Tom Kristensen, detentor de nove vitórias na mais famosa corrida de resistência do calendário automobilístico mundial — um recorde ainda absoluto —, preserva a memória fresca da sua estreia na prova onde as horas do dia se confundem com as da noite.

Foi em 1997. O então jovem dinamarquês, natural de Aalborgvej, Hobro, foi chamado de surpresa para competir apenas quatro dias antes do arranque da corrida. Nascido na casa dos pais, por cima de uma estação de serviço e oficina da Shell, Kristensen viu surgir uma oportunidade inesperada para entrar numa das provas mais prestigiadas do mundo. Com experiência acumulada como campeão escandinavo de karting, na Fórmula 3 alemã e na Fórmula 3000 japonesa, substituiu o norte-americano Davy Jones, vencedor da edição anterior.

“Foi uma semana muito importante, que pareceu um ano, em termos de pressão e de tudo o que tinha de absorver. Queria fazer tudo bem e tinha os maiores pensamentos a passar-me pela cabeça”, recordou ao 24noticias o 'Sr. Le Mans'.

Os tempos, esses, eram bem diferentes dos atuais.

“Não havia oportunidade de testar na pista, não havia simuladores e o circuito não era tão largo como é hoje”, recordou o piloto que soma 14 pódios e nove vitórias, seis das quais consecutivas, em La Sarthe.

“Só tínhamos duas sessões de quatro horas em pista antes da corrida e eu estava muito nervoso ao lado de Michele Alboreto e Stefan Johansson”, relembrou o piloto, retirado das pistas em 2014.

A estreia vitoriosa pela Porsche viria a marcar uma carreira extraordinária nas 24 Horas de Le Mans, com triunfos em 1997, entre 2000 e 2005, em 2008 e em 2013. Vitórias conquistadas ao volante de três marcas distintas: Porsche, Audi e Bentley.

A experiência moldou também a personalidade que desenvolveu desde então. Porque nenhum piloto é uma ilha, destaca a camaradagem existente dentro das equipas.

Nesse contexto, recorda que aprendeu muito com Stefan Johansson e, em particular, com a forma como Michele Alboreto lhe transmitiu “confiança”.

“Não me dizia tanto o que fazer, mas fazia-me sentir que estava feliz por me ter na equipa”, assinalou.

“Aprendi rapidamente, no ambiente certo, com alguém experiente. A forma como incentivava um piloto mais jovem, sem lhe colocar pressão, ensinou-me muito”, sublinhou Tom Kristensen.

“Só podemos ganhar, perder, terminar ou viver a experiência de Le Mans uma vez por ano”

O piloto dinamarquês soma 18 participações nas 24 Horas de Le Mans e reconhece características únicas numa prova que celebrou o seu centenário em 2023. A corrida apenas não se realizou em 1936, devido a uma greve em França, e entre 1940 e 1948, em consequência da Segunda Guerra Mundial.

Para Kristensen, Le Mans distingue-se de outras corridas icónicas, como as 500 Milhas de Indianápolis (IndyCar) ou o Grande Prémio do Mónaco (F1).

“A exclusividade, em primeiro lugar”, afirmou o antigo piloto ao 24noticias, numa conversa promovida pelo Eurosport, canal que transmite a prova em Portugal, e que reuniu jornalistas de vários países.

“Só se corre em Le Mans uma vez por ano. Há apenas uma corrida”, reforçou quem participou na prova em 18 ocasiões.

“Hoje, existe todo um percurso até Le Mans, com testes e provas preparatórias, mas a exclusividade mantém-se. Só podemos ganhar, perder, terminar ou viver a experiência de Le Mans uma vez por ano”, frisou, referindo-se à oportunidade única de completar o maior número de voltas possível ao traçado de 13,6 quilómetros.

“É rápida, é a corrida mais rápida do mundo”, acrescentou, apontando outro dos seus fatores distintivos.

Por fim, reconhecendo que pode ser parcial na avaliação, Tom Kristensen considera que “é a melhor corrida do mundo em termos de foco, compromisso, trabalho de equipa e, claro, camaradagem”.

“Mas também exige assumir responsabilidades durante a corrida e ter uma enorme capacidade de persistência”, acrescentou.

“Nada de excessos de agressividade ao volante. Talvez um pouco”

Numa prova em que se sabe à partida que os três pilotos de cada equipa farão turnos de condução (stints) com duração máxima de quatro horas, os desafios sucedem-se ao longo das 24 horas.

“À noite é mais difícil, e uma noite de chuva com pneus inadequados é um cenário que todos gostariam de evitar”, admitiu durante a conversa com os jornalistas.

“A noite exige mais concentração, mais adrenalina. O coração bate mais depressa”, explicou, sem esquecer as dificuldades das tardes mais quentes.

Os mais de 50 graus registados no interior do habitáculo retiram reflexos e capacidade de concentração. A isso somam-se as “dificuldades das ultrapassagens aos carros mais lentos” e as situações de “perda de controlo” provocadas pelo ar quente expelido pelos motores. Para enfrentar as 24 Horas de Le Mans, Kristensen deixa um alerta e um conselho aos pilotos que sonham subir ao pódio.

“Deves ultrapassar entre sete e 14 carros por volta”, afirmou. “Se não gostas de ultrapassar carros, Le Mans não é para ti”, alertou.

“Tens de estar constantemente a gerir o tráfego em pista, as ultrapassagens, o estado dos pneus, o combustível e os travões”, enumerou.

“Tens de saber interpretar cada situação, perceber quando levantar o pé, quando esperar e quando ultrapassar. Não queres correr riscos desnecessários, mas também não queres perder tempo”, alertou.

“É um jogo mental muito duro para o corpo e para a mente”, resumiu o antigo piloto dinamarquês, que acompanha a corrida como espectador desde 2015.

Para o recordista de vitórias na mais icónica prova de resistência do mundo, o segredo para terminar e ter sucesso em Le Mans passa por controlar as emoções.

“Nada de excessos de agressividade ao volante. Talvez um pouco, mas apenas um pouco”, admitiu. “A fúria é sinal de perigo”, garantiu.

Tom Kristensen deixou ainda um último aviso: “não queres ter um diretor de equipa ou um engenheiro a gritar: ‘Mais rápido, Tom!’ Se isso acontecer, é o primeiro passo para não ganhares a corrida”, concluiu.

A 94.ª edição das 24 Horas de Le Mans arranca este sábado (15h15) no Circuito de La Sarthe, em França e termina à mesma hora, no domingo.

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