Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Um Porto-Benfica ou um Benfica-Porto é sempre um acontecimento que arrasta paixões. Seja no futebol, andebol, hóquei em patins, matraquilhos ou ao berlinde.
A 22.ª edição da taça de Portugal de futebol feminino não foi, obviamente exceção. Neste domingo, num frente a frente inédito, respirou-se amor nas matas do Jamor.
O primeiro clássico do futebol feminino entre azuis e brancas e encarnadas atraiu às bancadas do Estádio Nacional 22358 adeptos.
Uns, deslocaram-se ao palco da prova rainha por razões de afeto a um dos clubes, outros pela devoção à cara-metade justificando que há sempre mais espaço no coração e ainda outros que, clubes à parte, provam a existência de um amor maior capaz de sobreviver a tudo.
Há quem tenha vindo de perto, e quem tenha vindo de longe.
E depois há Kika Nazareth. Viajou de Barcelona até Oeiras, um dia depois de vencer a Taça pelo atual clube, o Barça. Razões de cordão umbilical ao clube da Luz ditaram a presença da internacional portuguesa que, no ano passado, subiu à Tribuna de Honra do Estádio Nacional para receber a Taça de Portugal com a camisola do Benfica, a segunda do historial do emblema. Desta vez, assistiu, da bancada central, à terceira.
Entre gente conhecida e anónima, houve quem tenha ido ao Porto (de Lisboa) na véspera celebrar o título de campeão nacional de futebol (FC Porto) e quem se tenha abstraído de celebrar ao lado de casa, na Invicta, só para acompanhar a filha que participou na festa do futebol feminino que decorreu no Jamor. Separados pelas preferências clubísticas, Rui Costa e André Vilas-Boas sentaram-se na tribuna a assistir.
“Conheço algumas jogadoras, mas não os nomes”
Maria, 64 anos e Alípio, 74, estão casados há 48 anos. Vieram de Caxias, bem aos pés do Estádio Nacional do Jamor.
“Vimos cá sempre ver as finais. Mas só quando é o Benfica”, diz Maria.
Foram “algumas vezes” ao Estádio da Luz, garante Alípio, contudo, abstêm-se de acompanhar pelo país. “Fora, não temos possibilidades, mas quando há jogos no Estádio da Luz, se for mais económico, vamos ver”, conta Maria ao 24noticias.
Caminham, vagarosamente, de mão dada pelo parque 10. Foram ocupar “a ala norte”, cheio, diga-se de passagem, ao contrário do topo sul, vazio. “Pagámos 2,50 euros”. O ingresso não é para reformados. “É o que pediram a toda a gente”, revelou.
“Conheço algumas jogadoras, mas não os nomes. Aquela escurinha, magrinha (Diana Silva)”, enunciou. “Acho que é uma guineense (é portuguesa)”, adianta Alípio.
“Nunca meto Benfica. Ponho raça benfiquista”
Taça que é Taça, não é Taça se não tiver alguém a vender merchandising mais ou menos oficial. João Paulo vende chapéus. “Tenho 73 anos. É um extra, pá, sou benfiquista e gosto de comer e beber e posso fazer isto”, anunciou. “Sou sócio correspondente e não daqueles de red pass”, faz questão de explicar.
Vende cada panamá a 2 euros. Vende mais Benfica. “É Benfica, carago”, repete.
“Quero um azul”, escuta-se um pedido. “Azul”, questiona João Paulo. “Bom, vendo tudo”, exclama. “Se não tiver, olhe, paga para a próxima”, desafia o comprador que lhe pergunta se há Mbway. “Não tenho Mbway”, informou.
Gosta de falar. Prefere dar “troco” a quem passa, assume. “Gosto muito de conversar”, responde ao pedido de uma adepta por “três chapeuzinhos”. Nem ouve.
Fala tanto que se esqueceu de cobrar um chapéu, quis oferecer outro porque não lhe apetece ir ao bolso buscar moedas para acertar contas e descurou o troco a quem já tinha dado cinco euros e reclama não ter o chapéu, nem a verba que lhe é devida.
Não tem cachecóis para venda. “Já vendi. Tenho um lá em casa do Rui Costa quando voltou em 2006”, recuou o vendedor que há poucas semanas esteve “no Rally de Portugal”, mas não levou bonés do Benfica. “Se tivesse levado, vendia. O Benfica é grande, pá”, exclamou.
É de Espinho. “Vivo sozinho, vim de comboio e cheguei atrasado”. Por isso, está na Porta da Maratona. “Regresso às 19h30. Não gasto dinheiro a dormir cá”, esclarece.
Num dia de céu limpo, a necessidade de tapar o sol com a peneira provoca pequenas filas de clientela à procura de um chapéu. “Nunca meto Benfica. Ponho raça benfiquista. No princípio da época faço, por exemplo, mil, dois mil, e pode haver um ou outro que tenha”, admite. “Estou coletado, estou coletado”, repete. “Não sou nenhum santo, mas cumpro a lei”, faz questão de dizer, antes de largar mais um vernáculo.
