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Quem passa regularmente pelas imediações do Estádio Nacional, no Jamor, dificilmente estranha encontrar pessoas vestidas com camisolas verdes e brancas do Celtic FC.

Caminham sozinhas, aos pares ou em grupo. Chegam de Glasgow, de Dublin, de Belfast, de cidades escocesas, irlandesas, de qualquer outro ponto do mundo. Algumas tiram fotografias, outras permanecem em silêncio, de olhos postos no relvado.

Têm idades, profissões e histórias diferentes. Parecem não ter rumo ou justificação à vista para desaguarem no pulmão verde de Oeiras. Mas têm e há. Partilham a mesma motivação nesta singular romaria que conta quase 60 anos: visitar o palco onde o Celtic conquistou, pela primeira vez, a Taça dos Campeões Europeus de futebol.

Foi no Estádio Nacional que, a 25 de maio de 1967, o clube escocês surpreendeu tudo e todos ao derrotar por 2-1 o todo-poderoso Football Club Internazionale Milano e se tornou a primeira equipa britânica a vencer a principal competição europeia de clubes de futebol.

Mais do que o inédito título, a data marcou o nascimento dos Lisbon Lions, uma equipa composta quase exclusivamente por jogadores nascidos a poucos quilómetros do Celtic Park e treinada por Jock Stein, o homem que revolucionou o futebol do clube.

Desde então, o Jamor tornou-se um local de peregrinação para sucessivas gerações de adeptos que transportam o trevo de quatro folhas no coração.

Alguns estiveram nas bancadas naquela tarde de maio. Outros cresceram a ouvir pais e avós contar como um grupo de rapazes da industrial Glasgow chegou a Lisboa para desafiar um dos gigantes do futebol europeu.

Uns e outros continuam a fazer do Jamor uma paragem obrigatória e procuram reviver um dos dias mais marcantes da história do Celtic e do futebol escocês.

Durante décadas, a viagem ao passado terminava com as caras encostadas junto às grades da porta Maratona do Estádio Nacional. Um olhar para o relvado bastava para puxar o fio da história e imaginar Billy McNeill a erguer a Taça dos Campeões Europeus ou milhares de adeptos escoceses a invadirem o campo ao apito final.

Entretanto, algo promete mudar, temporariamente, a experiência destes fiéis. Há um novo ponto de paragem na romaria.

De Glasgow ao Jamor. Um túnel que não sobe ao relvado

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Além de contemplar a placa comemorativa dos 50 anos à porta dos balneários, desde 26 de junho os adeptos do Celtic já podem encontrar uma última e digna paragem para celebrar e reviver o 25 de maio, de 1967.

O túnel de acesso ao Estádio Nacional acolhe "From Glasgow to Glory – Celtic's 1967 European Triumph in Jamor, Lisbon", uma exposição que assinala os 60 anos da conquista europeia do Celtic Football Club.

Resultado de uma colaboração entre Instituto Português do Desporto e Juventude  através do Museu Nacional do Desporto e o Celtic Football Club, a mostra reúne imagens, objetos e outros conteúdos que revisitam o percurso lendário dos Lisbon Lions (Leões de Lisboa), recordam a campanha europeia de 1966/67 e a final disputada em Lisboa.

Aberto os dias úteis da semana, das 9h00 às 12h00, o percurso revisita o contexto da época, apresenta uma biografia do Estádio Nacional e explica a história do clube fundado em 1988, cujas raízes estão assentes na comunidade imigrante irlandesa na industrial Glasgow.

Entre as peças, exibe a camisola vencedora da Taça dos Campeões Europeus, ilustra a festa conteúdos audiovisuais que recriam o ambiente da tarde do jogo, a vasta cobertura jornalística, portuguesa e escocesa, e transporta, através da música dos Celtic, os visitantes para a ambiente vivido naquele dia, canção essa que o treinador Jock Stein entoou no túnel, na batalha psicológica frente aos aproados italianos de Helenio Herrera, Il Mago.

