Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Fora de água, Maria Salgado fala pouco. É tímida. É a primeira a admiti-lo. Perante os holofotes que a iluminam, em jeito de defesa, encolhe-se e refugia-se entre silêncios e frases monossilábicas.

Mas há outra Maria. Que se transcende ao mudar de cenário. E de contexto. Aqui, passa ao ataque.

O ritual de metamorfose começa mal coloca um pé na areia. Basta pôr o leash no tornozelo, sentir a espuma salgada nos pés, deitar-se na prancha e bailar entre as ondas para a versão da rapariga tímida desaparecer. No lugar dela fica alguém que, aos 19 anos, se sagrou campeã nacional de surf.

“Sempre fui muito competitiva em tudo, e quando estou a competir é comigo própria, por isso não fico tímida”, confessa ao 24notícias. “Mas com as pessoas, fora de água, sou mais tímida”, avisa. Mas, “tenho vindo a melhorar”, admite.

A atleta destemida e a jovem reservada são, garante, uma e mesma pessoa. Revelam-se em registos diferentes. Foi essa versão competitiva de Maria Salgado que conquistou, antecipadamente, o título da Liga MEO, numa temporada que marca a estreia no Challenger Series (CS), o degrau que antecede o circuito mundial de surf.

Torres Vedras no epicentro de uma festa dupla

À primeira vista, Maria Salgado tem ar de menina do norte da Europa. De estatura alta, loura e olhos azuis, os traços escandinavos contrastam com as origens.

É natural de Santa Cruz, Torres Vedras, no coração da Zona Oeste de Portugal.

A cidade, Torres Vedras, viveu, este ano, uma espécie de epifania desportiva.

Primeiro, o Torreense, clube de que Maria Salgado é adepta, ergueu, em maio, a Taça de Portugal de futebol numa final histórica contra o Sporting.

Quase um mês depois, foi a vez da jovem surfista da Associação Sealand Santa Cruz escrever o seu próprio capítulo: a conquista do campeonato nacional Open, título conquistado antecipadamente, na 4.ª etapa do circuito, em Ribeira Grande, ilha de São Miguel, Açores.

A cidade saltou, de novo, para as manchetes.

“Foi um mês incrível em Torres. Primeiro o Torreense, e Torres Vedras ficou ao rubro com eles (jogadores e clube)”, recordou Maria Salgado.

“Agora eu. Ganhei”, uma frase curta reveladora do seu traço de personalidade.

“Foi ótimo para Torres Vedras e Santa Cruz”, prosseguiu.

No seguimento da conquista, fica atrapalhada com a chuva de mensagens recebidas, de pessoais a institucionais, cujo efeito parece estrangular efusão nas palavras. Nem a prévia homenagem da Câmara Municipal de Torres Vedras  pelo título de vice-campeã europeia da World Surf League(Liga Mundial de Surf), serviu de balão de ensaio para vencer a timidez.

A primeira parte de um processo

Nada é fruto do acaso. A mais recente conquista interna não é um ponto de chegada.

O título nacional feminino “era o meu objetivo para este ano”, admitiu. “Foi muito bom ter cumprido, significa que os treinos e tudo o que tenho feito está a dar certo”, referiu.

Processo é a palavra que encontra para definir o caminho trilhado.

“Foi a partir dos 12 ou 13 anos”, que despertou para uma abordagem mais a sério à modalidade. Nessa fase da adolescência média, a relação com o mar ganha método.

Campeã nacional sub-16, bicampeã nacional júnior, campeã europeia Pro Junior em 2025, circuito continental da WSL, a cronologia ajuda a explicar por que motivo o título absoluto aos 19 anos surge menos como surpresa e mais como inevitabilidade trabalhada.

Não é a mais jovem a consegui-lo. O registo mora em Teresa Bonvalot (14 anos) e Francisca Veselko (18).

Estreou-se na Liga MEO, em 2019. A primeira vitória no circuito entre portas foi alcançada em Peniche, em 2022. Subiu ao pódio (3.º lugar) nesse ano e em 2025.

