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Entre as incontáveis confusões e teorias abstrusas do nosso tempo está a definição de guerra. Desde os afonsinos e até 1945, ninguém tinha dúvida quando havia um estado de guerra entre duas partes, em quando uma parte ganhava e a outra perdia. Os tratados de paz foram-se tornando mais escassos, dada uma teoria, não sei bem vinda de onde, que era de mau gosto de humilhar o derrotado e isso podia ter consequências piores no futuro. O exemplo, evidentemente, vinha da humilhação sofrida pela Alemanha no Armistício de Compiégne em11 de Novembro de 1918. A II Guerra Mundial acabaria oficialmente em 7 de Setembro de 1945 com a rendição incondicional, igualmente humilhante, a bordo do porta-aviões USS Missouri ancorado na baia de Tóquio.

Mas é de notar que os norte-americanos tiveram grandes cuidados, no caso do Japão (e na Europa também, mas aí havia outros intervenientes) em não humilhar os vencidos. Essa atitude tornou-se também simbólica da “razoabilidade” da democracia, que queria expandir-se para os derrotados e não achincalhá-los.

Seguiu-se um período em que as guerras não se sabiam quando começavam (não havia declaração formal) e não se percebia como acabavam – um dos lados desistia e o outro deixava-o em paz (Coreia, Vietname, Afeganistão). Ou seja, o invasor cansava-se de invadir, fazia as malas e os invadidos não o perseguiam.

Hoje temos uma quantidade de guerras que, embora não declaradas, começaram por um ato bélico com data precisa, mas que depois vão mudando de objetivos até a razão inicial ser apenas o episódio original das hostilidades. Outro aspeto que mudou, contra todos os tratados e intenções declaradas, foi a guerra total: todo o construído e todos as pessoas presentes são alvos “legítimos” – sob a alegação que que o outro lado mente. A cessação das hostilidades também passou a não ser muito clara, as partes anunciando tréguas, cessar-fogo ou outra palavra semelhante, enquanto continuam a guerrear-se com menos intensidade. As delegações, os mediadores, os políticos e os militares de ambos os lados vão fazendo declarações contraditórias, enquanto no terreno a situação continua caótica.

Toda esta conversa se pode aplicar aos três conflitos de interesse mundial em andamento, a Invasão da Ucrânia (chamada inicialmente “Operação Especial” e só quatro anos depois “Guerra”), o ”conflito” entre Israel e toda a gente à sua volta, chamado de “invasão”, “retaliação”, “massacre” “policiamento” – tudo menos “Guerra”.

Sob estas duas situações já muito disse e muito mais voltarei a dizer, mas neste momento é o terceiro conflito que nos interessa.
Começou abertamente no dia 28 de Fevereiro, quando forças norte-americanas previamente posicionadas bombardeavam todo o tipo de alvos no Irão, ao mesmo tempo que o Presidente dos Estados Unidos declarava abertamente que tinha começado uma guerra e anunciava em pormenor as condições de vitória: fim do programa nuclear iraniano e mudança de regime político no país (supostamente com apoio da população).

É de salientar que as declarações bélicas iniciais não envolviam Israel, embora fosse evidente que Israel tinha sido o instigador e que participaria de corpo e alma, inclusive fora do Irão.

Eu e incontáveis outras pessoas, em todas as partes do mundo, não deixávamos de nos espantar com uma demonstração tão clara de falta de ciso pela maior potência mundial. Então não era óbvio que o fechamento do Estreito de Ormuz (por onde passa 20% do petróleo mundial) seria uma consequência imediata e inevitável, e que os Estados Unidos não têm força suficiente para forçar a abertura? Não era igualmente óbvio que os norte-americanos não tinham poder militar suficiente para “fazer o Irão voltar à Idade da Pedra”? Não era também claro que o programa nuclear iraniano, espalhado por subterrâneos em 1.648.195 km2 de terreno montanhoso e agreste, era impossível de encontrar? Invadir o Irão com soldados – “boots on the ground” – nem sequer se falava, embora alguns altos funcionários norte-americanos, Trump inclusive, o comentassem de leve.

Para nós, a população de quase duas centenas de países, o dia 28 de Fevereiro de 2026 teve um sabor de incredibilidade (como é que aqueles generais todos do Pentágono não previram estas situações?) e de inevitabilidade – eles vão-se espalhar ao comprido. Já para não falar da inflação mundial, da subida dos preços do petróleo e de todos os inconvenientes de uma operação militar cujas vantagens eram zero.

Então, agora, ao fim de milhares de horas de negociações e contra-negociações assina-se um “memorando de acordo” segundo o qual a questão do urânio iraniano fica para ser discutida dentro de seis meses e a mudança de regime político nem se fala. Isto quer dizer que Trump falhou nas suas promessas. Fora isso, a situação no Estreito de Ormuz ficou indefinida – quer dizer, só passam os barcos que o Irão deixar, não sendo muito claro quais deixa, nem se num futuro próximo não irá exigir portagem. Por fim, alguns dos bilhões de dólares que estavam retidos em bancos ocidentais voltam à posse do Irão.

Não há maneira de disfarçar o que aconteceu. Ainda pode vir a acontecer muita coisa, mas nada, nada, apagará da História esta derrota a céu aberto.

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