Espaço ainda para recordar Jock Stein, o capitão Billy McNeill, identificar os restantes Leões de Lisboa, assinalados pelos bairros onde cresceram numa curta esfera de quilómetros à volta do estádio, Celtic Park, numa forma de sublinhar a origem humilde da equipa que surpreendeu a Europa frente à lendária equipa do “Grande Inter”.

A exposição deverá permanecer no túnel do Estádio Nacional pelo menos até junho de 2027. "Estará patente durante um ano até ao final das comemorações dos 60 anos da conquista", explica ao 24notícias Jorge Santos, curador da mostra.

Apenas encerrará temporariamente quando o recinto receber eventos desportivos ou culturais, acrescentou o curadorque, antes de lhe entregarem o projeto, “desconhecia” a ligação do Celtic a Lisboa, admitiu.

Aberto este local de culto temporário, há, contudo, um pequeno aviso para quem o visita. Ao contrário do que muitos visitantes desejariam, o passeio pelo passado no túnel “não culmina na subida ao relvado” onde o Celtic conquistou a Europa. "Só em visitas especiais", esclarece Jorge Santos.

Mas, para muitos adeptos, bastará percorrer os olhos pelo último painel encostado do lado esquerdo das escadas para subir em pensamento ao relvado e voltar, ainda que por instantes, à tarde de 25 de maio de 1967. A outra alternativa passa por marcar uma visita ao Estádio Nacional.

Jim Craig voltou ao lugar onde conquistou a Europa. E ouviu os adeptos

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Há memórias que nunca abandonam um futebolista.

Ainda hoje, passados quase 60 anos, Jim Craig respira o ambiente daquela tarde de quinta-feira, 25 de maio, de 1967, final da Taça dos Campeões Europeus, no Estádio Nacional, no Jamor.

Antigo defesa direito do Celtic FC, um dos Lisbon Lions, regressou ao Estádio Nacional como um dos convidados da inauguração da exposição “From Glasgow to Glory – Celtic's 1967 European Triumph in Jamor, Lisbon, um tributo dedicado à conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo clube escocês.

De visita ao Estádio Nacional, enquanto se encaminhava para o túnel, pisou o relvado e percorreu a longa escadaria até à Tribuna de Honra, revê cada minuto da final: os gritos dos adeptos, a invasão de campo após o apito final e Billy McNeill a subir sozinho à Tribuna para levantar a Taça dos Campeões.

“Éramos uma equipa de garotos locais que se juntaram. E tínhamos um ótimo treinador, Jock Sein. Sem ele, isso não teria acontecido. Era o cérebro”, enalteceu.

Jim Craig reviveu ao 24noticas o dia histórico. Pessoalmente, vestiu a pele de besta e bestial e passou do amargo de boca à redenção.

Continua a garantir não ter cometido falta sobre Renato Cappellini de que resultaria o golo italiano, aos seis minutos, de Sandro Mazzola. “Não foi penálti”, sorriu.

Do outro lado da moeda, nasceu do seu pé o passe para Tommy Gemmell fazer o golo do empate, antes de Stevie Chalmers completar a reviravolta.

Craig guarda com especial carinho uma conversa tida com Gemmell nessa noite.

“O Tommy disse-me, enquanto bebia um copo de vinho branco: Jim, pensei que não me tinhas ouvido gritar. Respondi-lhe: A tua avó, em Lanarkshire, ouviu-te gritar. Só estava à espera do momento certo para te passar a bola”, recordou.

No dia seguinte, no regresso a Glasgow, numa “receção no Celtic Park” conheceu Elisabeth, “filha de um dirigente do Celtic” e aquela que viria a ser a sua mulher.

“Venço a taça europeia na noite de terça, e conheci a minha mulher (Elisabeth) pela primeira vez na noite seguinte. O que poderia ser melhor do que isso?”, questionou.

Dentista de profissão, descobriu uma oportunidade para materializar o amor à primeira vista. Começou o flirt ao convidá-la a ir a uma consulta ao consultório onde exercia a profissão e fez “53” pedidos de casamento durante “seis semanas”, revelou, a rir.

