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A certa altura nos 24 anos de carreira, Telma Monteiro disse “não” à renovação de um contrato de patrocínio. Entendeu, na altura, tal como agora, que “não representava o meu valor enquanto atleta, não era coerente com aquilo que tinha ganho, a imagem que tinha e não me valorizava”, contou à margem da celebração do Dia Internacional da Mulher (8 de maio) no Comité Olímpico de Portugal (COP).
A recusa residiu na análise sobre a desigualdade de tratamento do patrocinador nos contratos entre atletas masculinos e femininos.
“Se renovasse, estaria a concordar com isso e, se assinasse, não estaria a valorizar-me”, explicou aos jornalistas após ter participado numa mesa-redonda no evento na sede do COP, em Lisboa, que serviu ainda de apresentação do projeto POWER - The Portrayal of Women Athletes in Sports Media,retrato do tratamento do jornalismo desportivo dado ao desporto feminino e às atletas.
“Mantive-me fiel aos meus valores e fui coerente com aquilo que acreditava”, continuou. “Os meus valores falaram mais alto dos que os (valores) do patrocinador”, fundamentou a medalha de bronze no Rio2016.
Uma medalha ao peito de Telma Monteiro ou outra atleta tem um peso diferente se for colocada ao pescoço de um atleta masculino. Telma Monteiro, atual coordenadora do judo do Sport Lisboa e Benfica, dissertou sobre esta dicotomia e a semântica desporto masculino versus desporto feminino.
“Muitas vezes, ainda acontece, referem-se a mim como a judoca feminina mais medalhada em Portugal. Não sou a judoca feminina mais medalhada em Portugal, sou a judoca mais medalhada em Portugal”, sinalizou a pentacampeã europeia.
“É um exemplo bem representativo de que as conquistas no desporto feminino acabam por não serem valorizadas como no masculino”, comparou ao debruçar-se sobre a menor visibilidade mediática das mulheres no desporto numa conversa onde esteve também a atleta surdolímpica Margarida Silva.
“Se tivesse sido um homem a ganhar 15 medalhas em campeonatos da Europa, do mundo, Jogos Olímpicos e tudo mais, essa afirmação não aconteceria, porque essa afirmação está no inconsciente, reflete aquilo que é a nossa sociedade, que o homem é mais forte, o homem é mais valorizado”, confrontou Telma Monteiro, 40 anos, atleta que pendurou o quimono em finais de 2024.
“Os media têm que começar a relatar mais factos e objectificar menos a mulher”
A antiga judoca do Benfica, clube que representou 17 épocas, recupera as palavras de Nuno Dias (antigo atleta de Karaté) proferidas na mesa-redonda.
“O desporto tem que ser relatado com factos. Os media têm que começar a relatar mais factos e objectificar menos a mulher”, atirou. “Não vemos isso quando estamos a relatar o desporto e resultados no masculino”, comparou.
“Não dizemos a seleção nacional de futebol masculino, mas dizemos a seleção nacional de futebol feminino. São pequenas coisas na forma como os media comunicam e como relatam a notícia, a valorização que dão ao quê”, observou.
“Essa mudança, se começar a acontecer, terá um impacto diferente”, antecipou. “Tem que haver essa responsabilização”, disse antes de uma provocação. “Se os resultados dão tanto trabalho em termos de preparação, se é tão difícil para nós, mulheres, ter essas conquistas, porque é que a notícia é diferente”, questionou.
“Ou é um jornalismo preguiçoso para chamar a atenção, ou é falta de criatividade”, respondeu. “Não acredito que não haja capacidade, nem criatividade para escrever notícias de uma forma diferente, portanto, tem que haver essa reflexão, consciencialização para que as notícias no feminino possam ser relatadas de uma forma mais justa com as mulheres”, afirmou.
A realidade, hoje, é diferente e as mudanças devem ser reforçadas “para continuarem a acontecer de forma mais alargada”, antecipa. “Daqui a 10 anos, acho difícil ser um tema que ainda não se fale”, no entanto, “esse é o caminho, temos de ser muito resilientes e insistir no tema”, concluiu Telma Monteiro.
“Tive de me afirmar como mulher surda e mulher no desporto”
“Acredito que as minhas barreiras são maiores que as da maioria”, delimitou Margarida Silva, atleta surdolímpica, 25 anos, na conversa com os jornalistas.
“Pratico um desporto, sou mulher e mulher num desporto adaptado”, justificou. “São várias barreiras que têm de ser ultrapassadas”, vincou, “principalmente a nível da sociedade, no desporto adaptado e desporto feminino, como sendo algo que tenha o mesmo valor que o desporto masculino”, frisou.
“Senti que tive de me afirmar como mulher surda e mulher no desporto”, disparou Margarida Silva, vencedora de três medalhas no atletismo, duas de ouro e uma de prata, no Jogos Surdolímpicos de Tóquio 2025.
Considera que o espaço mediático que lhe é atribuído enquanto mulher é inferior a um desportista masculino. “Acredito que ainda há um espaço muito grande para explorar o desporto adaptado e de ser mulher”, profetiza.
