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O Canadá viveu um dos momentos mais marcantes da sua história recente no futebol ao garantir a qualificação para os oitavos de final do Mundial de 2026, após vencer a África do Sul por 1-0. Mais do que o resultado, o jogo confirmou Stephen Eustáquio como o cérebro e o eixo organizador da seleção canadiana, numa geração que começa a consolidar o país como uma presença competitiva no panorama internacional.

Numa equipa habitualmente associada à explosão de Alphonso Davies ou à finalização de Jonathan David, foi o médio quem assumiu o controlo do ritmo, a gestão dos tempos de jogo e a construção de praticamente todas as fases ofensivas. Eustáquio raramente surge nas estatísticas mais vistosas, mas a sua influência é estrutural: baixa entre os centrais para iniciar a saída de bola, oferece linhas de passe sob pressão e regula a velocidade do jogo consoante as necessidades da equipa. “Em jogos de elevada tensão, funciona como um verdadeiro metrónomo”, disse Jesse Marsch, selecionador do Canadá, no final do encontro.

A vitória da seleção maple (como é conhecida) sobre a África do Sul não só confirmou a passagem inédita do Canadá à fase a eliminar de um Mundial como reforçou a ideia de que esta geração deixou de ser apenas promissora para se tornar competitiva ao mais alto nível. Eustáquio foi, uma vez mais, o jogador mais influente.

Nascido em Leamington, no Canadá, filho de emigrantes portugueses, Stephen Eustáquio mudou-se ainda criança, com sete anos, para Portugal, onde cresceu na Nazaré. Foi nesse contexto que iniciou a sua formação futebolística, criando uma ligação profunda ao país que o acolheu durante a infância e juventude. Essa dupla identidade moldou-lhe o percurso e a própria leitura de jogo, marcada pela disciplina táctica europeia e pela intensidade competitiva de uma carreira feita entre diferentes contextos culturais.

Durante a formação, chegou a representar seleções jovens de Portugal, incluindo a sub-21, alimentando durante anos a expectativa de uma eventual carreira internacional ao serviço da seleção lusa. Contudo, em 2019, tomou uma decisão determinante: optou por representar o Canadá, país onde nasceu. A escolha foi tanto desportiva como identitária, redefinindo o papel que viria a desempenhar no futebol canadiano.

A carreira de Eustáquio conheceu também momentos de grande adversidade. Uma grave lesão no joelho, sofrida pouco depois da sua chegada ao Cruz Azul, no México, em 2018, interrompeu o seu crescimento num período crucial. O processo de recuperação foi longo e exigente, obrigando-o a reconstruir a sua condição física e a sua confiança competitiva praticamente do zero. Esse episódio marcou-o profundamente e é frequentemente apontado como um dos fatores que reforçaram a sua resiliência e maturidade em campo.

Após a recuperação, o médio voltou a afirmar-se, consolidando-se no futebol europeu ao serviço do FC Porto, onde ganhou consistência competitiva e se afirmou como um jogador fiável em contextos de elevada exigência. No Canadá, tornou-se uma peça central não apenas pela qualidade técnica, mas pela capacidade de liderança silenciosa dentro de campo.

Apesar de não ser o habitual capitão, Eustáquio é uma das vozes mais influentes do grupo. Durante as partidas, orienta posicionamentos, ajusta dinâmicas e funciona como extensão direta das ideias do selecionador. A sua leitura do jogo e a capacidade de decisão sob pressão tornaram-no num elemento praticamente insubstituível no sistema canadiano.

Num plantel onde a velocidade e o talento individual têm grande destaque, o médio assume um papel de equilíbrio. É ele quem liga setores, quem dá estabilidade quando o jogo acelera e quem assegura que a equipa não perde organização em momentos de transição. Essa função, menos visível mas decisiva, explica por que razão é visto como o verdadeiro pilar da equipa.

A história de Stephen Eustáquio é também a de uma identidade dividida entre dois continentes. Fala português fluentemente, mantém fortes ligações ao nosso país e construiu parte significativa da sua formação em Portugal, ao mesmo tempo que se tornou um dos símbolos da seleção canadiana moderna.

A relação de Stephen com a sua família marcou também muito a sua vida pessoal e profissional. O pai e a mãe acompanharam sempre a sua carreira, com a mãe a aparecer frequentemente na véspera de jogos importantes com refeições caseiras e gestos de apoio que ficaram como recordações fortes na memória do jogador.

Infelizmente, nos últimos anos, Eustáquio passou por tristezas profundas. Em abril de 2023, a sua mãe, Esmeralda, morreu na sequência de um cancro cerebral, numa fase em que ele já jogava ao mais alto nível. Um ano depois, em maio de 2024, o seu pai, Armando, faleceu de ataque cardíaco.

“Tudo o que faço é pela minha família, pelos meus pais, pela minha namorada, pela minha filha, pelo meu irmão, pelos meus amigos de casa, por todos eles”, afirmou Eustáquio numa entrevista pós-jogo no Estádio de Los Angeles, num momento carregado de emoção para o médio.

Numa entrevista à Sportsnet Canada, em setembro de 2024, Mauro Eustáquio, treinador principal do Inter Toronto FC, explicou que ele e Stephen tomaram uma decisão consciente de enfrentar o luto e de honrar a vida dos pais. “Os nossos pais… deram-nos asas. Agora cabe-nos a nós voar. Somos gratos por ambos estarmos a fazer algo que realmente amamos”, acrescentou Mauro, que foi selecionador adjunto do Canadá até 2024.

O antigo futebolista, agora treinador, referiu ainda nessa entrevista que a numerosa comunidade portuguesa de Leamington era o espaço onde as famílias se reuniam e onde crianças, como ele próprio e Stephen, jogavam futebol com regularidade.

Apesar de toda esta tristeza nos últimos anos, Eustáquio conseguiu reerguer-se e há dois anos viu nascer a sua primeira filha, Benedita, fruto da relação com a namorada Constança.

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