O rapaz de 12 anos que nunca esqueceu o Jamor

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Filho de pai escocês e mãe inglesa, nascido em Lisboa e estudante, na altura, no St. Julian's School, colégio inglês em Carcavelos, em Cascais, Peter McLaughlin foi um dos 12 mil adeptos (estima-se que teriam sido muitos mais) espalhados pelas bancadas do Jamor naquela tarde de 25 de maio de 1967.

“Tinha 12 anos, os meus tios levaram-me ao jogo. Assisti ao vivo. Sou testemunha viva”, adiantou ao 24noticias.

Permanece nítida a memória da multidão pintada de verde e branco, a atmosfera das bancadas e a surpresa provocada por um clube escocês que derrotou uma das equipas mais poderosas da Europa.

“Eram uma minoria de rapazes, de uma minoria católica oprimida em Glasgow”, vincou. “Esses rapazes sobem ao topo do mundo do futebol” e vencem a competição até então dominada, nas 11 edições anteriores, por clubes latinos: Inter Milão (2 taça dos campeões), Real de Madrid (6) e Benfica (2).

Ao som do apito final, Peter McLaughlin copiou o gesto de outros milhares de adeptos.

Invadiu o campo para festejar junto dos seus heróis. Astuto, teve tempo e ousadia para construir um pedaço da história que tinha testemunhado. Deu uso ao pequeno livro de folhas em branco que transportou. “No final do jogo, recolhi autógrafos dos jogadores”, contou.

“Infelizmente, perdi”, lamentou. “É o mesmo livro onde tenho autógrafos do Eusébio e do Coluna”, suspirou, esperançado de um dia reencontrar essas páginas de glória.

Os festejos terminariam poucas horas depois. “Éramos três irmãos. A minha mãe ficou apavorada com os escoceses, hooligans”, recordou entre sorrisos.

“Não nos deixou sair à noite (para festejar) e ficámos em casa”, contou.

Passados 60 anos, McLaughlin, volta a pegar num caderno.

Desta vez não procura autógrafos. Solicita assinaturas. O objetivo é criar oficialmente um núcleo do Celtic em Lisboa.

“Já tenho toda a documentação. Será um clube oficial do Celtic FC e estou a recolher assinaturas”, informou ao 24noticias.

Se tudo correr como espera, a futura sede será no bar O’Gilins, no Cais do Sodré, em Lisboa, um ponto de encontro de escoceses e irlandeses quando visitam Lisboa.

O ano glorioso do Celtic em livro

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Se o Jamor continua a ser um lugar de peregrinação, há outro ponto obrigatório para muitos adeptos do Celtic quando passam por Lisboa: o O'Gilins, no Cais do Sodré.

Foi ali que, em 2017, durante as comemorações dos 50 anos da conquista da Taça dos Campeões Europeus, um simples encontro de adeptos deu origem a mais uma história para juntar ao imaginário dos Lisbon Lions.

Entre os polícias destacados para acompanhar a concentração estava uma agente de apelido Cadete.

"Os polícias portugueses têm o nome na farda. Perguntámos-lhe se era da família do Jorge Cadete. Quando respondeu que sim, começámos logo a cantar “There's only one Jorge Cadete", recorda David Frier.

A história ilustra bem a forma como Lisboa continua presente na memória coletiva do clube escocês. E poucos conhecem essa ligação tão bem como Frier.

Investigador de cultura portuguesa, David Frier é coautor do livro “We’ll always have Lisbon – Celtic Glory Year”, um, entre vários, exemplos de uma bibliografia extensa sobre a inédita epopeia.

Também ele, pelo poder da escrita, dedicou anos a reconstruir uma das páginas mais marcantes da história do clube.

Enquanto folheia a obra coescrita com Pat Woods, vai revelando a dimensão da investigação.

“Muitas destas fotos vieram do jornal A Bola. Muitas são de arquivo, mais de 300, que não foram publicadas”, descreve.

