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Os responsáveis políticos parecem ter desenvolvido uma capacidade extraordinária, uma espécie de super-poder: Montenegro está "tranquilo", Luís Neves está "tranquilo", Fernando Alexandre está "tranquilo", o governo inteiro está "tranquilo". E quanto mais tranquilos estão eles, mais desconfiados ficamos nós.

A história que vou contar — não sem antes deixar uma declaração de interesses: a pessoa em causa (o cidadão português) é-me muito próxima e querida — demonstra bem o estado da nação.

Eram sete da manhã em Lisboa, segunda-feira, quando recebo uma mensagem: "Estou com a guarda costeira em Beğendik, na Turquia. Só me deixam prosseguir se o consulado enviar ao Gümrük (administração aduaneira) uma mensagem com o meu nome e número de passaporte a dizer que estou de caiaque ao longo da costa, a caminho de Istambul, para me registar."

A Turquia está duas horas à frente e a primeira coisa que faço é contactar a Embaixada de Portugal em Ancara. Ninguém atende. Consulados. Ninguém atende. Às 9h00 já estou a tentar o Ministério dos Negócios Estrangeiros, número geral. Ninguém atende. A Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas e o Gabinete de Emergência Consular, que devia estar disponível 24 horas por dia, 365 dias por ano: "O número marcado não está em serviço. Por favor, verifique o número do destinatário e tente de novo mais tarde. Obrigada".

Na Turquia, a situação agrava-se. Embora os guardas estivessem dispostos a esperar, passaram mais de duas horas. Para cúmulo, chega o chefe da brigada, bastante menos compreensivo. Querem "desmantelar" o caiaque (embarcação a remos com 4,8 metros) e já falam em deportação para Dereköy, fronteira com a Bulgária.

Decido fazer alguns contactos pessoais, primeiro por mensagem, mais tarde por telefone.

Passa das 11h30 quando, finalmente, consigo falar com alguém, ainda que oficiosamente. Dá-me um número fixo, um número de telefone móvel e um e-mail. O telefone fixo, da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, continua a ladainha: "O número marcado não está em serviço. Por favor, verifique o número do destinatário e tente de novo mais tarde. Obrigada". Atendem o telemóvel: Gabinete de Emergência Consular.

Explico o que se passa. Respondem que, de facto, há um problema com os telefones da Direcção-Geral e, quanto ao resto, "pois é, os consulados estão fechados nesta época" — nem queria acreditar! Dão-me dois e-mails para onde devo enviar uma exposição por escrito.

Não sei muitos pormenores. O cidadão português está agora enfiado num carro de polícia e a ser escoltado para fora do país, sob a ameaça de ser declarado ilegal e ainda ter de pagar uma multa. Já passa do meio-dia.

Da secção consular recebo uma resposta automática. Da Embaixada de Portugal em Ancara, a informação: "Iremos enviar, com a maior urgência, uma comunicação formal às autoridades turcas para saber os procedimentos da deportação/detenção" do cidadão português.

Quase às três da tarde envio um e-mail para o gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa: "Estou desde as primeiras horas da manhã a tentar telefonar para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ninguém atende. Isto é normal? Quero reportar uma situação urgente e não há maneira. Não se compreende." Pouco depois recebo uma chamada do secretário pessoal do secretário de Estado, a quem reporto a situação. Falo também com o director-geral dos Assuntos Consulares, António Moniz. Escusado será dizer que já estava em ponto de rebuçado.

Peço a António Moniz, ou alguém por si indicado, que contacte diretamente o cidadão português. Há pormenores que não sei e a situação evolui rapidamente. Resultado? "Amáveis, mas dizem que pouco ou nada podem fazer. A resposta pode demorar duas semanas."

Nesta altura, o português já está do lado búlgaro. Perto de 300 quilómetros, ele no carro da polícia, o caiaque atrás, num táxi. Não teve de pagar multa, mas leva um carimbo de not welcome person no passaporte, não pode entrar na Turquia durante cinco anos. E o caiaque? Sabe Deus.

No dia seguinte, já da parte da tarde, recebe um e-mail: "O Gabinete de Emergência Consular (GEC) do Ministério dos Negócios Estrangeiros acusa a recepção da sua comunicação infra, que mereceu a nossa melhor atenção, e informa que a mesma foi reencaminhada para a Secção Consular da Embaixada de Portugal em Sófia, para que lhe possam ser prestados os devidos esclarecimentos e o apoio necessário".

O cidadão compra um bilhete de avião para daí a dois dias e nesta altura estará de regresso a casa.

Vamos ver, o caso é grave, embora não se trate de uma situação de vida ou de morte. Frustrou-se a expedição marítima iniciada em São Jorge (Sfântu Gheorghe), no Danúbio, com entrada no Mar Negro, costa da Roménia, costa da Bulgária, Turquia e que continuaria pelo Estreito do Bósforo até à Grécia. Ficou sem o caiaque, pelo menos até ver. Está proibido de entrar na Turquia (e talvez alguns países amigos o olhem de lado quando mostrar o passaporte). Mas está bem.

Mas quem é que sabia disso?

Em Agosto, milhares de portugueses viajam para fora do país, vão de férias. A diplomacia, pelos vistos, também. E quando um cidadão precisa dela com urgência, recebe aquilo que os serviços públicos portugueses aperfeiçoaram ao longo de anos: uma gravação, um endereço de e-mail e a promessa de uma resposta que, invariavelmente, não chega ou chega demasiado tarde.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros está transformado em SNS: é a diplomacia das respostas automáticas: "Se está grávida ou com problemas respiratórios, prima 1. Se não, prima 0". Ao minuto oito, quando provavelmente já não está em condições de premir tecla nenhuma, a gravação persiste: "Se está a engasgado e a sufocar, prima 1. Se não, prima 0".

Nós roxos. Do outro lado da linha tudo "tranquilo". E quanto mais tranquilos eles estão, mais desnorteados nós ficamos.

Neste caso, com uma agravante: o único motivo pelo qual consegui falar com alguém foi porque "mexi uns cordelinhos" (ou alguém me fez esse favor). Se fosse pelos canais normais, ainda estava à espera. E isso é ainda mais revelador. É difícil imaginar uma forma mais desigual de prestar um serviço que devia ser universal.

Não se trata de exigir que o MNE faça milagres. Trata-se de algo muito mais elementar: que o Estado esteja presente quando o cidadão precisa dele. E que os organismos responsáveis cumpram o papel para o qual foram criados e não que ajam como autómatos. Senão, basta-nos a Inteligência Artificial. Com uma diferença, é que à IA podemos sempre pedir para melhorar a sua resposta.

Senhores ministros, senhores secretários de Estado, senhores directores-gerais, senhores embaixadores, senhores cônsules: se estão desse lado, primam 1. Se não, talvez esteja na altura de deixar o telefone para quem quer atender.

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