“Só acompanho o meu marido, não acompanho o futebol”
“Sagar. S-A-G-A-R”. E “Dina. É mais fácil”. Está apresentado o casal de Lisboa, cidade e do Porto, clube, por amor. 60 e 52 anos e casados “há 33 anos”, refere Sagar.
“Sou do Porto desde os tempos de Moçambique”, assume este adepto portista natural de “Maputo, ou antes, Lourenço Marques,”, filho de descendentes indianos, naturais Díu, “ex-colónia portuguesa”, especificou.
“Costumo ver futebol (feminino) na televisão, os resumos. Mas, hoje calhou ter o Porto na final, pela primeira vez, e ainda bem. Não será tão confuso como costuma ser”, perspetivou.
Em relação ao plantel portista e à paixão futebolística, Sagar anuncia por quem palpita a sua preferência. “Gosto de uma estrangeira, loura (Eliza Turner”)”, diz
Discreta e silenciosa, Dina chega-se à frente. “Só acompanho o meu marido, não acompanho o futebol”, sorri.
Kika Nazareth mostrou amor eterno ao clube do coração
A subida da avenida Av. Pierre de Coubertin à entrada superior do topo sul do estádio, um dos acessos à Tribuna de Honra, retira o fôlego a este carreiro azul e encarnado.
“Depois deste bocado, só falta outro bocado”, graceja um adepto (do Porto) para o outro. Entre risadas, uma mão acarinhou a volúpia de uma barriga cheia de amor.
Armando Paixão e Maria Virgília, já ultrapassaram a barreira dos 80. Armando, 82, é do Benfica. Maria, 81, acompanha-o. Enfrentaram a íngreme subida de escadaria em madeira. “Não nos deixaram entrar pela porta da Maratona”, lamentou Armando.
“Costumo ver no Estádio na Luz. Já vi no Seixal e no Cova da Piedade, porque moro no outro lado”, conta este conhecedor da bola redonda.
“Conheci muita miúda. Estive ligado ao futebol 50 anos”, justifica. “Hoje sou presidente do Conselho Técnico da Associação de Futebol de Setúbal”, mostra o cartão.
Antes, tinha sido responsável pelas seleções para o futebol feminino e formação na Associação de Setúbal”, um caminho que a colocou na rota da Kika Nazareth. “Quando era miúda”, recorda.
Foi um prenúncio. Minutos mais tarde, a jogadora que trocou a Luz por Camp Nou chegou à Tribuna de Honra quando já passavam 20 minutos da primeira parte.
Vestida à Benfica, usando 13, da amiga Lúcia Alves e o 20 de Richard Ríos, entre o princípio e o fim da partida, mostra amor eterno ao clube do coração. Na central, distribui abraços e sorrisos, recebeu a bênção do papa do Benfica e foi a rainha do selfie e das fotografias com os fãs. “Kika, Kika”, reclamavam miúdos e graúdos. Uma estrela que quase ofuscou a presença na Tribuna de Honra dos presidentes Rui Costa (Benfica) e André Vilas-Boas (Porto).
“Tem um grande defeito que assumo como pequeno”
Vítor Oliveira tem nome de treinador, figura de treinador e é mesmo treinador. “Nos Aliados do Lordelo e treino os sub-11. Tenho duas meninas na equipa”, anuncia.
Aprofunda sem lhe perguntarem. “As duas têm potencial, mas uma delas, médio direito, como treinador, tem, mas como pai, não”, registou.
O pai que balança entre o babado e o preocupado avança na explicação. “Não queria que ela seguisse futebol. Pode ser que mude”, deseja. “Mas não digo para mudar”, garante este portista ferrenho casado uma benfiquista. “Tem um grande defeito que assumo como pequeno”, solta a gargalhada.
Susana, a mulher, benfiquista, confessa não acompanhar futebol, mas vê, “às vezes” a filha. Só quer que a filha, Maria Oliveira, “seja o que quiser e feliz”, anuncia naquele natural amor de mãe.
Vítor Oliveira retorna à filha, portista de coração e “fã do Vitinha”, ex-Porto, internacional português ao serviço do PSG. “Quero que ela jogue ao nível que pode jogar. É assim que vejo as coisas. Não metemos pressão nenhuma”, frisa.
O casal está no local reservado aos adeptos portistas, zona envolvente à entrada Sul da mata do Jamor. Há um DJ e música para animar. A animação abana as mascotes Draco e Viena e promove danças do equilíbrio. A pista está vazia, porque foram poucos os adeptos azuis e brancos presentes na estreia e inédita final d Taça.
“O Porto tem poucas chances hoje. Cinco por cento”. Vítor Oliveira deixou o prognóstico que os golos da dinamarquesa Caroline Moller (4’, confirmado pelo VAR e 39’) confirmaram.
“O nível é muito bom, muito elevado. O Porto chega à final, eliminou três equipas, mas não eliminou o top 4. Não eliminou o Braga, Sporting, nem o Torreense e teve um bocadinho de sorte com o Vitória. Perdeu 2-0 em Guimarães, virou para 3-2”, recordou.
