Gatinhavam ainda quando Portugal se estreou a vencer o Rugby Europe Championship (REC 2004) e derrotou, pela última vez, a poderosa Geórgia, no ano seguinte, 2005.
22 anos depois, a seleção portuguesa de râguebi repete a vitória no antigo Seis Nações “B”, a competição mais importante da Rubgy Europe.
“Era nascido, mas pouco, não tenho memória”, brincou António Prim, 23 anos, no aeroporto Humberto Delgado, Lisboa, vindo de Madrid no voo TAP 1023 (8h00), juntamente com (parte) da comitiva portuguesa que, 12 horas antes, conquistou o REC 2026, impedindo a nona vitória consecutiva da seleção georgiana (17 títulos em 24 edições).
“Tanto o pessoal, como coletivamente, foi uma caminhada épica”, assumiu ao 24notícias o gigante pilar português após um percurso, a roçar a perfeição, de cinco jogos vitoriosos.
“Principalmente para mim e para o Kiko (Francisco Lopes), tivemos o desafio de fazer parelha nestes últimos dois jogos, com a Espanha (meia-final) e a Geórgia (final), duas excelentes equipas”, assinalou o dono da camisola “3” nos dois últimos encontros. “Foi uma enorme aprendizagem, épico, mas acima de tudo, um enorme orgulho”, realçou ao fazer o balanço do torneio europeu.
“Trabalhamos em ciclos de quatro anos e o grande objetivo é o Mundial, mas se, nesses ciclos, conseguirmos atingir troféus, tem um sabor especial”, disse, ao virar baterias para a competição a realizar-se na Austrália, em 2027.
“O objetivo final, espero que aconteça, não há certezas, é chegar ao próximo Mundial. Acredito que vai acontecer, mas há que ter paciência e continuar a trabalhar”, sublinhou o jogador que esteve com um pé no França2023.
“Fomos consistentes todo o torneio”
Santiago Lopes, 22, tinha “cerca de um ano de idade” na altura do primeiro triunfo português no REC.
“Contra a Geórgia, em primeiro lugar, é sempre aquela coisa que achamos um bocadinho inalcançável, uma vitória um bocadinho impossível”, constatou. “Mas este ano, o chip mudou ao longo dos cinco jogos” da competição, assumiu o talonador, que não disputou a final em que Portugal destronou os georgianos.
“Fomos consistentes todo o torneio, foi excelente ver isto acontecer nas semanas de treino, ver a consistência construir-se pouco a pouco e chegar ao jogo contra a Espanha onde não havia ninguém que duvidasse do que viria a acontecer”, disse.
“É bom ver a confiança toda do grupo a construir-se pouco a pouco e de repente coisas como estas ocorrem”, acrescentou. “É mesmo especial e estávamos confiantes que isto poderia vir a acontecer, não foi só por acaso”, asseverou.
“Ganhámos a todos”
O triunfo no REC e as vitórias perante duas equipas que estarão no Mundial Austrália 2027, não constituíram surpresa para o sempre otimista Carlos Amado da Silva, Presidente da Federação Portuguesa de Râguebi.
“É para continuar, é normal. Aquilo que disse sempre, escrevi, continuo a dizer, este é um processo evolutivo e tem momentos onde há transições”, relembrou o responsável federativo que, ao longo dos dois mandatos, acrescenta a taça europeia às duas qualificações para campeonatos do mundo.
“Há dificuldades, sim, mas viemos de sete jogos a ganhar”, enalteceu. “E não venho com conversas, como aqui alguns comentaram, que eram equipas fracas na fase de grupos. Frente à Bélgica e à Alemanha perdíamos há sete anos, a Roménia perdemos há dois. É falta de noção da realidade das coisas”, disparou.
“Ganhámos a todos”, exclamou. “A Espanha, em 10 anos deve estar no top 10”, antecipou. Em relação à Geórgia, Amado da Silva esclareceu dúvidas que pairaram antes da final por força do afastamento de seis jogadores dos “Lelos”, após investigação de doping.
“É preciso desmistificar. A Geórgia que jogou connosco é a melhor Geórgia desde 2023. Os seis casos não jogam desde o Mundial (França2023)”, frisou. “Estão a desvalorizar uma vitória”, continuou.
O triunfo e a vitória frente à Espanha (43 jogos, 13 triunfos e 27 derrotas, no histórico) e Geórgia (cinco vitórias e 17 derrotas), reforçam a confiança do líder da FPR para as competições que se avizinham, Nations Cup (junho 2026) e Mundial (2027).
