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Todos já percebemos que Donald Trump precisa desesperadamente do acordo que possa apresentar como a paz que conseguiu, mas não está a ser capaz de se livrar da guerra em que se meteu, em 28 de fevereiro, desafiado por Netanyahu.

Então, estavam em curso negociações entre delegações dos Estados Unidos e do Irão sobre o programa nuclear iraniano. Dos bastidores saíam sussurros de conversações bem encaminhadas. Subitamente, Trump e Netanyahu abriram a guerra com uma pesada vaga de bombardeamentos de alta precisão sobre alvos com localização escolhida a partir da informação recolhida por serviços secretos, certamente com muita infiltração dentro do topo do aparelho militar e religioso da ditadura teocrática iraniana.

Nas primeiras proclamações a justificar o ataque desencadeado falava-se de eliminar de vez a ameaça nuclear iraniana, mudar o regime e libertar o povo do Irão. Trump prometeu então que a operação que designou de Fúria Épica seria coisa para ficar resolvida em “dois ou três dias”.

Passam nesta segunda-feira, 8 de junho, 100 dias sobre o desencadear da guerra.

É facto que logo nas primeiras horas do ataque foi morto o Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei. Mas o regime não caiu. O poder religioso perdeu poder para os falcões da Guarda Revolucionária. A ideologia do regime á a mesma, a ditadura está mais dura e repressiva.

Trump diz que sabe onde está toda a capacidade nuclear do Irão e que a vai eliminar, mas o tempo passa e nada acontece.

O povo do Irão, a quem foi prometida ajuda para alcançar a liberdade, deixou de contar. Está esquecido, exceto pelos duros do regime que continuam a reprimir, a enforcar e a fuzilar.

Surgiu o nó que não existia antes do deflagrar da guerra: o regime iraniano, que mostra ter sete vidas, retaliou com o fecho do Estreito de Ormuz, uma das mais concorridas vias marítimas em todo o mundo. O fecho de Ormuz significa, todos já o sentimos, escassez global de combustíveis, também de fertilizantes. Com a consequência de preço muito mais caro e cenário de fome em regiões mais pobres do mundo.

Constatado que o regime iraniano não caía, Trump e quem está ao comando em Teerão dispuseram-se a negociar, através de enviados especiais (os americanos sem experiência diplomática) e com mediação do muito bem relacionado chefe do estado maior militar do Paquistão. A conversa arrasta-se desde 8 de abril. A negociação tem estado em torno de um documento com 12 parágrafos, também já esteve em volta de um outro com 20. Textos curtos mas negociações longas. Várias vezes tem sido dito, do lado americano, que está quase. Trump voltou a falar de “dois ou três dias”, depois “mais uma semana”. E nunca chegam ao acordo para cessar-fogo enquanto negoceiam os temas mais críticos.

Por agora, a discussão está em volta da reabertura do Estreito de Ormuz, o problema que não existia quando, há 100 dias, a guerra foi desencadeada. Vigora entre os EUA e o Irão uma espécie de interrupção do fogo, embora com escaramuças diárias.

As minutas de entendimento são sucessivamente mandadas para trás, com pedidos de alterações e esclarecimentos. Agora, de acordo com um alto funcionário americano citado pelo Axios, há mais uns dias de espera por uma resposta de Teerão: "Eles estão entrincheirados em cavernas e não usam e-mail." Uma referência ao bunker onde Mojtaba Khamenei, o novo Líder Supremo, sabe-se que ferido, está escondido e só comunica através de mensageiros supostamente secretos. Este Khamenei filho tem a palavra final sobre os pontos que também são examinados pela gente da Guarda Revolucionária, incluindo o núcleo de radicais que não querem o fim das hostilidades. E, mesmo nos Estados Unidos, a última minuta da proposta de acordo ou memorando de entendimento foi mal recebida por republicanos linha-dura como os senadores Lindsey Graham e Ted Cruz. 

Trump, que está com cada vez mais pressa, também precisa exibir que pode fazer muito melhor do que Barack Obama no acordo com o Irão em 2015: "Os iranianos são excelentes negociadores, astutos. Mas eu também sou", disse no domingo, à nora Lara Trump, que o entrevistou para a Fox News.

Na noite deste domingo Irão e Israel meteram-se em vagas sucessivas de ataques recíprocos. É a escalada da guerra, tão desejada por Netanyahu e, para muitos com surpresa, também pelos falcões do regime iraniano.

Já nesta manhã, um post de Trump, furioso na Truth Social: “Israel e o Irão devem tratar de conclui um CESSAR-FOGO imediato”. Trump, obviamente com de se livrar deste pesadelo, acrescenta:” As negociações finais sobre a paz continuam, a menos que a ignorância ou a estupidez venham entravá-las”. Tem-se visto como estes males dominam todo este processo.

Aos 100 dias de guerra e um mês depois do anúncio do cessar-fogo entre EUA e Irão, frequentemente violado por escaramuças, há o risco de as negociações passem de encalhadas para o retrocesso.

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