Está no Jamor para ver os dois amores. A filha e o clube. “Pedi para o Porto ser campeão antes da última jornada. O Porto deu-me essa alegria porque sabia que hoje tinha que vir para cá, para ver a minha filha, veio com a escola” participar na Festa do Futebol Feminino que decorreu na Cidade do Futebol e terminou no Estádio Nacional.
“Tenho lugar no Dragão. E dei a felicidade e o lugar a um amigo”, indicou.
“Não estava à espera de estar na final, mas vim apoiar as miúdas”
Beatriz, 25 anos é de Sintra. Guilherme, 27, também. Ela é do Benfica, ele do Porto. “Não falamos de futebol”, atesta, a rir, Beatriz. “Por acaso, falamos um bocadinho, mas é amigável”, contrapõe Guilherme neste diálogo a dois.
Guilherme escolheu o Porto por razões familiares. A família da Beatriz é do Benfica.
Intervalam, à vez, a conversa com o 24noticias. “Já acompanhei mais do que atualmente, mas sigo a equipa”, sublinha Beatriz. “Estive nos Aliados ontem”, devolveu Guilherme, escondido por detrás dos óculos escuros. Para ver os homens.
Os festejos, no entanto, ficaram pela véspera. “Não tenho muita expectativa, é um projeto que tem dois anos, subimos à 1.ª divisão e o Benfica joga a Champions League. Não estava à espera de estar na final, mas vim apoiar as miúdas”, atestou este adepto que faz quinzenalmente a viagem ao Porto e ao Dragão. “Tenho lugar no estádio há quatro anos”, avança, orgulhoso, justificando as razões que só o coração conhece.
“Vamo-nos entendendo. Sei que o Benfica vai ganhar, é tranquilo”
Matilde (Benfica) e Filipa (Porto). 17 anos, formaram uma dupla de centrais do Real Massamá. Fora de campo, torcem por emblemas diferentes.
O entendimento tem pela base a fé inabalável. “Vamo-nos entendendo. Sei que o Benfica vai ganhar, é tranquilo”, disparou, sorridente, Matilde. “Para mim também é tranquilo. Sei que o Porto vai ganhar”, retorqui Filipa.
Matilde Jogou no Sintrense e Real Massamá, segue “mais o futebol feminino”, mas aos 17 anos reconheceu ser a altura ideal para estudar. “Sabia que não ia fazer aquilo na minha vida e por isso preferi deixar”, justificou.
Filipa joga ainda no Real Massamá e “acompanho mais o futebol masculino do que o feminino”, diz, sem abrir as razões.
Na crista da juventude, em passos saltitantes, desceram as escadarias em direção à Praça da Maratona. A rapidez é explicada pelo desejo de assistirem aos aquecimentos, saída para os balneários, Porto (às 16h50m) e Benfica (16h54m), cerimónia protocolar entrada dos finalistas da edição 2025-2026 e, por fim, escutarem o Hino Nacional ("A Portuguesa"), pela voz de Mimicat.
“Domingo estaremos aqui”
“Os cachecóis, este ano, estão muito caros, para nós. E depois, não dá dinheiro”, lamenta uma vendedora que ocupa terrenos encarnados ao longo da avenida Pierre Courbertin em direção ao campo de golfe do Jamor (drive 9 buracos).
“Chapeuzinhos e gaitas. Tudo autorizado pelo Benfica, está tudo legal”, assegurou Graça, 70 anos, da Amadora. “É um ganha-pão, uma ajuda, sou reformada”, comunicou.
“Faço isto há 25 anos, mas só faço aqui no Jamor e faço festinhas, lá para cima para Viseu, sou de Viseu. Aquelas festinhas com aquelas luzinhas da noite”, detalhou.
Aceita Mbway. “O meu marido não aceita porque não sabe. Só eu é que sei mexer no telemóvel, o meu marido, não”, confessa ao apontar para a cara-metade, sentada a uns 40 metros de distância. “Está ali em baixo, sentadinho, camisa azul”, indicou.
Fernando Costa, 75, vende gaitas e chapéus. Está a uma distância de segurança da loja móvel do Sport Lisboa e Benfica, local onde a fila serpenteia pelo descampado.
Preço fixo de 5 euros responde à pergunta de uma interessada. Tudo monocromático. “Só há vermelho, porque é natural, está do lado dos vermelhos, não é? Eu também não sou de azul, sou do Benfica”, anunciou.
Está reformado e faz isto desde que sofreu um AVC há 11 anos. “A reforma é pequena”, encolhe os ombros. “É duas vezes por ano. Infelizmente é assim”, notifica.
A conversa foi curta porque era hora de entrar no Estádio Nacional. À passagem pela “banca” da Graça, esta não se coibiu de meter conversa sem pedir licença.
“Tenho simpatia pelo Sporting. Os nossos filhos, dois são do Benfica, e um deles, polícia, trocou uma folga para ver aqui ver o jogo. Os outros dois são do Sporting”, disse. “Eu e o meu marido não temos clube. Quero dizer, a nossa coisa é vender”, disparou. “E domingo estaremos aqui”, prometeu.
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários