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A 27 de maio de 1956, António Bento rumou ao Estádio Nacional para ver a final da Taça de Portugal entre o Sport Clube União Torreense e o Futebol Clube do Porto.
Uma estreia na final da Prova Rainha do clube de Torres Vedras, no ano em que subiu à 1.ª divisão do futebol português. E uma estreia do jovem adepto do clube do Oeste.
Setenta anos depois, a 24 de maio de 2026, António Bento, 89 anos, regressa ao Jamor, pela segunda vez na vida, para assistir à final entre Sporting Clube de Portugal e Torreense.
Num Carnaval em maio, Bento viu o Torreense vencer (2-1) os leões e erguer a primeira taça do seu historial. Um feito num ano em que o emblema de Torres Vedras pode carimbar o regresso à elite do futebol na próxima 5.ª feira. Tudo dependerá do desfecho da segunda mão do play-off de acesso ao principal escalão do futebol português, diante o Casa Pia (0-0, em Torres Vedras, na 1.ª mão).
“Estive cá há 70 anos”
António Bento viajou até ao Jamor, Oeiras, de carro, na companhia do filho, Paulo Bento. Foram convidados pela Federação Portuguesa de Futebol para assistir à Final da Taça de Portugal Generali Tranquilidade.
O 24noticias encontrou pai e filho à porta da zona de Media, minutos antes de atravessarem a pista de tartan do Estádio Nacional a caminho da Tribuna de Honra. Mais tarde, encerrámos a inesperada conversa, por telemóvel, 30 minutos após o final do encontro frente ao Sporting Clube de Portugal.
“Estive cá há 70 anos. Em maio. Tinha 18 para 19 anos. Faço anos a 19 de julho”, referiu António Bento, na antecâmara dos 90 anos.
“Nessa altura, havia vários autocarros alugados. Vim num desses”, recordou. “O único transporte que tinha era uma motoreta, mas vim no autocarro”, realçou.
“Olhe, fui a Santarém ver o jogo da subida à 1.ª Divisão nessa motoreta”, relembrou, subida que aconteceu numa temporada histórica para o emblema do Oeste.
António Bento foi ao Jamor no ano de 1956. Apesar do coração ter dois amores, no caso, Torreense e Sporting, regressa, pela segunda vez, 70 anos depois, ao palco de eleição da Taça de Portugal. “Nunca mais vi nenhuma final da Taça”, confessou.
Recorda a estreia, sua e do clube. “Venceu o Porto, por 2-0”, fixou. “Não sei ao certo os marcadores, penso que o segundo foi marcado pelo Hernâni, de penalidade (marcou o primeiro, registe-se). Tenho aqui uma reportagem do jornal lá da terra com os nomes de quem marcou”, atirou o adepto e antigo dirigente do Torreense.
“Fui dirigente 1972, 1973 e 1974”, referiu ao avançar no tempo. “Quando o Torreense foi para a 3.ª divisão, fui para a direção. Nesse ano, subimos de divisão”, adiantou.
Memórias dos Milionários do Oeste
Entre subidas e descidas, recua ao tal ano de 1956, a temporada da final da Taça e do sétimo lugar no campeonato. Está na memória e na língua de António Bento.
"O Torreense era conhecido da comunicação social de então como os Milionários do Oeste", nome de batismo à célebre formação do Sport Clube União Torreense da década de 1950.
“Não era uma equipa qualquer, era maravilhosa. Tenho aqui os nomes dos jogadores apontados”, contou ao 24noticias, como que procurasse antecipar perguntas de jornalistas. Ficaram no bolso e debaixo da língua.
Uma busca pelo ChatGPT permite identificar alguns dos craques. José da Costa, Juan Carlos Forneri, Carlos Alberto ou António Augusto, liderados pelo carismático treinador de nacionalidade argentina, Óscar Tellechea.
“Atualmente sou o sócio 25”
António Bento não é o sócio n.º 1 do Torreense. Esse número, tem nome, Manuel Rosado, 99 anos. “Esteve na final de 1956, é o sócio n.º1 da Física de Torres Vedras e sócio n.º1 da Santa Casa da Misericórdia. Só não dos Bombeiros, porque os estatutos permitem que os herdeiros possam ficam com o número”, esclareceu Paulo Bento. Já não se deslocou ao Estádio Nacional.
“Atualmente sou o sócio 25. Em janeiro, quando fui pagar as quotas, perguntei, se fizessem a atualização, qual seria o meu número. É o 13”, atirou António Bento.
“Nunca pensei chegar aqui ao Jamor”, admitiu. “Nem de perto, nem de longe”, rematou.
“Vivi convulsões, problemas, subidas e descidas”
Passaram-se sete décadas. “Sou sócio pagante há 74 anos. Não posso renegar a qualidade que tenho de sócio, de dirigente e de apoiante”, enalteceu, orgulhoso. “Sempre vivi muito intensamente. Vivi convulsões, problemas, subidas e descidas”, relembrou o empresário (empresa de contabilidade e construção) e presidente da Assembleia-Geral da APECI (Associação Para a Educação de Crianças Inadaptadas de Torres Vedras http://www.apeci.org.pt.
Viaja no tempo de associativismo e de amor a um clube com 109 anos de história. “Não tenho dito isto a ninguém. Assisti quase diariamente à construção das bancadas do campo do Torreense (Campo Manuel Marques, inaugurado em 1926, cuja edificação das bancadas de cimento decorreu na primeira metade da década 50 do século passado)”, comunicou.
“Comecei a trabalhar aos 13 anos e ia todos os dias, à hora do almoço, ver a evolução das obras. Tinha 13 anos para 14. Aos 15, fiz-me sócio”, notificou. “Sócio auxiliar, que era quando se começava a pagar”, detalhou.
A presença de António Bento no Complexo Manuel Marques é, hoje, menos assídua. “Ultimamente, vou menos”, confidenciou, antes de entrar pela porta lateral da Maratona do Estádio Nacional.
“Já não sou o sócio permanente aos jogos”, acrescento ao lado do seu filho, adepto e sócio do Torreense e do...Benfica. “Este degenerou, mas pronto, tudo bem, respeito”, disse. “Mas quando se trata do Torreense, somos os dois do Torreense”, sorriu.
Uma razão de peso lhe assiste a esta menor permanência. “A idade”, entra na equação. Mas está sozinha. “Tenho uma forma peculiar de ver o jogo. Se corre mal, não sou capaz de falar e enervo-me de tal maneira. Comecei a sentir que me incomodava muito quando corria mal e, agora, só vou de vez em quando. Vou mais quando o meu filho me liga e trata do bilhete”, contou.
“Não se pode circular em Torres Vedras”
Prognósticos à parte, a ida à final da Taça de Portugal no Jamor “já é uma vitória. Temos o jogo na 5.ª feira que é mais importante”, disse, antes do apito inicial.
120 minutos depois, viria a reforçar ao 24noticias o mesmo pensamento. “Chegar ao Jamor já era vitória”, relembrou numa conversa telefónica, já em Torres Vedas.
“Sou honesto, nem por sombras pensei que o Torreense fosse ganhar”, contou.
“Estou muito feliz, vivi o jogo de forma emotiva, vi as pessoas a conviverem umas com as outras”, adiantou António Bento.
“Falei com a minha mulher ao intervalo para lhe dizer que estava tudo bem. No final, ela ligou e perguntou-me se estava vivo”, disse por entre uma enorme gargalhada.
“Agora, já estou em Torres Vedras. Não se pode circular em Torres Vedras”, despediu-se, emocionado.
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