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Há Voltas a Portugal que se ganham na última estrada. Há outras que chegam ao último dia praticamente decididas. E, ainda, há voltas dentro da Volta, e voltas que a vida dá, que reservam para a última meta uma vitória pessoal.
Nos 136,9 quilómetros de percurso urbano e de ligação das duas margens do Douro, entre Vila Nova de Gaia e Porto, na 10.ª e última etapa da Volta a Portugal Jogos Santa Casa, Alexis Guérin (Anicolor-Campicarn) chegou à Avenida dos Aliados vestido de amarelo e consagrou-se vencedor da 87.ª edição da Volta a Portugal.
Alexis Guérin, no segundo ano de participação na maior prova do ciclismo nacional, terminou nos Aliados na 8.ª posição e manteve a Amarela.
Sucede ao seu colega de equipa, Artem Nych (6.º). Vencedor das duas últimas edições, simultaneamente rival e aliado, o ciclista russo foi segundo classificado na Geral.
Pedro Silva, da Feira dos Sofás-Boavista, melhor corredor português, foi terceiro da Geral e 11.º na etapa que encerrou a Volta.
Mas a chegada aos Aliados, que testemunhou a primeira vitória de um ciclista francês na Volta a Portugal, foi também celebrada em português e em tons de azul e branco.
Rui Oliveira, da UAE Emirates Team, campeão olímpico de pista em Paris 2024, alcançou a primeira vitória em estrada, na última oportunidade desta edição da Grandíssima.
Oliveira leva também outro troféu: a Camisola Laranja (Pontos). Guérin, além da Amarela, conquista a Azul (Montanha), e Adrià Pericas alcança o Prémio da Juventude (Camisola Branca). A Anicolor arrecadou a classificação por Equipas.
Estava escrito que seria no Porto
Cortar a meta em primeiro, ao sprint, foi o desfecho de um sonho que acompanhou Rui Oliveira e o nome maior do pelotão nas estradas portuguesas ao longo de um Prólogo e 10 etapas.
A prometida dedicatória de Rui Oliveira ao irmão mais velho, Hélder Oliveira — que nunca ganhou uma etapa em 11 edições da Volta —, viria a realizar-se no Porto, a cidade da família Oliveira (Ivo é o irmão gémeo de Rui), ao lado de casa.
A inédita vitória na etapa de Rui Oliveira levou-o a erguer aos céus a camisola do FC Porto na hora da subida ao pódio, durante a consagração reservada ao vencedor da etapa.
“Não estou em mim. Tive toda a minha equipa a apoiar-me. Sabia que a melhor maneira de ganhar a minha primeira vitória profissional era aqui em casa, no Porto, em Gaia”, disse à RTP, emocionado, antes de subir ao palco dos prémios.
“Foi um dia muito duro para todos. Parabéns a todos os atletas. Queria ganhar hoje, em minha casa, para dedicar a toda a minha família e aos meus amigos”, adiantou o campeão olímpico de pista em Paris 2024.
“Se me dissessem que ia ser assim a minha primeira vitória profissional, não acreditava”, assumiu o vencedor da Camisola Laranja (Classificação por Pontos), que pedalou três dias de Amarelo, na ligação Lourinhã-Sintra (1.ª etapa), Sines-Faro (2.ª) e Beja-Elvas (3.ª), mas não resistiu na subida à Torre (Serra da Estrela).
“Está toda a gente aqui. Eu vivo aqui ao lado”, confessou, orgulhoso das raízes tripeiras. “É o sítio mais lindo do mundo, digo a toda a gente. Tenho orgulho em que o pelotão tenha passado aqui”, destacou, adiantando uma nota pessoal da equipa.
“Quando percebi que a Volta ia acabar no Porto, falei com a minha equipa e eles deram muita confiança”, informou o corredor português da equipa dos Emiratos.
