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Os Emirados integraram a OPEP ainda antes de se tornarem um Estado soberano, em 1971, e eram considerados um dos seus membros mais estratégicos. Embora a produção seja dominada pela Arábia Saudita, Abu Dhabi detinha a segunda maior capacidade de produção excedentária, o que lhe permitia aumentar rapidamente a oferta e ajudar a conter subidas acentuadas dos preços.

Segundo Carole Nakhle, economista especializada em energia e diretora-executiva da Crystol Energy, a decisão "não surgiu de forma súbita". "Os Emirados investiram milhares de milhões de dólares para reforçar a sua capacidade produtiva, mas continuavam sujeitos a quotas que não refletiam esse esforço. Do ponto de vista económico, os custos de permanecer na OPEP tornaram-se demasiado elevados", afirma ao 24notícias.

No centro do desacordo está o sistema de quotas da OPEP, que limitava a produção dos Emirados a cerca de 3 a 3,5 milhões de barris por dia, apesar de o país ter capacidade para produzir significativamente mais. Para Abu Dhabi, isso significava abdicar de receitas num contexto em que outros membros, com menor margem de crescimento, beneficiavam do controlo da oferta.

"A OPEP exige sacrifícios coletivos, mas esses sacrifícios nem sempre são repartidos de forma equilibrada. Os Emirados sentiam que estavam a suportar uma parte desproporcionada do esforço para estabilizar o mercado", explica Carole Nakhle.

Contexto geopolítico agravou divergências

A decisão surge também num momento de forte instabilidade regional, marcado pelo agravamento do conflito no Médio Oriente e pela pressão sobre rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte substancial do petróleo mundial. Este contexto terá contribuído para aprofundar divergências estratégicas entre os principais produtores do Golfo.

"Enquanto a Arábia Saudita continua a privilegiar preços elevados através de um controlo apertado da oferta, os Emirados, com uma economia mais diversificada, estão mais disponíveis para competir por quota de mercado. Essa diferença de abordagem tornou-se cada vez mais evidente", refere a especialista.

A saída dos Emirados levanta sérias dúvidas quanto à coesão e à relevância futura da OPEP, cuja capacidade de influenciar o mercado já é inferior à que tinha nas décadas de 1970 e 1980. Atualmente, a organização controla cerca de metade do petróleo transacionado a nível internacional e enfrenta concorrência crescente de produtores externos.

"Este é um teste decisivo à liderança saudita, Se Riade optar por uma guerra de preços, os Emirados têm capacidade financeira para resistir. Muitos outros países da OPEP, mais dependentes das receitas do petróleo, poderão não ter essa margem", sublinha Nakhle.

Uma aposta antes da transição energética

Para vários analistas, a decisão deve também ser lida à luz da transição energética. A eletrificação dos transportes e o investimento em energias alternativas, sobretudo na Ásia, começam a travar o crescimento da procura global de petróleo, levantando a possibilidade de elevada procura nas próximas décadas.

"Neste contexto, faz sentido maximizar receitas enquanto o petróleo mantém um valor elevado. Os Emirados dispõem de capital, infraestruturas e uma economia parcialmente diversificada, o que lhes permite agir com maior liberdade", afirma a economista.

A curto prazo, contudo, o impacto da saída dos Emirados nos preços do petróleo deverá ser limitado, dado que o mercado continua fortemente condicionado pela instabilidade geopolítica. A médio e longo prazo, porém, poderá traduzir-se em maior oferta, mais concorrência entre produtores e numa OPEP menos capaz de impor disciplina coletiva.

"Não se trata de um episódio isolado. É um sinal claro de que o modelo tradicional de governação do mercado petrolífero está a enfraquecer. A saída dos Emirados pode marcar o início de uma nova fase, mais fragmentada, mais competitiva e menos previsível, no sistema energético global", conclui Carole Nakhle.

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