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Afonso Eulálio é o ciclista de quem se fala. Camisola Rosa na 109.ª edição da Volta a Itália, desde de 13 de maio, está a mostrar-se ao mundo e a Portugal. É o terceiro português, a seguir a Acácio da Silva (1989) e João Almeida (2020), a vestir a maglia rosa.
Tem 24 anos, é natural de Canosa, aldeia mapeada na Junta de Freguesia de Ferreira-a-Nova, na Figueira da Foz, mas vive em Cacia, distrito de Aveiro, com a namorada, Marisa Ferreira, dois anos mais nova. As duas localidades estão hoje decoradas com fitas rosas, uma forma de tributo a este “filho da terra”.
As primeiras incursões de Eulálio foram fora de estrada. “Começou no BTT, porque era aquilo que toda a gente fazia na zona dele, no Centro”, assinala Gonçalo Moreira, comentador de ciclismo do Eurosport.
“Normalmente, é a forma mais fácil de começar, qualquer miúdo começa com uma BTT ou uma BMX, ninguém compra diretamente uma bicicleta de estrada, porque é um investimento muito grande”, disserta.
“Corria numa equipa que se chama Korpo Activo, equipa da zona Centro, perto da Figueira da Foz”, recorda. “Tinha alguns resultados no BTT, mas também não era nenhum fora de série, discutia algumas corridas”, recorda.
“No sítio certo, na hora certa, e contou com alguém que acreditou nele”
Deixa, entretanto, o BTT. “Ninguém imaginava que fizesse a transição para a Estrada. Não teve uma trajetória, nem como júnior de segundo ano, nem sub23, que indicasse nada do que veio a acontecer mais tarde. Portanto, foi uma trajetória bastante improvável e atípica”, descreve Gonçalo Moreira em conversa com o 24notícias.
Começa a rolar nas estradas, “numas brincadeiras com os amigos, em 2019” e seria, “na Covid, em 2020, que começou a andar mais a sério e a investir no ciclismo de estrada, ele próprio conta sempre essa história”, adiantou.
“Rapidamente foi visto pelo Joaquim Andrade, diretor da equipa do Feirense (ABTF-Betão Feirense)”. Acaba por, inicialmente, “integrar a equipa satélite do Feirense, São João de Ver, sai para a Glassdrive-Q8-Anicolor e regressa ao Feirense”, reaparecendo “um pouco mais forte”, reconhece.
O ano de 2023 e, sobretudo, 2024 foram os “anos fortes” de Afonso Eulálio. 5.º na Clássica de Ordizia (País Basco), em 2023, repete igual classificação da Volta às Astúrias, um ano depois.
Entra no radar das equipas profissionais portuguesas e estrangeiras e de olheiros. Desperta a atenção do antigo ciclista espanhol da Movistar, Beñat Intxausti, atual agente da A&J All Sport Agency, a agência Tadej Pogačar.
“O Afonso em sequer tinha um agente, não estava, por exemplo, no top de ciclistas agenciados por João Correia (espécie de Jorge Mendes do ciclismo)”, explica.
Em 2025, andou seis dias de amarelo na Volta a Portugal. A prestação na Portuguesa chama a atenção das equipas profissionais do World Tour. “Falava-se na altura da Cofidis, mas foi a Bahrain que formalizou o interesse”, informa.
Estava consumado o salto da 3.ª divisão para a 1.ª divisão. “O Afonso Eulálio, juntamente com o Julius Johansen (Sabgal-Anicolor), que vai para a UAE, deram o salto de Portugal, de equipas continentais, da terceira divisão, para a primeira divisão de ciclismo”, exaltou. É necessário “recuar até 2010” para algo igual, destaca Gonçalo Moreira, comentador do Eurosport, canal que transmite a Volta a Itália.
“Esteve no sítio certo, na hora certa, e contou com alguém que acreditou nele. Primeiro o Joaquim Andrade, no Feirense, deu-lhe a oportunidade de correr um calendário competitivo, depois o agente e a equipa da Bahrain”, recua.
De gregário de luxo a líder pelas circunstâncias
É a segunda vez que integra o pelotão da Volta a Itália. “No ano passado fez o Giro sem o ter podido preparar convenientemente”., explica. “Era um ciclista mais” dentro da Bahrain Victorious e “puseram-no a correr imenso antes da Volta a Itália, um calendário superintenso e acabou por pagar na última semana”, recorda.
Abandona na 19.ª etapa, mas deixa uma marca de água. É o primeiro a cruzar o Passo Mortirolo (1852 m), uma das subidas lendárias do Giro di Italia, situada nos Alpes italianos, na Lombardia, designada, no ano passado, “Montagna Pantani”, distinção anual em memória do ciclista italiano Marco Pantani.
Não vence a etapa, mas experiencia as sensações de subir ao palco para receber um reconhecimento especial que não “dá dinheiro, mas dá prestígio”, particulariza.
Este ano, tudo foi diferente. E quase tudo mudou no início da primeira Grande Volta da temporada.
