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Nos courts, Aryna Sabalenka, número 1 mundial, pisou a terra batida de Roland Garros de pescoço e orelhas adornadas por brincos e colares de diamantes e granada. Fora do retângulo, a tenista bielorussa de 28 anos encabeça o Project Red Eye e dá a cara pela luta de maior e melhor divisão dos prémios nos Torneios de Grand Slam.

Na conferência de imprensa após eliminar, na segunda ronda, Jessica Bouzas Maneiro, começou por falar de moda, antes de rebater acusações de hipocrisia pela convivência entre a ostentação das jóias avaliadas em 130 mil euros em campo e os pedidos de mais prize-money fora dele.

“Para mim, é importante estar bonita. Se me sinto bem com a minha aparência, jogo melhor”, adiantou. “Não vejo como é possível cruzar esses dois mundos completamente diferentes”, anotou. “Como disse, o prize-money não tem nada a ver comigo. Trata-se de lutar pelos jogadores, atletas de ranking mais baixo que realmente lutam para sobreviver no mundo do ténis”, explicou aos jornalistas.

“Estamos apenas a lutar por uma percentagem justa das receitas e também pelos jogadores de ranking mais baixo, pelos atletas que regressam de lesão e pela próxima geração, para que tenham mais conforto ao chegar ao top-10. Não é sobre mim”, voltou a reforçar Sabalenka.

Mais prémios eleva o ténis a outro nível

O tema do prize-money paira, em força, no segundo Grand Slam da temporada. O 24noticias questionou um antigo tenista, Mats Wilander (6850 milhões de euros de prémios acumulados de acordo com o site ATP) e ouviu o que outros antigos números 1 mundiais e comentadores do Eurosport têm dito ao longo da semana do torneio de Paris.

Wilander, vencedor de sete Grand Slam, três dos quais em Roland Garros, considera o tema um “assunto bastante sério” e considera “muito importante” que os prémios continuem “a aumentar”, para que o jogador “em 100.º lugar no ranking mundial possa ter as mesmas condições e a mesma equipa que os melhores jogadores do mundo”, esclareceu ao 24noticias.

Pegou no exemplo do futebol, onde todas as equipas, fortes e não fortes, “têm as mesmas condições e competem nas mesmas circunstâncias”. Julga, por isso, ser “muito importante que o tenista número 100 do mundo ganhe dinheiro suficiente para poder tomar as mesmas decisões lógicas em relação à sua equipa” tal como “Jannik Sinner (líder do ranking) pode tomar”, comparou o antigo tenista sueco, 61 anos.

Mais prémios monetários na mão dos jogadores, mais ele elevado a “outro nível” e “cada vez melhor” será o ténis, sustentou numa mensagem.

Wilander, deixa ainda uma nota pessoal. “Não acho que os melhores jogadores do mundo precisem de mais prémios monetários”, ressalvou.

“O ponto-chave é a unidade”. Alternativa é o boicote

John McenRoe, antigo n.º1 (1978, 1981-1082 e 1983-1984) classifica “injusto” e uma “piada” os “14 % a 15 %” das receitas dos Grand Slams atribuídas aos jogadores.

Por essa razão, o 'enfant terrible' dos courts, que acumulou dez milhões de euros de prize-money, aventou “medidas mais drásticas”, para fazer face. “Boicotar um ou dois” dos quatro Majors da temporada pode ser a única forma de forçar a alteração do status quo da divisão de receitas, alvitrou um dos mais famosos esquerdinos nos courts.

“O ponto-chave é a unidade. Se os jogadores não permanecerem unidos, não funcionará. Se um ultrapassar a linha, todo o esforço coletivo colapsará”, prevê.

Jogadores, ATP, WTA e Grand Slams sentados à mesa

A unidade é, também, o segredo para a tenista Chris Evert (n.º1 em 1985). “Estarem unidos é o mais importante. Terão uma boa causa se unidos”, sublinhou, elogiando a atitude dos atuais tenistas ao “olharem mais para os jogadores de ranking mais baixos do que para eles próprios”, disse.

“Estão mais focados em saber se vai haver planos de saúde, mais prémios monetários para o jogador 100, 150, para que consigam pagar um treinador e suportar os custos das viagens, porque tudo é muito caro”, acrescentou a americana de 71 anos, 18 Grand Slams (sete em Paris) e 7,7M€ acumulados.

Chris Evert acredita ser “necessário haver uma comunicação aberta”, no entanto, “o problema é que os Grand Slams são entidades independentes”, destacou. Propõe que todos, “a Federação Internacional de Ténis, Grand Slams, os jogadores, a WTA e o ATP Tour precisam de se sentarem à mesa e discutir o assunto”, mencionou.

“Os jogadores têm razão e direito de ganhar mais”

Boris Becker, 58 anos, reconhece “mérito” às reivindicações em causa. “Os jogadores têm razão” e “direito de ganhar mais”, porque “o bolo é muito grande” ajuizou o alemão que acumulou 21 milhões de euros ao longo da carreira em singulares e pares, onde conquistou seis Grand Slams (nenhum em Paris).

Tal como Wilander, comparou o ténis com outros desportos. “Na NBA, existe uma divisão de 50/50 entre proprietários e jogadores. No ténis ronda os 15 por cento”, fixou. “Os jogadores estão a pedir cerca de 20 a 22 por cento, o que me parece razoável”, comentou o tenista alemão, antigo número 1 (1991).

Boris Becker identificou a inexistência de “uma agenda comum entre os jogadores”, apontou. “Quando fundámos a ATP Tour, mantivemo-nos unidos, tínhamos um líder e apoiávamo-lo”, recordou. “Hoje, no top 10, não me parece que estejam todos unidos e é por isso que este tipo de protestos não é eficaz”, considerou.

“É uma batalha que vai continuar”

“É uma batalha que vai continuar”, antecipou Jim Courier. “Trabalho e gestão vão estar sempre em conflito por causa da distribuição das receitas. Não sei onde isto vai acabar, mas sei que esta luta vai continuar”, avançou o ex-número um mundial (1992).

O ténis tem algo “especial”, considerou o norte-americano de 55 anos ao referir-se à modalidade em que mulheres e homens jogam no mesmo court à mesma altura nos principais torneios, o que não sucede, por exemplo, “no golfe” e nos “mundiais de futebol”, exemplificou o ex-jogador de 55 anos que armazenou 12 milhões de euros em prémios.

“E depois, a forma como a tua popularidade se distingue, está no mercado comercial, através dos patrocínios fora de campo”, descreveu. “De qualquer forma, há muito mais dinheiro aí para os melhores jogadores do que nos prémios monetários”, concluiu.

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