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No arranque da competição, os cabo-verdianos travaram o campeão europeu Espanha, num empate sem golos (0-0), num jogo em que a organização defensiva e a disciplina tática foram decisivas para segurar um dos principais candidatos ao título, com o guarda-redes Vozinha a ser a grande estrela. Na segunda jornada, a seleção voltou a mostrar qualidade ao empatar 2-2 com o Uruguai, num encontro em que chegou mesmo a marcar o primeiro golo da sua história em fases finais de um Mundial através de Kevin Pina, de livre direto.

Com estes resultados, Cabo Verde chega à última jornada do grupo ainda com possibilidades reais de qualificação, num cenário que já é, por si só, histórico para uma seleção que se estreia em Mundiais.

O próximo jogo está marcado para sábado, 27 de junho, frente à Arábia Saudita, numa partida que pode definir o destino da equipa africana na competição. Um triunfo, ou mesmo um empate, poderá colocar Cabo Verde na próxima fase, dependendo também do resultado do confronto entre Espanha e Uruguai, deixando o grupo completamente em aberto.

"O crescimento não é fruto do acaso"

Para compreender o momento atual da seleção cabo-verdiana, é preciso olhar para fora do relvado. Um responsável do departamento de formação do futebol de Cabo Verde sublinha que o sucesso recente é resultado de um processo estruturado ao longo da última década.

"Este crescimento é fruto de um processo longo. As camadas jovens foram reorganizadas nos últimos anos. Há mais rigor na formação e no treino diário. E isso está agora a aparecer na seleção principal. O trabalho não se limita ao talento individual. Criámos uma cultura de treino mais exigente. Os jogadores chegam mais preparados para competir. E isso faz toda a diferença neste nível", explica ao 24notícias Anildo Moniz.

Segundo o dirigente, o desenvolvimento não se limita à seleção principal. "O objetivo sempre foi criar uma base sólida. Hoje já existe mais competição interna, melhores condições em alguns clubes e uma visão mais profissional do jogador desde cedo", salienta.

"A presença de treinadores portugueses teve um impacto muito importante. Trouxeram metodologias mais estruturadas, maior rigor no treino e uma visão mais moderna do jogo"Anildo Moniz

Apesar da evolução, são reconhecidas dificuldades estruturais em algumas ilhas, sobretudo ao nível de infraestruturas e recursos. Ainda assim, tem havido progressos graduais no investimento em campos, academias e organização dos clubes. "Existem ainda limitações nas infraestruturas. Mas tem havido investimento progressivo nas ilhas. Os clubes estão mais organizados do que no passado. E isso ajuda a sustentar o crescimento", refere.

Um dos fatores mais relevantes no desenvolvimento recente tem sido o contacto direto com treinadores portugueses que trabalharam em clubes e estruturas de formação em Cabo Verde. "A presença de treinadores portugueses teve um impacto muito importante. Trouxeram metodologias mais estruturadas, maior rigor no treino e uma visão mais moderna do jogo. Houve uma adaptação à realidade local, mas também uma evolução clara nos processos de formação. Isso ajudou a acelerar a profissionalização do futebol cabo-verdiano", explica.

Também a formação de dirigentes e treinadores cabo-verdianos no estrangeiro tem sido apontada como decisiva para o crescimento estrutural do futebol do país. "Temos hoje muitos treinadores e dirigentes que estudaram ou fizeram cursos no exterior, sobretudo em Portugal e noutros países europeus. Isso permitiu trazer conhecimento atualizado para dentro do sistema. Há uma geração mais preparada, mais consciente das exigências do futebol moderno e mais capaz de implementar projetos de longo prazo", salienta o dirigente.

Uma seleção que deixou de ser surpresa

Sobre o jogo decisivo frente à Arábia Saudita, o discurso dentro da estrutura é de confiança controlada, mas também de consciência do momento histórico que está em cima da mesa. "A seleção já demonstrou que está em condições de competir num Mundial ao mais alto nível. Os dois empates frente a adversários fortíssimos mostram isso mesmo. Agora é um jogo diferente, de enorme responsabilidade, mas a equipa já provou que pode competir com qualquer adversário", refere.

Anildo Moniz sublinha ainda o peso simbólico do encontro e o que pode significar para o futebol cabo-verdiano. "Estamos perante um jogo que pode ser ainda mais histórico. O apuramento para os oitavos de final seria um marco absoluto fantástico para o país e para esta geração de jogadores. É algo que muda a perceção externa e interna do futebol cabo-verdiano", acrescenta.

No entanto, dentro da equipa, a abordagem mantém-se cautelosa, sem perder o foco competitivo. "Não há ilusões. Há respeito pelo adversário e consciência das dificuldades. Mas também há confiança no processo e na forma como a equipa tem competido até agora".

Se o apuramento se confirmar, contudo, o discurso já aponta noutro sentido. "Depois de um possível apuramento, há que continuar a sonhar. Esta seleção já mostrou que não veio ao Mundial apenas para participar. Cada passo abre novos objetivos e novas possibilidades. O importante é manter a mesma identidade e a mesma ambição competitiva", conclui.

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