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Nos primeiros oito dias de agosto, a média naquela bacia já tinha disparado inquietações ao atingir 28 graus, algo sem precedentes.
A média deste agosto de 2026 está a ser apontada para novo recorde e essa é a grande preocupação: a água do Mediterrâneo, está cada vez mais excessivamente quente, tanto à superfície, como em profundidade.
Os recordes de temperatura do mar na costa espanhola juntam-se a outros deste agosto em todo o Mare Nostrum. Numa boia ao largo de Trieste, fronteira entre a Itália e a Eslovénia, também neste domingo, a temperatura do Adriático chegou aos 29,3 graus. Foram 30º na boia junto ao dique de Veneza. 29,7º é a temperatura que o caldo atingiu em 7 de agosto, ao largo de Nice, Côte d’Azur, Mediterrâneo francês.
Estas temperaturas de ano para ano mais quentes, canícula em terra mas também mar que se torna sopa, fazem saltar os alarmes: Federico Grazzini, físico e meteorologista ao comando na sala de operações na ARPA, agência ambiental italiana, não se cansa de analisar os números de agora e comenta: “Estamos diante de um barril de pólvora capaz de explodir a provocar desastre já em setembro com fenómenos atmosféricos violentos”. É o alerta para alto risco de tempestades com chuva muito intensa e ciclones em regiões pouco habituadas a emergência meteorológica desta natureza.
Os oceanos estão a absorver quantidades de energia sem precedentes. Este aquecimento dos oceanos contribui, pela dilatação térmica, para a subida do nível da água do mar. É o problema que está no horizonte de regiões costeiras.
Outra consequência da elevação da temperatura dos oceanos é a perda de biodiversidade.
É sabido como em mares mais distantes, como o das Caraíbas, os corais tropicais têm reagido muito mal à canícula marinha, associada à acidificação dos mares e aos malefícios de algumas atividades humanas inimigas da natureza. Repetem-se em voz cada vez mais alta os alertas para o risco de progressivo desaparecimento desse sedutor ecossistema marinho formados por colónias de pequenos animais marinhos em simbiose com algas microscópicas, tudo agregado em estruturas de carbonato de cálcio. É sério o risco de destruição.
Mariella, botânica marinha num centro de observação em em Cagliari, na Sardenha, está a estudar em doutoramento o impacto deste mar demasiado quente sobre as florestas de posidónias. A posidónia é uma planta marinha classificada como superior: tem raízes, caules, folhas, flores e frutos. As pradarias aquáticas de posidónias (nome em homenagem ao deus grego do mar) são determinantes para a biodiversidade e para a produção de oxigénio. A análise mostra que as posidónias não estão a gostar do mar tão quente. Quase toda a fauna e flora marinha está a reagir mal ao pico do verão.
O observatório climático europeu Copernicus, já certificou que as subidas na temperatura da água na superfície do Mediterrâneo já atingiram este ano até 8 graus acima da média. Carlo Buontempo, diretor do Copeernicus, alertou em conferência de imprensa que “estamos a entrar numa nova fase, avançamos para territórios desconhecidos”. O oceanógrafo Thibault Guinaldo recorre aos dados científicos analisados para garantir que estes “episódios caniculares marinhos são uma manifestação das alterações climáticas” e sustenta: “mais de 90% do excesso de calor do planeta é absorvido pelos oceanos, e grande parte deste calor resulta das emissões que alteram o clima, alimentadas pela queima de combustíveis fósseis”.
A solução para a crise, portanto, segundo a ciência, está em reduzir estas emissões: caso contrário, a temperatura no mar Mediterrâneo, que já está a aquecer duas vezes mais depressa do que a média global dos oceanos, vai continuar a subir.
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