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Para analisar que respostas concretas deveriam ser adotadas, o 24notícias ouviu Pierre Matthis, diretor executivo da Global Sports Equality, uma associação internacional com sede em Paris dedicada ao combate ao racismo e à discriminação no desporto profissional. O responsável acompanha regularmente processos disciplinares em competições europeias e não tem dúvidas sobre o que se passou terça-feira e diz que episódios destes "não podem continuar a ser relativizados".

"O futebol moderno está cheio de câmaras, ângulos e repetições. Fingir que não se percebe o que está a acontecer é uma escolha política", afirma Pierre Matthis. Para o dirigente, gestos como tapar a boca com a mão ou com a camisola, quando surgem em contexto de conflito verbal e após acusações de insultos racistas, "devem ser tratados como indícios relevantes e não como pormenores irrelevantes".

"Enquanto a resposta for apenas uma multa simbólica ou um comunicado vago, como o da UEFA nesta manhã, o sistema está a proteger o agressor e não a vítima", sublinha.

Para Pierre Matthis, a chave está em criar punições que tenham impacto real. "No futebol, a linguagem que todos entendem é a desportiva e a financeira. Suspender jogadores importantes, retirar pontos aos clubes ou aplicar multas verdadeiramente pesadas muda comportamentos", diz.

O responsável da Sports Equality defende ainda que os clubes devem ser "corresponsabilizados", mesmo quando os atos partem de atletas ou de adeptos. "Se o clube sabe que vai pagar um preço alto, vai investir mais em prevenção, formação e controlo", acrescenta.

Entre as propostas mais ambiciosas já apresentadas à UEFA e FIFA, está a criação de uma unidade permanente e independente de investigação antirracismo, composta por juristas, antigos árbitros, especialistas em direitos humanos e analistas de imagem.

"Essa unidade deveria ter poderes próprios para recolher imagens, ouvir testemunhos e propor sanções, sem depender exclusivamente das federações nacionais. O racismo é um problema global e exige uma resposta global", refere.

Apesar da necessidade das sanções, o especialista internacional sublinha que só isso não resolve o problema. "É essencial apostar em programas obrigatórios de formação antirracismo para jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes, desde as camadas jovens ao futebol profissional. Não estamos a falar de uma ação simbólica por época, mas de formação contínua sobre racismo estrutural, linguagem discriminatória e impacto psicológico nas vítimas", acrescenta.

Este caso de Vinícius Júnior, diz, surge "num momento particularmente sensível", com a UEFA e a FIFA sob pressão crescente para provar que a política de "tolerância zero" não é apenas retórica. Para Pierre Matthis, este episódio pode marcar um ponto de viragem...ou "mais uma oportunidade perdida".

"O futebol gosta de se apresentar como um espaço de inclusão e diversidade. Agora é o momento de provar isso com regras claras, investigações sérias e punições que realmente façam a diferença. Tapar a boca para insultar alguém por causa da sua cor de pele não pode continuar a ser tratado como um detalhe. É racismo. E tem de ter consequências", conclui.

Segundo o especialista, a UEFA e a FIFA precisam de "clarificar urgentemente os seus regulamentos disciplinares", passando a contemplar:

  • Critérios objetivos para avaliar comportamentos de ocultação verbal, como tapar a boca, virar o rosto ou aproximar-se de forma deliberada para insultar fora do alcance dos microfones;
  • Abertura automática de processos disciplinares sempre que haja denúncias de racismo sustentadas por imagens, relatórios de árbitros ou testemunhos dos capitães de equipa;
  • Sanções desportivas efetivas, incluindo suspensões longas, multas elevadas e, em casos reincidentes, exclusão temporária de competições.

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