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“Deveria ter falado da minha saúde mental quando era novo. E talvez, vocês, jornalistas, tivessem mais simpatia por mim”.

John McEnroe, antigo número um mundial, em singulares e pares, deixou escapar a curiosa confissão durante uma entrevista via zoom promovida pelo Eurosport, perante jornalistas europeus, na antevisão do US Open, o último Grand Slam do calendário do ténis mundial.

Questionado sobre a recente abertura do estado de alma do alemão Alexander Zverev, antigo n.º 2 do ranking ATP, ao revelar sentir um “vazio” e estar “sozinho”, McEnroe avisou que “não será o primeiro jogador a sentir pressão e ter de lidar com as expectativas” e “não será o último, a falar, a querer procurar apoio de alguém e tentar sair do seu lugar escuro”, frisou.

O tema, colocado em primeira mão pela japonesa Naomi Osaka, em 2021, hoje muito em voga, “não é novidade no desporto”, realçou. “Mas agora temos acesso a mais formas de lidar com isto, ver e falar com pessoas, psicólogos e psiquiatras, os tenistas viajam com este tipo de pessoas”, sustentou.

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Retirado dos courts em 1993, aos 66 anos, recuou no tempo até ao período da pandemia da Covid-19. “Foi uma loucura para todos... estar fechado e o (dano) que provocou a tantas e diferentes pessoas. Por isso, é importante ser capaz de falar sobre isso”, acentuou o comentador televisivo.

Para John McEnroe “é necessário coragem, porque, de alguma forma, como atleta, estamos a revelar as nossas fraquezas, e não o queremos fazer. Portanto, é uma linha estreita tentar perceber como lidar com o tema”, sublinhou.

A família é uma âncora “importante”. Carlos Alcaraz e a retaguarda familiar que o acompanha é um exemplo do que afirmou, embora admita não ser regra universal, passível de ser aplicada a todos.

Porque estamos a falar do evento que fecha o quarteto mágico de torneios mais importantes do calendário anual, McEnroe recordou a frase de Billie Jean King: “A pressão é um privilégio”, inscrita no estádio Arhur Ahse, em Flushing Meadows, Nova Iorque, complexo de ténis batizado com o nome do ícone do ténis feminino.

“É fácil dizê-lo, mas é bem mais duro enfrentar”, analisa. “O meu pai costumava dizer: vai lá para dentro e joga. Não é assim tão fácil, mas depois percebi o que ele queria dizer”, rematou John McEnroe.

Raquetes partidas e discussões. Parelha de emoções revivida por John McEnroe

Encerrado o tema da Saúde Mental, o episódio da raquete obliterada e a discussão entre o sempre famoso e ruidoso público do US Open e o russo Danil Medvedev, eliminado na primeira ronda pelo francês, Benjamin Bonzi, vindo do quadro de qualificação, levou McEnroe a regressar ao tempo de raquete na mão e fita na cabeça.

“Se me conhece, provavelmente sabe que prefiro ter um show do que ver toda a gente a agir da mesma forma”, assumiu ao 24notícias.

O antigo polémico e extravagante jogador, hoje comentador, reconheceu ter “adorado cada minuto” do sucedido. Recordou ter recebido “chamadas de pessoas que não são fãs de ténis. Passou na televisão, por todo o tipo de televisão e programas que nada estão relacionados com o ténis”, informou. “Chamou a atenção para o US Open, o que é uma coisa boa”, sorriu.

Para a outrora personalidade cuja fúria emocional e discussões com os árbitros de cadeira, muitas vezes acompanhadas com raquetes estilhaçadas em qualquer superfície, eram a imagem de marca, o sucedido reaviva as suas memórias.

“Provavelmente, experienciei algo maluco, mais do que uma vez”, sentenciou, antes de embarcar numa viagem à gaveta das reminiscências, cujos atos passados, momentaneamente, parecem fervilhar na cabeça do antigo tenista.

Recuperou um jogo com Ilie Năstase, na estreia das partidas nocturnas em Flushing Meadows. O controverso romeno, vencedor de dois Grand Slams, usou um vasto menu de provocações para desestabilizar o jovem McEnroe, 20 anos. O árbitro penalizou-o, o público despejou o que tinha à mão no court, a polícia foi chamada a conter a fúria dos espectadores no velho Estádio Louis Armstrong e o encontro foi suspenso 17 minutos.

