Começou com um pedido de casamento durante os Jogos Olímpicos de Paris2024. Tsanko Arnaudov, lançador do peso, aproveitou a imagem de fundo dos anéis olímpicos para colocar a anel de noivado no dedo da namorada, Cátia Azevedo, velocista (400m).

mão foi pedida a 8 de agosto de 2024, depois dos dois atletas olímpicos terem competido na capital francesa. O “sim” na Aldeia Olímpica tornou-se um dos momentos virais dos JO Paris2024.

A resposta afirmativa teve eco um pouco mais tarde. O ato oficial celebrado entre Cátia Azevedo e Tsanko Arnaudov concretizou-se a 3 de outubro de 2025. Por essa altura, “já estava grávida”, confessou Cátia Azevedo, e o Afonso nasceu em março.

Um ano de recuperação, um ano de preparação para LA2028

A participação nos Jogos Olímpicos Paris2024 foi “o último dia em que competi”, recordou Cátia Azevedo ao 24noticias.

“Tive uma lesão nos Jogos Olímpicos de 2024. Estive lesionada no ano passado, tive várias ruturas no gêmeo”, lembra a velocista do Sporting Clube de Portugal.

Afonso surge enquanto recuperava da lesão, numa gravidez “programada”, contou. “A ideia era ser, no máximo, até à entrada deste ano (2026), para conseguir ter um ano de recuperação e um ano de preparação para os Jogos Olímpicos (Los Angeles 2028)”, sublinhou.

Durante a gestação e período de baixa, a recordista nacional dos 400m e multicampeã nacional, continuou a receber a verba de apoio contratualizada com o Estado. “Como atleta olímpica, recebi”. “Antigamente, não era assim." “Foi uma das coisas que nós, Comissão de Atletas Olímpicos (CAO ), lutámos bastante para que as atletas recebessem”, anotou.

“Durante esse período temos apoio. Depois há uma reavaliação da forma física para a Bolsa, mais tarde”, adiantou a membro da CAO, entidade que zela pelos direitos e interesses dos atletas junto do COP e outras entidades do sistema desportivo.

Sonho olímpico a dois

Cátia Azevedo folheia a página da maternidade. Traça um novo capítulo para a vida: acrescentar a quarta participação olímpica depois de Rio de Janeiro2016, Tóquio2020 e Paris2024. Agora, quer apanhar o voo para Los Angeles 2028.

Ciente de que se trata de uma meta ambiciosa, pretende aterrar no evento olímpico a decorrer na Califórnia, Estados Unidos da América, para “bater o record nacional” e ir além das meias-finais de Paris2024.

Alimenta o sonho olímpico, juntamente com o marido, Tsanko Arnaudov. Os JO Los Angeles 2028 “é o nosso objetivo a curto-médio prazo”, declarou em nome do casal.

“A longo prazo, acho que o Tsanko tem mais margem do que eu, porque é lançador, duram muito mais tempo”, prevê.

Espera um desafio “difícil, mas não é impossível”, assinalou Cátia Azedo. “Para mim, em termos fisiológicos, é um bocadinho mais desafiante. Mas correu muito bem a gravidez, o parto e a maternidade está a ser leve. Acho que tenho boas perspetivas, mas não sabemos até competir”, avisa.

Iniciou os treinos cinco semanas após o nascimento do filho. O 11 de maio foi quase como uma nova primeira vez. Treinou ao lado do marido.

“Estou em fase de recuperar a forma”, anunciou. “Até setembro, vamos os dois para o treino, eu e o Tsanko”. Mas não vão sós. Até ao nono mês, transportam o filho para o Centro de Alto Rendimento do Jamor. Depois, será diferente.

Enfermeira, mãe ou atleta. Que personagem após LA2028

“Ser atleta olímpica, atleta de alta competição, é um curto espaço de tempo. Temos de priorizar”, acentuou. A preparação está a ser “feita a três” porque a “rede de apoio familiar, em Lisboa, é quase nula”, chama a atenção.

Se conseguir a qualificação olímpica e os resultados na cidade norte-americana, sede dos Jogos Olímpicos, enquadrarem-se dentro das expetativas, “talvez continue”, projeta a atleta nascida em Oliveira de Azeméis. “Se fizer sentido”. “Mas se não fizer sentido, quero muito ser enfermeira (terminou o curso em 2023), estar muito mais na área da enfermagem a tempo inteiro, portanto...”.

“Em Paris já estava a trabalhar” como enfermeira, confidencia Cátia Azevedo. “A enfermagem complementou-me muito mais como atleta olímpica”.