Santiago Buitrago, líder da equipa, cai na 2.ª etapa, na Bulgária. Afonso deveria ser o braço direito do colombiano, mas acaba “atirado aos lobos”, forçado a liderar a equipa, o que acontece, pela primeira vez, numa volta com esta dimensão.
Antes, tinha-o feito “na AlUla Tour”, Volta à Arábia Saudita, e foi um “gregário de luxo, um trabalhador de luxo dos líderes da equipa”, na Volta à Catalunha.
“É um escalador puro. Muito explosivo”
Mas quem é Afonso Eulálio, confesso benfiquista que recebeu uma mensagem de Rui Costa (o ciclista) e não conseguiu atender a chamada do presidente da República, António José Seguro, conforme confessou, na primeira pessoa, numa conferência de imprensa?
Gonçalo Moreira cataloga-o, de forma assertiva. “É um escalador puro. Muito explosivo”, traça. Há os escaladores mais a diesel. Se fossem dois motores, o Afonso seria um motor de explosão puro”, compara.
“É um corredor que faz muito bem as montanhas mais longas, as subidas mais longas, anda bem em altitude. Numa montanha de 50 minutos, uma hora, o Afonso é um dos melhores escaladores do mundo”, considera. “É sofrimento puro”, observa.
“Mas também se desenrasca muitíssimo bem em clássicas duras, com subidas, quanto mais íngremes melhor, por causa dessa explosividade natural que tem”, antecipa.
No World Tour é descrito como “o escalador com punch”. Razão? “No final de uma longa subida, tem a capacidade de ainda ter um arranque, uma aceleração, que não é muito normal nos escaladores”, avança. “Às vezes faz a diferença entre ganhar e perder uma etapa e ele tem esse potencial”, detalha.
Subir montanhas é a habitat natural de Afonso Eulálio, mas o ciclismo não se faz só de estradas íngremes. “Tem dificuldades quando os dias são fáceis porque faltam-lhe rotinas dentro do pelotão” identifica. Por isso, terá de melhorar em “aspetos técnicos”, um caminho ao qual chegará “com trabalho”, regista. “O contrarrelógio é onde tem maior margem de progressão”, acrescenta.
Deitar tarde, as entrevistas e a provas do fato. As dores de ser líder
Gonçalo Almeida entrevista Afonso Eulálio “três a quatro vezes, por ano”. Conversaram antes do contrarrelógio. Notou um “Afonso mais cansado”, fruto dos compromissos inerentes à camisola Rosa. Mas “também está a amadurecer”, constata.
Hoje, a obrigação de “correr todos os dias na frente” provoca-lhe “um desgaste” extra.
“Seja porque todos os dias sobe ao pódio, deita-se tardíssimo porque tem cerimónias protocolares, entrevistas, em português, inglês, italiano, francês, controlo antidoping, acorda cedo, no dia de descanso passou o dia inteiro a tirar medidas para o fato do contrarrelógio com o patrocinador oficial do Giro, a afinar a bicicleta, são muitas horas de descanso que, em teoria, deveria ter tido para depois poder descansar as etapas que tinha em mente e que deixa de ter”, avalia.
Toda essa correria faz parte do ofício dos ossos de quem está na frente. “Isso é o que faz um líder, um líder não é só aquele que anda mais rápido, é aquele que anda mais rápido, descansa menos tempo e ainda tem de ter a responsabilidade de corresponder na estrada diariamente a todos os desafios que lhe vão por”, frisa.
Nem nos sonhos mais irrealistas o ciclista figueirense pensou viver os dias que tem vivido. “Antes do Giro disse-me que a mentalidade com que ia à prova era para caçar etapas, tentar uma vitória, perder algum tempo nas primeiras etapas para ficar livre para o deixarem entrar em fuga nos dias montanhosos”, relembra.
Mas tudo mudou quando muda de malha em pleno pódio. “A partir do momento em que chegas à camisola Rosa, não a deixas escapar nem por nada deste mundo”, dispara, “a não ser que seja inevitável e haja alguém mais forte do que tu”, ressalva.
A camisola Rosa dá “uma visibilidade que não lhe daria uma vitória numa etapa. Toda a gente se lembra da camisola Rosa do Giro ou da camisola Amarela do Tour”, sublinha.
“Quando se corre com a camisola Rosa ou como líder da equipa, tem de se correr permanentemente na frente”, atesta. “O Afonso está habituado a correr na parte de trás do pelotão, tranquilo. No ano passado, se perdesse um minuto perdia um minuto, se perdesse 10 minutos, perdia 10 e ninguém dava nada por isso”, admite.
A prestação nas estradas transalpinas promete mudar a vida de Afonso Eulálio. “Sairá reforçado e, a partir de agora, se calhar já não vai ser apenas um ciclista de trabalho, vai subir em termos da hierarquia da equipa e vai passar a ter também um calendário mais próprio do que é feito em função dos líderes”, caracteriza.
O Afonso Eulálio “tem muito potencial para poder fazer coisas muito bonitas” e, segundo Gonçalo Moreira, deverá “passar a fazer parte dessa lista de outsiders, onde até agora não estava”, finaliza o comentador de ciclismo.
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