Praticante “desde os 15 anos”, a atleta Associação de Atletismo de Setúbal (AAS) “só muito recentemente assumi a minha surdez”, confessou. “Gostava que meninas como eu não o fizessem tão tarde, como eu fiz”, ressalvou.
Fê-lo “por causa do estigma social. (As pessoas) poderiam pensar, coitadinha...e poderia condicionar-me até para arranjar trabalho, na forma como iria lidar com a faculdade e convivência com outras pessoas”, explicou.
A decisão foi tomada por “já não estar a conseguir competir”, adiantou. “Tinha algum stress associado à competição”. Já não fazia atletismo por prazer”, recuou.
Assumir levaram-na a “alinhar mais tranquila e aliviou-me muito”, resumiu.
“A narrativa destina a lógica da mulher à objectificação ou à sexualização”
A falta de mancha noticiosa das mulheres nos media desportivos persiste como um dos grandes desafios da promoção da igualdade de género no desporto.
Apesar da crescente participação e conquistas no feminino, a cobertura jornalística “tende a ser limitada, carregada de estereótipos, focado em aspetos nada relacionados com a performance desportiva”, lê-se no sumário do relatório de 378 páginas do POWER - The Portrayal of Women Athletes in Sports Media, elaborado pela Sport Evolution Alliance.
Esta abordagem editorial, não só “impede” as atletas de “alcançarem reconhecimento”, “dificulta” a “atração” de patrocinadores, tem impacto “na perceção da opinião pública”, reforça os “preconceitos de género” e “diminui os progressos de uma maior inclusão de cultura desportiva”, conclui o documento.
“A narrativa destina a lógica da mulher à objectificação ou à sexualização”, transmitiu Thiago Santos, responsável pela investigação do projeto Power e coordenador do Mestrado em Gestão Desportiva da Universidade do Porto.
“É um problema que tem que ser combatido, uma mudança de cultura e de cultura desportiva dentro das organizações”, alertou. Se nada for alterado, “dificilmente conseguimos criar ou conectar as jovens às atletas, à possibilidade de uma carreira futura no desporto”, avançou aos jornalistas.
“Porquê? Porque, ao olhar de uma perspetiva de objectificação ou de sexualização, é muito mais difícil conseguir atrair essas pessoas para o contexto desportivo”, acrescentou o docente após a sua intervenção na sede do COP.
“É um grande desafio. E a investigação trouxe isso, mas também trouxe uma outra perspetiva muito importante. Os bons exemplos de uma narrativa um pouco mais voltada para o desempenho, como acontece, por exemplo, no futebol português, já aconteceu no futebol espanhol, diminuem um pouco essa observação da mulher numa perspetiva de sexualização”, contrapõe.
A partir deste facto, Thiago Santos acredita poder “entender que tipo de prática editorial podemos adotar e que bons exemplos podemos seguir para mudar essa realidade”, avançou.
O trabalho analisou o período antes e pós Jogos Olímpicos Paris 2024. “Fomos de junho de 2024 até fevereiro de 2025”, baliza.
No contexto português, foram analisados “39 episódios” na televisão, dos quais “apenas 7 minutos” de tempo de antena foram destinados às mulheres, ou seja, equivalente “a 12,8% do que era veiculado”, vincou. No on-line, “encontramos 62% dos conteúdos” apenas com o “desporto masculino”, detalhou.
E nesta mancha noticiosa do desporto feminino é, “muitas das vezes não vinculado ao desempenho”, mas sim “a uma história ligada à emoção da atleta ou uma perspetiva mais sentimental”, conclui, dados que obrigam a “uma reflexão” e a “necessidade de mudança de comunicação”, adiantou ainda Thiago Sousa.
Contar notícias não basta
“Não se trata apenas de contar quantas vezes as atletas aparecem nas notícias, trata-se de perceber como são retratadas, de avaliar o peso dado às suas conquistas e de perceber que tipo de histórias se contam sobre mulheres no desporto. Estes dados permitem-nos agir com maior foco e responsabilidade”, sumarizou, na sua intervenção, Fernando Gomes, Presidente do COP.
Ao comentar o estudo da exposição das atletas femininas no jornalismo desportivo, Gomes garantiu que o COP continuará “a promover iniciativas, apoiar projetos e trabalhar com todos os parceiros para que as conclusões deste projeto não fiquem apenas no papel, mas que se revertam em resultados visíveis”.
Diana Gomes, a primeira mulher Secretária-geral do COP, sublinhou a “capacidade única” do desporto em “refletir” e “transformar” a sociedade.
“Para transformar perceções é preciso algo mais profundo: reconhecimento mediático, estruturas desportivas sólidas e um compromisso institucional consistente”, listou a ex-nadadora olímpica (Atenas 2004 e Pequim 2008).
“Que saibamos afirmar o desporto como um espaço que continua a abrir caminhos, a dar visibilidade ao mérito e a garantir que nenhuma rapariga sinta que está sozinha num lugar que também lhe pertence”, finalizou.
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