Trabalha “a recibos verdes”. Ocupa-se da diálise, numa clínica privada. Uma opção mais “fácil para gerir horários”, permitindo-lhe “conciliar” profissão e a atividade desportiva.

Atualmente, corporifica o três em um: atleta, enfermeira e, agora, mãe. Depois de Los Angeles2028, “é pensar e ver que personagem é que seremos naquele ano”, contou.

Compara-se a uma cápsula. “Quando estou como enfermeira, sou enfermeira, quando estou como mãe, sou mãe, quando estou a treinar, sou atleta. Nós, somos o conjunto disto tudo”, dissertou.

“Sair para o treino não é só pegar na mochila e ir embora”

“É o Afonso”, apresentou o pai babado do alto dos seus 1,92 cm e 154kg. Tsanko Arnaudov carregava a criança no marsúpio durante um evento que juntou vários atletas olímpicos no passado dia 12 de maio, na sede do Comité Olímpico de Portugal.

Recordou, também ele, a data do (re)início dos treinos a dois. “No dia 11 de maio foi a primeira experiência de irmos treinar os dois juntos”, referiu à margem da assinatura do contrato de parceria entre COP e a Repsol, parceiro desde 2015.

“É uma logística diferente. Sair para o treino não é só pegar na mochila e ir. Preparamos a nossa mochila, a mochila dele e todas as coisas, como a comida”, descreveu. “É fazível”, assumiu o atleta do Sporting, ex-Torreense.

Tsanko não descarta ajuda dada à mulher. Nem durante a amamentação. “É com ela, mas também é comigo, porque tentamos ir treinar juntos, tentarei sempre apoiar em tudo o que ela precisa para ser mais fácil para ela”, confessou. “Também tenho responsabilidades e faço questão de as ter”, adiantou. “Sou o pai, não é”, exclamou.

Na qualidade de atletas olímpicos, apesar da disciplina ser território conhecido, a gestão do tempo a três obriga-os a seguir um padrão mais rigoroso.

“Tentamos sempre cumprir os horários. É um pouco mais difícil, é mais desafiante”, clarificou. “Porque ao mesmo tempo que tentamos estar sempre a tempo e horas nos eventos, porque existem horários a cumprir, temos sempre um acontecer de duas, três horas antes”, esclareceu o lançador do peso.

Descreveu os preparativos. “Dar de mamar, arrumar a casa e sair com a casa limpa, comida feita para quando chegarmos estarmos mais tranquilos”, relatou.

“Depois de sairmos às dez e meia da manhã, chegamos por volta das sete, com ele (o filho)”, registou. “É uma logística que já vem do dia anterior”, assegurou.

Da Cidade Luz à Cidade dos Anjos 

Nascido há 34 anos na Bulgária, na cidade de Gotse Delchev, a viver em Portugal com os pais desde os 12 e naturalizado português, em 2010 (aos 18 anos), Tsanko estreou-se no lançamento do peso nos Jogos Olímpicos Rio de Janeiro2016 (29.º). Regressou aos Jogos em Paris2024 e espera estar em Los Angeles2028.

No horizonte, alimenta a ambição de, agora enquanto casal aos olhos do Direito de Família, colocarem-se, de novo, à frente dos anéis olímpicos, pano de fundo que está na origem da história de ambos.

Da Cidade Luz à Cidade dos Anjos, a preparação para alcançar a qualificação olímpica terá ritmos e graus de dificuldade diferentes.

“Para mim é mais fácil do que para ela”, reconheceu. “É só treinar, treinar. Enquanto, para ela (Cátia Azevedo), temos uma recuperação que não se pode dar dois passos, é sempre um de cada vez”, explicou. “E se tiver de recuar um, recua-se. Não há problema nenhum, para depois poder dar dois à frente”, acrescenta o olímpico do Sporting.

“Por isso, estamos a tentar fazer esta gestão para que não haja passos atrás”, explica. “Primeiro é a saúde. Por isso, com calma”, explanou. “Basicamente, é evoluir no dia a dia até ela recuperar a 100% para voltar a ser 100% atleta”, acrescentou.

Para fim desta história conjunta, o objetivo está escrito. “Irmos os três a LA”, sorriu. “Ele (filho, Afonso) vai, garantidamente”, prometeu, caso um dos atletas se qualifique. “Vamos ver como vai ser, podemos não competir no mesmo dia”, antecipou o cenário mais positivo de apuramento duplo. “Mas mesmo se só for só um de nós, o outro (membro do casal) vai atrás. Vai com certeza”, garantiu Tsanko Arnaudov.

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