“Vamo-nos bater com qualquer um. Não tenhamos ilusões. Porque aquele medo que houve em 2023, aquele receio...”, esvanecerá, dando lugar à entrada “de confiança” que faltou em território gaulês.
“Agora, vamos ter de trabalhar a sério, mas se me perguntar se o grupo é bom, é. É melhor do que o anterior, o que é normal”, sintetizou em declarações nas Chegadas do Aeroporto Humberto Delgado, onde tinha os filhos à espera.
Os elogios do capitão Madeira aos mais novos. “Ouvem, aprendem e querem melhorar”
Simom Mannix, selecionador nacional, decidiu, durante a campanha europeia, dar a braçadeira de capitão a José Madeira, jogador que atingiu a 50.ª internacionalização com a camisola dos Lobos na final do REC diante a Geórgia.
“Estou muito orgulhoso do grupo, mas é apenas o primeiro passo, a primeira base para construir o Mundial de 2007”, fixou num testemunho dado ao lado de Tomás Appleton, com quem partilha uma liderança bicéfala.
Madeira, 24 anos, recorda os acontecimentos dos 80 minutos frente à seleção da Europa do Leste e os castigos, amarelos, a dois dos Lobos, Francisco Lopes e David Wallis, que ditaram a ida para o banco do pecado (Sin Bin) e, consequente, 20 minutos em inferioridade numérica.
“O grupo conseguiu manter-se unido e a força mental vem do grupo, resiliência, acho que é isso no fundo, não estou a só dizer chavões”, avançou.
Mundialista em França, José Madeira nota diferenças na equipa nacional. “Acho, verdadeiramente, que é o grau de confiança que vem desta força coletiva”, adiantou.
“A malta jovem que entrou, entrou com muito boa disposição, cheios de vontade de aprender, de ganhar e de crescer, isso tem sido a receita até agora”, confessou o segunda-linha português. “Ouvem, aprendem e querem melhorar e isso é espetacular para o grupo e tem ajudado”, assegurou. “A resiliência vem daí e depois temos de estar todos unidos nos momento difíceis”, sumarizou.
Passagem à segunda fase no Mundial 2027 na mente dos jogadores
Portugal ocupa atualmente o 14.ª lugar do ranking da World Rugby, um degrau acima do melhor registo de sempre (13.º), alcançado após o Mundial de França. Se recuarmos ao final da janela Internacional de Inverno 2025, ocupava a 20.ª posição.
Este yo-yo na tabela hierárquica é explicado pela boca de Tomás Appleton, o veterano centro, 84 internacionalizações, um dos donos da braçadeira de capitão dos Lobos.
“Com as mudanças há sempre algumas dores de crescimento”, referiu recuando à passagem do francês Patrice Lagisquet, que esteve no Mundial França2023, para o neozelandês, Simon Mannix, que leva Portugal até à competição global na Oceânia.
“Sofremos um bocadinho, foi uma mudança relativamente atribulada, não foi um processo fácil, não foi direto do Patrice para Simon, houve uma transição”, recordou.
“Mesmo no início do processo do Simon até encontrarmos uma estabilidade enquanto equipa, enquanto staff, enquanto grupo, demorou algum tempo”, reconheceu.
“Mas a partir do momento que esse processo começa a ser bem montado e comecemos todos a acreditar”, a mudança verificou-se “a partir da derrota com a Irlanda (106-7)”, e, desde então, “os jogadores foram sempre acreditando”, descreveu.
“É 100% transversal que toda a gente acredita que podemos fazer mais do que já fizemos, podemos mostrar hoje uma coisa que este grupo nunca tinha feito, ganhar um REC, e isto pode ser uma excelente promoção para o Mundial de 2027”, antevê.
“Obviamente, sabemos que a nossa posição (ranking) em novembro e passados estes meses é uma posição completamente diferente”, admitiu.
No balanço, Tomás Appleton não esquece a derrota (26-8) com o Uruguai, em novembro, desfecho que viria a ditar o sorteio para o Mundial e, curiosamente, a inclusão dos sul-americanos no grupo de Portugal, Irlanda e Escócia.
“Sabemos que temos uma margem de projeção brutal, subimos dois lugares no ranking para 14.º, agora estamos a construir e a mostrar que nos podemos bater com essas equipas”, destacou.
A seleção uruguaia que, tal como reconhece Appleton, dominou “por completo” os Lobos, não é, contudo “um bicho-papão”, caraterizou. “No Mundial, obviamente, o nosso grande objetivo é passar a segunda fase”, finalizou.
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