Durante a pesquisa esteve em contato com “o jornalista que fez reportagens da final, Miguel Paiva Couceiro, que chegou a ter acesso aos balneários do Celtic naquela época”, transmitiu.

Ao contrário de Woods, que assistiu ao jogo no Jamor, David Frier era muito novo na altura e não explodiu de alegria no cimento das bancadas.

Guarda, sim, memórias da conquista testemunhada pelo ecrã de televisão. Regressaria, décadas mais tarde, à história na pele de investigador, escritor e convidado do programa da RTP, Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio.

Só há um Jorge Cadete

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“There’s only one Jorge Cadete...”

Basta a primeira frase para Jorge Cadete perceber que está perante adeptos do Celtic.

Continua.

“He puts the ball in the netty

He’s Portugese,

and he scores with ease

Walking in Cadete Wonderland”

Jorge Cadete, o português mais escocês que há registo não podia faltar à primeira visita da exposição sobre o maior feito do emblema que representou.

A música acompanha-o há três décadas sempre que um adepto do Celtic choca com o antigo avançado. Na inauguração da exposição do Jamor não foi diferente.

Apresentou-se vestido a rigor com a camisola verde e branca do Celtic usada na estreia e ouviu novamente o cântico que o transformou numa das figuras mais acarinhadas da história recente do clube.

Foram pouco mais de 12 meses de ligação clubística e permanência em Glasgow.

Tempo suficiente para marcar um volume amazónico de 38 golos em 41 jogos e conquistar um lugar permanente na memória dos adeptos.

“A ligação não tem só a ver com a minha performance como atleta. Tem a ver com a minha maneira de ser como pessoa também”, explicou.

Um carinho que saltou extramuros e atravessa a rivalidade clubística. “Era o único jogador do Celtic que não precisava de dizer mal do Rangers para elevar o nome do Celtic”, atestou. “Milhares de adeptos do Rangers tiraram fotografias comigo”, realçou.

A ligação ao Celtic começou anos antes de se mudar para a ilha.

“Marquei dois golos à Escócia, pela seleção, no Estádio da Luz (1993). Depois, pelo Sporting, defrontei o Celtic, na Taça UEFA, com dois golos meus, em Alvalade”, relembrou.

Um litígio com o clube onde se formou e chegou ao mais alto patamar, Sporting, bastou para Jorge Cadete começar a costurar um novo cordão umbilical à outra formação verde e branca.

Explicou o nascimento do namoro. “Treinei muitas vezes no Estádio Nacional, local onde há aquela ligação do Celtic e da vitória na Taça dos Campeões Europeus”, disse.

A relação durou pouco mais de um ano, mas a sua memória, e dos adeptos, permanece eterna.

“Sempre que encontro escoceses, abordam-me e quase todos os dias recebo mensagens, e até chamadas de vídeo de adeptos”, comentou.

Socorre-se de uma frase para resumir aquilo que encontrou na Escócia.

“Antes não compreendia porque é que diziam que o povo escocês era o povo do Sol. Está sempre a chover. Depois explicaram-me: o sol está no coração”, esclareceu.

Pedras da calçada de Lisboa desenhadas no corpo

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Sessenta anos depois da conquista da Taça dos Campeões Europeus, a ligação entre o Celtic e Lisboa continua viva.

Está no Jamor, onde milhares de adeptos regressam todos os anos para revisitar o palco da maior vitória da história do clube.

Está nos livros, nas fotografias e nas memórias dos últimos Lisbon Lions.

Está na voz dos adeptos que ainda cantam o nome de Jorge Cadete.

Em suma, Lisboa deixou de ser apenas um destino. Tornou-se parte da identidade do Celtic. Uma identidade que sairá estampada na próxima época no terceiro equipamento do Celtic para 2026/27. Inspira-se na calçada de Lisboa mais um símbolo de uma relação que nasceu a 25 de maio de 1967 e que, quase seis décadas depois, continua longe do apito final.

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