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Quando os primeiros ciclistas da 87.ª Volta a Portugal Jogos Santa Casa apareceram na reta da Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, em Queluz, artéria que conduz aos jardins e ao Palácio Nacional de Queluz, já um outro pelotão se tinha formado.
Não vestia licra, não usava capacete nem deslizava sobre bicicletas de carbono. Era composto por moradores, curiosos, apaixonados pela Volta, trabalhadores da restauração que trocaram a folga por mais um turno e militares que, entre simuladores e óculos de realidade virtual, tentavam convencer jovens a envergar outra farda, ao serviço de Portugal.
A primeira etapa em linha da Volta terminava, pela primeira vez, às portas do Palácio Nacional de Queluz. Durante algumas horas, o monumento deixou de ser apenas palco de visitas turísticas e de cerimónias de Estado para receber a maior prova do ciclismo nacional.
Os corredores tinham percorrido 157 quilómetros entre a Lourinhã e Queluz, numa rota que serviu de montra à diversidade da região Oeste. O percurso acompanhou o Atlântico e as praias de Santa Cruz e da Ericeira, atravessou Mafra, passou pelo Palácio Nacional de Mafra, mandado construir por D. João V, e pela Tapada Nacional de Mafra, serpenteou pelas estradas sinuosas da serra de Sintra e terminou na Paisagem Cultural de Sintra, classificada pela UNESCO como Património Mundial, antes da chegada à antiga residência da família real portuguesa.
A etapa trouxe também novidades desportivas: dois sprints intermédios separados por apenas 400 metros, em Mafra, e duas contagens de montanha de terceira categoria, em Montelavar e São Pedro de Sintra, antes da descida para Queluz.
“Sintra é terra de ciclismo”
Na meta, porém, a corrida era apenas uma parte da história.
Fernando Seara acompanhou a chegada com o entusiasmo de quem continua a olhar para a Volta com os olhos do rapaz que nasceu e cresceu em Viseu a ver a caravana passar.
Quinze anos depois de, enquanto presidente da Câmara Municipal de Sintra, ter dado a partida para uma etapa da Volta — no encerramento da 73.ª edição, entre Sintra e Lisboa —, o atual presidente da Assembleia Municipal voltou a assistir ao reencontro da corrida com o concelho.
“O presidente Marco Almeida fez bem em continuar a apoiar o ciclismo. E fez bem em trazer a Volta a Queluz”, afirmou ao 24notícias, elogiando a aposta do atual executivo.
Para Seara, a ligação entre Sintra e o ciclismo está longe de ser circunstancial. “Sintra é uma terra de muitas modalidades, mas também é uma terra de ciclismo, sobretudo na zona saloia”, informou.
A multidão espalhada ao longo do percurso e concentrada na chegada confirmou a afirmação. “Há paixão pelo ciclismo. Hoje viu-se. Em Sintra, estava cheio. Em Queluz, cheio”, descreveu.
Conhecedor da história do ciclismo local, recordou uma das provas mais emblemáticas do concelho. “Em Sintra temos, por exemplo, um circuito fantástico. Sabe qual é? Nafarros”, notificou, referindo-se a mais prova mais antiga, no ativo, da região de Lisboa.
Instalado nas traseiras do camião-pódio, Seara considera que a chegada não podia ter escolhido melhor cenário. “A Volta casa-se com um monumento nacional”, exaltou.
Lembrou ainda que o percurso atravessou uma das maiores concentrações de património histórico do país, passando nas proximidades do Palácio Nacional de Sintra, do Palácio da Pena, do Castelo dos Mouros, do Convento dos Capuchos e do Chalet da Condessa d'Edla, "que foi amante do rei D. Fernando II".
Um restaurante que trocou a folga pela Volta
A poucos metros da meta, a Volta também alterou a rotina da Churrasqueira Retiro do Palácio. “Estamos fechados à quinta-feira. Hoje abrimos de propósito”, contou o proprietário, Vítor Silva.
A decisão significou um dia extra de trabalho para toda a equipa. “Esta semana estamos abertos todos os dias”, avançou.
Até ao início da tarde tinham sido servidas cerca de “70 refeições”, sobretudo a elementos da organização, das equipas, patrocinadores, operadores de câmara e jornalistas que acompanham a prova.
Ainda assim, o movimento ficou aquém do esperado se fosse um dia normal.
“A maior parte dos nossos clientes habituais não veio. Avisámos nas redes sociais, mas as pessoas já estão habituadas a encontrar-nos fechados à quinta-feira”, contou.
Mesmo assim, o dia acabou por representar uma oportunidade para engordar a caixa registadora e promover o restaurante aos muitos visitantes trazidos pela Volta.
O outro pelotão, outra missão
Quem também aproveitou a inédita chegada da Volta foi o Exército português.
O Regimento de Artilharia Antiaérea n.º 1, inquilino desde 2011 na Quinta Nova, montou um espaço de demonstração para apresentar o trabalho desenvolvido pela unidade.
Numa ação de relações públicas, os visitantes puderam experimentar simuladores, utilizar óculos de realidade virtual e conhecer alguns dos sistemas utilizados na defesa antiaérea, uma das suas armas.
Sem autorização para prestar declarações, os militares limitaram-se a explicar o funcionamento dos equipamentos, realizar demonstrações e distribuir informação sobre oportunidades de recrutamento.
O objetivo não era convencer alguém a vestir a camisola amarela, mas sim atrair novos recrutas e convencê-los a envergar o camuflado e integrar um novo pelotão.
Pouco depois de Rui Oliveira vestir de amarelo e Francisco Campos vencer a etapa, a organização começou a desmontar grades, palcos e contentores, numa operação logística executada com a precisão habitual da caravana da Volta, em tudo semelhante à ordem militar.
O pelotão de camiões TIR rumou depois a sul, em direção a Sines, ponto de partida da segunda etapa rumo ao Algarve.
O Palácio voltou ao silêncio habitual. O Exército recolheu ao quartel. E Queluz ficou com a memória de um dia em que a Volta a Portugal trouxe muito mais do que bicicletas.
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