Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
O fundador da Anta, Ding Shizhong, abandonou o ensino secundário aos 17 anos e iniciou o negócio com calçado produzido numa fábrica de um familiar. O lucro permitiu-lhe abrir a primeira oficina e fabricar sapatos para outras empresas, numa altura em que o capitalismo ganhava espaço na China sob a supervisão do Partido Comunista.
Criada oficialmente em 1991, a Anta começou como um pequeno fabricante na cidade de Jinjiang, na província de Fujian, uma região que se tornaria um dos maiores polos mundiais da indústria do calçado. Ao longo das décadas, a empresa evoluiu de subcontratada de marcas internacionais para um grupo global com ambições próprias.
“Não queremos ser a Nike da China, mas a Anta do mundo”, afirmou Ding Shizhong em 2005, frase que se tornou um dos lemas estratégicos da empresa.
Atualmente, a Anta opera mais de 10 mil lojas na China e patrocina atletas de topo, como a esquiadora olímpica de estilo livre Eileen Gu. Em fevereiro, a empresa deu um passo simbólico na sua expansão internacional ao abrir a primeira loja própria nos Estados Unidos, num espaço emblemático em Beverly Hills.
A ascensão da Anta reflete décadas de especialização industrial na China. Só em 2005, a província de Fujian produzia cerca de um quinto de todos os sapatos do mundo, segundo estimativas das Nações Unidas. Em Jinjiang, milhares de fábricas e fornecedores criaram cadeias de produção altamente eficientes, inicialmente ao serviço de marcas ocidentais como Nike e Adidas.
Segundo a académica Fei Qin, que estudou a indústria chinesa nos anos 2000, estas empresas aprenderam não apenas a produzir mais, mas a produzir melhor, mais rápido e com maior consistência, conhecimento que depois aplicaram às suas próprias marcas.
Um momento decisivo para a Anta ocorreu em 2007, quando a empresa entrou na Bolsa de Hong Kong, angariando cerca de 3,5 mil milhões de dólares de Hong Kong, um recorde na altura para uma empresa chinesa do setor desportivo.
A estratégia de crescimento internacional da Anta passa por uma abordagem de “multimarca”. Em 2009, adquiriu os direitos da Fila na China. Em 2019, comprou o controlo da Amer Sports, passando a deter marcas como Arc'teryx e Salomon. A Anta é também proprietária da Wilson e, mais recentemente, adquiriu 29% da Puma, comprometendo-se a apoiar a sua expansão no mercado chinês.
Esta estratégia permite à Anta entrar em mercados ocidentais através de marcas já consolidadas, contornando a perceção negativa que ainda existe em relação a produtos “made in China”, explica o analista Rufio Zhu, da agência internacional IMG.
Apesar de já contar com patrocínios de estrelas do basquetebol como Klay Thompson e Kyrie Irving, a empresa reconhece que ainda não alcançou acordos de impacto comparável ao histórico contrato entre a Nike e Michael Jordan.
O contexto internacional também traz desafios. A relação tensa entre a China e o Ocidente, em particular com os Estados Unidos, torna a expansão mais sensível. O caso de Eileen Gu, norte-americana de nascimento que optou por representar a China nos Jogos Olímpicos, gerou controvérsia e mostrou os riscos políticos associados à projeção global de marcas chinesas.
A ascensão da Anta coincide ainda com dificuldades enfrentadas por Nike e Adidas, afetadas por tarifas norte-americanas, abrandamento do consumo na China e ajustamentos estratégicos no comércio eletrónico. Para os analistas, este cenário cria uma oportunidade rara para novos concorrentes globais.
A Anta reconhece que o caminho ainda é longo, mas mostra confiança. “Somos realistas quanto à concorrência, mas o mercado global de vestuário desportivo não é um jogo de soma zero”, afirmou um porta-voz da empresa à BBC. “Estamos confiantes de que os consumidores irão reconhecer a inovação e o valor da marca Anta.”
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários