem o braço a torcer.)

E assim vai a Europa. Tende medo, muito medo, porque em 2030 vai ser um potentado. E lembre-se que a mudança inclui serviço militar obrigatório ou semi-obrigatório. Não acredita? Não está sozinho!

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