Na presente temporada, soma três vitórias – Allianz Figueira Pro, na Figueira da Foz, Go Chill Porto Pro, Matosinhos e Allianz Ribeira Grande Pro, Praia do Areal de Santa Bárbara, São Miguel, Açores - em quatro etapas disputadas. Venceu ainda o troféu Allianz Triple Crowd.

Família e treinadores, os pilares da menina tímida fora de água

Na parte escolar, seguiu uma aparente normalidade. Frequentou o ensino normal até ao 9.º ano e completou 12.º online. Completou e parou.

“Depois, quem sabe um dia, faça a faculdade”, antecipa. Suspendeu a inscrição. Agora “é só o surf”, explica-se.

A escolha de vida teve a aprovação régia da família. “Os meus irmãos e os meus pais concordaram com tudo o que decidi”, recorda.

A família é um dos seus vértices. O apoio, nas competições e nos treinos, nunca faltou. Ainda sem carta de condução, contou sempre com “alguém para me levar ao surf”, tarefa dividida entre “o meu pai e os meus irmãos”, realça.

Para Maria Salgado, a família “representa basicamente tudo”, dispara.

Explica e enumera as razões. “Porque são eles que estão aqui em casa, veem todos os meus treinos, tudo o que passo, os momentos bons e maus”, destaca.

“Vibram comigo, sentem o mesmo ou mais do que sinto”, continua. “Quando ganho, ficam tão ou mais contentes, quando perco, ficam mais tristes...mais triste, ninguém fica, mas quase”, conta.

Além da família, Nuno Telmo e David Raimundo, são as outras duas figuras que ajudam a esculpir a versão menos tímida de Maria Salgado.

Elogia a dupla de treinadores com quem está “há quatro anos”, sobretudo o capital de “experiência” que acumulam, “importante” fator diferenciador, em especial, nas “competições”, salienta.

O mundo aos 19 anos

À consagração nacional deste ano soma a estreia no Challenger Series, porta de acesso ao Championship Tour (CT). Uma presença conquistada após ter terminado, na temporada passada, no segundo lugar do ranking do Qualifying Series,circuito regional europeu de qualificação.

“As minhas expectativas são altas, mas sem grandes objetivos, porque é o meu primeiro ano e só quero mostrar o meu melhor surf”, referiu.

Para já, na estreia, na África do Sul (Ballito Pro) - https://www.instagram.com/p/Da0h0RMAhhr/?img_index=1 -, terminou em 33.º, etapa ganha por Teresa Bonvalot, numa final totalmente portuguesa. Francisca Veselko, surfista a competir no Circuito Mundial, foi vice-campeã.

Aos 19 anos, o mundo é gigantesco e muitas são as ondas que não passam ainda de um desejo por concretizar. Indonésia e as “ondas perfeitas” de Mentawai são sonhos por realizar. Mais perto de concretizar, a Austrália”, onde irá, este ano no CS.

“Vai ser um ano com novas praias, praticamente, muitas novas praias”, sintetiza.

“Gostava de ser convidada” para a etapa portuguesa do CT

Entre a economia de palavras que vai gastando sem receio à medida que ganha confiança, sobra-lhe tempo para falar de um objetivo maior.

É o mesmo, diz, “de todos os surfistas”: chegar ao World Tour.

Na elite mundial espera competir contra as portuguesas Yolanda Hopkins ou Francisca "Kika" Veselko. John John Florence e Carissa Moore são as suas referências internacionais.

Abre a gaveta das ambições como se estivesse a preparar uma nova etapa do processo e materializa um desejo que está dependente de terceiros.

Adianta os ponteiros do calendário anual para a 11.ª etapa do CT, que tem como cenário a Praia de Supertubos, Peniche, de 22 de outubro e 1 de novembro.

“Gostava muito de ser convidada” para o MEO Rip Curl Pro Portugal 2026, etapa portuguesa do Circuito Mundial.

Está ciente que o wildcard pode estar depende do lugar que ocupar no Challenger.

“A minha primeira vez no CT, em Portugal, era muito giro e era uma oportunidade incrível”, finaliza, sem dramatizar, a menina que perde a timidez dentro de água.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.