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A eliminação precoce de seleções consideradas favoritas, e as dificuldades sentidas por várias equipas, estão a marcar este Mundial como um ponto de viragem na hierarquia do futebol internacional.

Para perceber o que está a acontecer, ouvimos três antigos internacionais, Steffen Freund (Alemanha), Jan van Halst (Países Baixos) e Ümit Aktan (Turquia), hoje ligados ao comentário desportivo e à análise tática.

Apesar de representarem contextos diferentes, todos convergem numa ideia central, nomeadamente que o futebol global deixou de respeitar estatutos.

Steffen Freund é o primeiro a sublinhar a mudança estrutural. "A Alemanha já não perde porque joga pior. Perde porque já não consegue impor domínio contínuo durante 90 minutos. O jogo ficou mais curto, mais intenso e mais imprevisível", diz ao 24notícias, salientando que o problema não está apenas na qualidade individual, mas na incapacidade de transformar posse em controlo real do resultado.

"Ter bola não significa controlar o jogo. Hoje, muitas seleções médias defendem melhor do que equipas de topo defendiam há dez anos", refere.

"A Alemanha já não perde porque joga pior. Perde porque já não consegue impor domínio contínuo durante 90 minutos"Steffen Freund

No caso dos Países Baixos, Jan van Halst aponta para outro fator, nomeadamente a eficiência dos adversários em momentos críticos. "Os Países Baixos tiveram oportunidades suficientes para fechar o jogo. Mas o futebol moderno pune a hesitação. Um erro, uma perda de concentração, e o jogo muda completamente", refere, insistindo que o problema não é tático, mas emocional e de gestão de pressão.

"Quando chegas ao prolongamento ou aos penáltis, já não estás a jogar futebol puro. Estás a jogar nervos. E aí qualquer seleção bem preparada pode ganhar", salientada.

Já Ümit Aktan, antigo internacional turco, coloca o foco no desgaste acumulado e na intensidade física do torneio. "A Turquia e outras seleções do chamado ‘segundo escalão’ já não são outsiders inocentes. São equipas muito organizadas. O problema é que o nível físico exigido neste Mundial é brutal", afirma.

"Quando chegas ao prolongamento ou aos penáltis, já não estás a jogar futebol puro. Estás a jogar nervos. E aí qualquer seleção bem preparada pode ganhar"Jan van Halst

Aliás, Aktan vai mais longe ao ligar os resultados ao contexto logístico. "As viagens, o calor, a recuperação curta entre jogos, tudo isso pesa. E pesa mais nas equipas que não têm a mesma profundidade de banco dos favoritos", diz.

Os três ex-jogadores concordam, no entanto, que o Mundial atual está a expor um novo equilíbrio competitivo. "O que antes era surpresa agora é padrão. Quando uma seleção teoricamente inferior elimina um gigante, já não é choque, é tendência", diz Steffen Freund.

"Não é só o corpo. É a pressão constante, o ambiente, a expectativa. As equipas favoritas entram em campo com o peso de não poder falhar"Umit Aktan

Jan van Halst reforça essa leitura, sublinhando a preparação quase simétrica entre seleções. "Hoje todas as equipas chegam com análise de vídeo, preparação tática detalhada e planos específicos para cada adversário. A diferença já não está na informação, está na execução", afirma o agora comentador.

Por sua vez Aktan acrescenta um elemento decisivo, a fadiga mental. "Não é só o corpo. É a pressão constante, o ambiente, a expectativa. As equipas favoritas entram em campo com o peso de não poder falhar", disse.

No caso das eliminações de Alemanha e Países Baixos, os três ex-internacionais evitam falar em colapso, preferindo o termo "nivelamento competitivo". Para eles, o futebol internacional entrou numa fase em que a diferença entre vencer e perder está cada vez mais reduzida a detalhes.

"Este Mundial não está a premiar quem joga melhor durante mais tempo. Está a premiar quem erra menos vezes sob pressão máxima", conclui Steffen Freund.

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