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Segundo declarações do economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, ao El País, o impacto final dependerá sobretudo da duração e intensidade do conflito, bem como do tempo necessário para restabelecer a produção e o transporte de energia. Num contexto marcado pela imprevisibilidade, o FMI admite a dificuldade em fazer previsões fiáveis em plena crise.

A origem da instabilidade remonta ao ataque lançado por Washington e Telavive contra Teerão no final de fevereiro, uma decisão que travou perspetivas económicas mais otimistas. Até então, o cenário global beneficiava de fatores favoráveis: descida das taxas de juro, condições de financiamento mais acessíveis, dinamismo associado à inteligência artificial e um dólar relativamente fraco.

Mas o conflito no Médio Oriente veio inverter essa trajetória. A resposta iraniana, com o bloqueio do estreito de Ormuz (por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial) fez disparar os mercados energéticos. Os ataques a infraestruturas energéticas agravaram ainda mais as perturbações no fornecimento de petróleo, gás natural e matérias-primas essenciais para setores como o farmacêutico e o agroalimentar.

Três cenários, três níveis de risco

O FMI traça três possíveis cenários para a evolução da economia mundial. No cenário base, que assume um conflito limitado, o crescimento global deverá situar-se nos 3,1% em 2026 e 3,2% em 2027, ligeiramente abaixo das previsões anteriores. Ainda assim, a inflação aumentará para 4,4% em 2026, antes de desacelerar. Mesmo neste cenário moderado, o preço do petróleo deverá subir cerca de 21%, atingindo uma média de 82 dólares por barril.

O impacto económico da guerra faz-se sentir por três vias principais: o aumento dos preços das matérias-primas, o risco de espirais inflacionistas entre salários e preços, e a instabilidade financeira, que pode traduzir-se em fuga de capitais, aumento dos prémios de risco e valorização do dólar.

Nos cenários mais pessimistas, os efeitos tornam-se significativamente mais graves. Num cenário adverso, com energia mais cara durante mais tempo, o crescimento global poderá abrandar para 2,5% em 2026, enquanto a inflação sobe para 5,4%. Já num cenário severo, com danos mais profundos nas infraestruturas energéticas do Golfo Pérsico, a economia mundial poderá crescer apenas 2%, com inflação acima dos 6%, um quadro próximo de recessão global. Seria uma situação rara: desde 1980, crises desta magnitude ocorreram apenas em quatro ocasiões, incluindo a crise financeira global e a pandemia da Covid-19.

Impacto desigual entre regiões

O choque não será uniforme. As economias emergentes e em desenvolvimento, sobretudo as importadoras de energia, serão as mais vulneráveis. Já os países produtores de petróleo no Médio Oriente também enfrentarão perdas devido à interrupção das exportações e aos danos nas infraestruturas.

Os Estados Unidos surgem como uma das economias menos afetadas, graças à sua capacidade exportadora de energia, mantendo um crescimento relativamente sólido acima dos 2%.

Na Europa, o cenário é mais frágil. O crescimento deverá manter-se anémico, com a zona euro a avançar pouco mais de 1% ao ano. Alemanha e França continuam a mostrar sinais de fraqueza, enquanto Itália permanece estagnada. Espanha destaca-se como exceção, com um desempenho mais robusto, embora também em desaceleração.

A China, por seu lado, mantém um crescimento moderado, sustentado por estímulos internos e pela redução de tarifas comerciais, apesar dos desequilíbrios estruturais da sua economia.

Um futuro dependente da guerra

Todas as previsões permanecem altamente voláteis. A evolução do conflito será determinante para o rumo da economia global. A instabilidade geopolítica, e em particular decisões imprevisíveis por parte de grandes potências, continua a ser um fator de risco central.

Num cenário em que o fluxo de petróleo volte a ser interrompido, o mundo poderá enfrentar a maior crise energética dos tempos modernos, com efeitos não apenas económicos, mas também políticos e sociais.

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