No Ocidente, pouca gente saberá onde fica Myanmar. É um pais no Sul da Ásia, no golfo de Bengala, de 676 mil quilómetros quadrados, entre o Bangladesh, a Índia, Laos e a Tailândia, com cerca de 60 milhões de habitantes, cuja capital se chama, na língua local Nay Pyi Taw (Nepiedó em português).

Nos anos 90, a Birmânia conseguiu a atenção do noticiário internacional, graças à nomeação de Aung Sansuu Kye, a chefe da oposição, para Prémio Nobel da Paz, em 1991.

Hoje com 80 anos, Aung conseguiu a distinção pela sua resistência à ditadura militar da altura. Eleita para Primeira-Ministra em 1990, foi deposta por um golpe militar e colocada em prisão domiciliar mesmo antes de tomar posse. A sua resistência passiva à ditadura militar é que lhe valeu o Prémio.

A independência Myanmar foi concedida pelo Reino Unido em 1948, como uma república parlamentar, mas em 1962 tornou-se uma ditadura militar. Aung ficou em prisão domiciliar durante 15 anos. Em 1992 deu-se uma revolta militar que levou a uma ditadura chefiada pelo general Than Shwe, que reprimiu com violência a minoria étnica roynga, com cerca de 100 mil mortos e três milhões de deslocados.

A Junta Militar não controla o país, mas controla as eleições e rejeita a cidadania dos roynga. O resultado foi que nas eleições de 2020 votou apenas 6% da população, mas os militares declaram uma vitória absoluta.

Aung entrou num entendimento com os militares, recebendo em troco o lugar de Conselheira de Estado, uma grande desilusão para a comunidade internacional que lhe tinha dado o estatuto de chefe da oposição e o Nobel.

Há quem diga que Aung aceitou este estatuto duvidoso para melhorar a situação dos roynga, mas na prática pouco fez (ou pode fazer) e acabou uma espécie de pária na comunidade internacional.

A repressão dos roynga tem sido uma sucessão de horrores, incluindo o bombardeamento de aldeias rebeldes com napalm, tortura de opositores e criação de crianças soldados. Os militares têm obtido vitórias sucessivas, mas não conseguem aumentar o território que controlam. É uma espécie de guerra civil permanente.

A China tem um papel ativo, porem velado, nesta situação: aceita a junta militar, mas, também arma alguns dos grupos rebeldes. Enquanto os generais fazem de conta que o país é uma democracia para aliviar a pressão internacional, as regiões que não estão sob o seu domínio insistem em criar constituições locais e tentam criar serviços públicos de eficiência duvidosa.

Quem sofre mais é a população, constantemente sujeita a violência por parte da junta militar e dos rebeldes, sem serviços mínimos de saúde e bem-estar, e em constante movimento. Os que fogem para os países limítrofes são explorados em trabalho escravo.

Um caso sobejamente conhecido é o dos cidadãos que são obrigados a trabalhar em serviços internacionais de esquemas pela Internet, sem que haja uma autoridade – as polícias locais e os órgãos policiais internacionais – que possa evitar esta exploração.

Este estado de violência decorre há décadas, com condenações na ONU e outros órgãos internacionais, sem qualquer resultado prático. Embora o país tenha alguns recursos naturais importantes, como jade, gemas, petróleo, gás natural e outros recursos minerais, não são suficientes para terem interesse na produção mundial, daí que não haja interesse internacional em resolver este conflito.

Pode usar-se Myanmar como um microcosmo dos conflitos e injustiças que ninguém consegue resolver. A ONU já votou incontáveis decisões e os ONGs internacionais já fizeram várias tentativas especializadas, mas nada teve qualquer efeito notável nestes 60 milhões de pessoas que só interessam aos países vizinhos para serem exploradas como mão de obra quase escrava, sem nenhuma proteção.

Birmânia, Burma ou Myanmar, é um daqueles buracos negros do mundo que não interessam a ninguém. Há outros países assim, sobretudo na região do SAEL em África.

São eles, mais do que os grandes países envolvidos em grandes conflitos, que mostram como a ordem internacional, as ONGS, os Médicos sem Fronteiras e as Nações Unidas, não conseguem resolver problemas endémicos em muitas partes do mundo.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.