Embora tivesse “em mente” ganhar no empedrado da Avenida dos Aliados, sabia que era “complicado” vencer a etapa, reconheceu o ciclista de 29 anos, segundo classificado no Prólogo (Lisboa) e na sexta etapa (Santa Maria da Feira-Peso da Régua).
Mas venceu. E ainda para mais “diante de toda a gente que me ama. É incrível”, disparou o ciclista, que celebrou na meta o feito histórico com outro campeão olímpico, Iuri Leitão.
“Foi uma obsessão para este ano”
“Estou muito feliz por ter ganhado”, disse Alexis Guérin ao microfone da RTP, após a inédita e histórica vitória de um ciclista francês em 87 edições da Volta a Portugal.
“Foi uma obsessão para este ano, o objetivo da temporada, para mim e para a equipa”, confidenciou o vencedor da Volta a Portugal. Uma obsessão que resultou no terceiro título consecutivo por equipas da Anicolor.
“É mágico”, acrescentou ainda.
Guérin envergou a mais ambicionada camisola da Volta a Portugal em Bicicleta desde o quarto dia de competição, na subida à Torre, na Serra da Estrela.
Homem mais forte nas montanhas, voltou a vencer na Senhora da Graça, penúltima etapa, reforçando, no alto do Monte Farinha, o estatuto de Rei da Montanha, no dia seguinte ao trágico acidente que vitimou o jovem Finlay Tarling, da NSN Development Team.
“Sobrou-nos um segundo. Um segundo fatal”
O acidente — atropelamento do ciclista por parte de um carro que entrou na “pista” — ficará para sempre na memória descritiva da maior prova do calendário do ciclismo nacional. O percurso entre Melgaço e Fafe ficou apagado das contas gerais da etapa, tendo os últimos 25 quilómetros sido percorridos em jeito de marcha fúnebre.
Mas a Volta foi muito mais do que a lamentada tragédia.
A passagem do pelotão pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês ficou marcada pela inédita e silenciosa passagem pela Mata de Albergaria. Foram 11 minutos de apagão visual e restrições da caravana, num cenário de Reserva da Biosfera que a organização tratou com pinças, pese embora a polémica ambiental que se levantou antes.
A estreia da UAE Team Emirates-XRG acrescentou uma dimensão nova à prova que percorre o país. A equipa líder do ranking mundial da UCI, única de elite na Volta a Portugal, em estreia na Grandíssima, somou quatro triunfos nas etapas.
Julius Johansen, no Prólogo de 6,5 quilómetros, abriu o champanhe; Rui Oliveira foi o último a sacar a rolha. Pelo meio, Johansen, no contrarrelógio, e Adrià Pericas, no Gerês, alcançaram a primeira vitória como ciclistas profissionais.
Nas vitórias ao fim de cada dia, destaque ainda para o triunfo, na primeira etapa em linha, entre Lourinhã e Sintra/Queluz, do português Francisco Campos (Team Tavira Crédito Agrícola).
A dupla subida à Senhora da Graça foi outro dos desenhos inovadores de uma Volta a Portugal que celebrou 99 anos.
Uma prova que começou por parecer destinada ao bicampeão russo, passou pelas mãos de Rui Oliveira, encontrou um francês na Torre, descobriu, no Gerês, um jovem espanhol em quem se depositam muitas esperanças e acabou por voltar às mãos de Guérin, que a levou até ao fim.
“Foi um sucesso enorme, foi uma Volta perfeita”, resumiu Ezequiel Mosquera, diretor da corrida, no ano de estreia da nova organização. Um elogio dado sem esquecer o acidente trágico que vitimou o galês Finlay Tarling, de 19 anos, no percurso entre Melgaço e Fafe. “Sobrou-nos um segundo. Um segundo fatal”, lamentou.
Para a edição que celebra o centenário da Volta a Portugal, deixa uma promessa: “Trabalho, ideias, empenho e criatividade. E quando assim é, a resposta é brutal”, finalizou.
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