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Em Loures, no distrito de Lisboa, Vitória Silva (nome fictício), cozinheira de 46 anos, vive com o namorado, um construtor civil, e com a filha de 14 anos. Para conseguir pagar a renda de 1.200 euros por mês, a família partilha um T3 com outra família há quase dois anos. Cada casal paga 600 euros, mas todos recebem o salário mínimo, exceto a mãe da segunda família, que ganha cerca de 300 euros em part-time e está grávida. A sala foi transformada num quarto para o casal, que espera um bebé, e a falta de recursos é constante. "Às vezes falta comida, produtos de higiene e como não temos máquina de lavar roupa, usamos a banheira", contou Vitória.
No Porto, a situação é semelhante. Gabriela Gonçalves (nome fictício), também cozinheira, ganha cerca de 900 euros e vive num T1 com as duas filhas de 16 anos, num espaço onde "é apertado" para três pessoas. O senhorio reduziu a renda de 700 para 350 euros, mas a casa continua a ser pequena para o dia a dia de adolescentes que precisam de estudar. "Uma já estudou e quer ir dormir, mas a luz tem de estar acesa para outra estudar", descreveu Gabriela, que está a tirar a licenciatura em Serviço Social e paga cerca de 300 euros de propina com apoio de uma bolsa.
Estes casos não são exceções. Maria Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), afirma que existem muitos exemplos de famílias monoparentais a enfrentar dificuldades com a habitação, incluindo problemas como humidade, infiltrações e falta de espaço. "As famílias estão a ser obrigadas a escolher entre pagar a renda ou garantir condições mínimas de vida", afirmou.
O movimento Porta a Porta – Casa para Todos também alerta para situações extremas, como seis famílias a partilhar a mesma casa ou trabalhadores que têm de aceitar um terceiro emprego, comprar casa longe do local de trabalho ou viver com estranhos para conseguir pagar. É o caso de Carlos Nunes, de 63 anos, que vive em Setúbal num apartamento da Caritas partilhado com quatro desconhecidos. Antigo dono de uma agência de viagens, viu o negócio ruir com a pandemia e hoje trabalha como segurança, ganhando cerca de 900 euros mensais. "Aquilo que ganho não chega para nada", disse.
Os números confirmam a pressão no mercado. As rendas por metro quadrado aumentaram 4,9% em dezembro de 2025 face ao mesmo mês de 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). No terceiro trimestre de 2025, Portugal registou a segunda maior subida homóloga dos preços das casas na União Europeia, com um aumento de 17,7%, muito acima da média da zona euro (5,1%) e da UE (5,5%), de acordo com dados do Eurostat.
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