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Os dados mostram que os aumentos salariais têm sido mais expressivos nos escalões inferiores da distribuição dos rendimentos, impulsionados pelas sucessivas atualizações do salário mínimo. Em 2025, os trabalhadores do primeiro decil da distribuição salarial registaram um crescimento médio do salário base superior a 8%, enquanto no último decil o aumento rondou os 5%.
Para Paulo Marques, professor associado do Departamento de Economia Política do Iscte, o fenómeno resulta do facto de os salários acima do mínimo não acompanharem o mesmo ritmo de crescimento.
"Quando aumenta o salário mínimo, os outros salários acima não aumentam na mesma proporção e a consequência é que o valor do salário mínimo se aproxima cada vez mais, quer do salário médio, quer do salário mediano", explica ao 24notícias.
Segundo o economista, esta compressão salarial pode gerar vários problemas. Desde logo, dificulta a diferenciação entre trabalhadores com diferentes níveis de experiência, qualificações ou produtividade.
"Não permite premiar a antiguidade, não permite premiar níveis de qualificação maiores da mesma forma e também dificulta premiar aquilo que é a produtividade dos trabalhadores", afirma.
O problema não é o salário mínimo
Apesar dos riscos apontados pelo Banco de Portugal, Paulo Marques considera que a discussão não deve centrar-se no aumento do salário mínimo.
"Se acharmos que o problema é o salário mínimo, então estamos a ter o alvo completamente errado", defende.
O professor lembra que os aumentos do salário mínimo responderam à forte subida do custo de vida dos últimos anos, marcada pelo agravamento dos preços da habitação, da alimentação e de outros bens essenciais.
"Quem sobreviveria hoje com um salário mínimo de 500 euros, como acontecia há cerca de dez anos, sobretudo na Área Metropolitana de Lisboa?", questiona.
Na sua perspetiva, a verdadeira origem do problema reside na incapacidade dos restantes salários acompanharem a evolução do salário mínimo, situação que associa à perda de força dos mecanismos tradicionais de valorização salarial.
"O problema é a negociação coletiva estar fragilizada e a desregulação das leis laborais", sustenta.
Fragilidade da negociação coletiva
O economista aponta a negociação coletiva como um dos principais instrumentos para reforçar o poder negocial dos trabalhadores e promover aumentos salariais para além dos mínimos legais.
"Uma coisa é negociar individualmente, outra coisa é negociar coletivamente", refere, defendendo que os trabalhadores com representação coletiva conseguem alcançar salários mais elevados, como acontece em vários países europeus.
O professor mostra-se particularmente crítico em relação às alterações laborais que estão a ser discutidas pelo Governo, considerando que poderão contribuir para uma maior fragilização da negociação coletiva e da proteção do emprego.
Economia de baixos salários agrava tendência
Além dos fatores institucionais, Paulo Marques identifica um problema estrutural na economia portuguesa. Apesar do crescimento do emprego nos últimos anos, considera que grande parte desse crescimento tem ocorrido em setores de baixo valor acrescentado.
"Temos uma economia assente no turismo, restauração, imobiliário e comércio, setores que pagam baixos salários", afirma.
Esta realidade afeta também os trabalhadores mais qualificados. Segundo o economista, a generalização das qualificações não foi acompanhada por uma transformação suficiente da estrutura produtiva nacional.
"No passado, ter qualificações dava mais poder negocial. Hoje, a economia não absorve tantos qualificados e eles acabam por perder poder negocial", explica.
Banco de Portugal alerta para impacto na produtividade
Na análise divulgada esta semana, o Banco de Portugal sublinha que a compressão da distribuição salarial contribui para reduzir as desigualdades, mas levanta simultaneamente questões sobre os incentivos ao trabalho, à progressão profissional e à produtividade da economia.
Para Paulo Marques, a resposta passa por reforçar a negociação coletiva e promover atividades económicas com maior incorporação de conhecimento e qualificações.
"Precisamos de incentivar setores económicos em que o uso das qualificações seja maior e, ao mesmo tempo, reforçar a negociação coletiva e os mecanismos de proteção do emprego", defende.
Na sua leitura, só assim será possível garantir que os salários médios e intermédios acompanham a evolução do salário mínimo sem comprometer a valorização da experiência, das competências e da produtividade.
"Se definirmos o problema como sendo o salário mínimo, estamos a defini-lo de forma errada", conclui.
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