“A única vez que aconteceu, na minha carreira, foi quando chutaram o árbitro para fora da cadeira”, ressuscitou o triste episódio ocorrido em 1979, ano em que viria a vencer o primeiro Grand Slam, em singulares, precisamente no US Open.

“Pensei, vou 'matar' o Nasty. Está a gozar com o ténis, vou entrar no balneário e bater-lhe”, disse. Findo o encontro, para surpresa do norte-americano, já dentro do balneário, “ele (Nastase) gritou: vamos jantar! O quê?, pensei. Num segundo ia 'matá-lo', no segundo seguinte estava a sair com ele e um par de amigos”, relembrou.

“As coisas mudam, a tua vida muda, há uma variedade de circunstâncias, tens uma lesão e podemos percorrer uma lista de acontecimentos que te levam a refletir”, pronunciou-se.

Na reflexão, recuperou um sábio aconselhamento paterno. “Por isso, sempre que algo acontece, o meu pai costumava dizer: o que quer que aconteça, conta até 10 e inspira profundamente antes de te atirares a um árbitro”, confessou.

O calendário longo não é novo. E os jogadores devem ser chamados

O longo calendário do ténis e a exigência física ancorada aos jogadores é um ruído familiar a John McEnroe, atleta que abraçou o profissionalismo em 1977.

“Já se fala disto há 40, 45 anos”, avançou o esquerdino que soma 77 títulos ATP, em singulares (outros tantos em pares), e um histórico de 883 vitórias e 198 derrotas, sozinho em campo, e 544 vitórias e 103 derrotas, ladeado por um parceiro.

“Acontece em todos os desportos”. A sentença serve de resposta à pergunta do 24notícias. “Os jogadores de futebol, na Europa, estão a jogar demais, mas há mais dinheiro no desporto do que nunca”, anotou.

No entanto, quem vive dos courts “recebe a menor percentagem de rendimentos no ténis” quando comparado com “qualquer outro desporto”, vincou. “Pessoalmente, acho injusto”, atirou.

Se não há dúvidas de que os “jogadores de topo mundial ganham muito”, há “muitos tenistas que não fazem muito dinheiro no circuito. Atingem o breakeven”, alertou.

“(O ATP e o WTA) Têm de continuar a trabalhar no calendário”, particularizou. “Mas terão de priorizar os eventos certos”, ressalvou o detentor de sete títulos do Grand Slam na variante individual (quatro US Open), aos quais juntou mais 10 em pares.

“Os Grand Slams estão maiores do que alguma vez foram, mas os jogadores não são parceiros nisso”, reforçou. Embora acredite que quem joga “deve ser parte desses eventos”, reconhece que as “hipóteses” de acontecer “não são muito boas”, alvitrou.

Futurologia. Quem são os próximos tenistas a subir ao topo

A futurologia é sempre um número sorteado na roda da sorte das perguntas nas conferências com as grandes referências do passado. John McEnroe, parte integrante de uma proeminente e competitiva rivalidade com o sueco Bjon Borg, Jimmy Connor e Ivan Lendl nos anos 80, não escapou ao pedido.

Não se começou pelas senhoras, um topo hoje ocupado por Aryna Sabalenka (Bielorussa) e a polaca Iga Swiatek, mas foi para elas que o 24notícias apontou a luz da bola de cristal nas mãos do cidadão de nacionalidade americana, nascido na Alemanha, num hospital militar. “(Mirra) Andreva está pronta, está a caminhar na direção certa”, comentou sobre a atual n.º 5, nascida na Sibéria, a 29 de abril de 2007.

“Temos a Coco (Gauff), obviamente”, uma previsão a merecer uma análise mais profunda. “Terá de saber lidar com certas situações, será que segue as pisadas das irmãs Williams, será que vai vencer 20 Majors?”, questionou.

Considera que a atual terceira do ranking WTA, 20 anos, sofre “uma grande pressão”, mas dentro de um ano poderá estar mais confiante. “Tem aquilo que é necessário para ser melhor e penso que ficará muito melhor”, perspetivou.

Por fim, vira a agulha para uma jovem canadiana, vencedora do Open de Montreal, cujo nome não soletra (Victoria Mboko, 23.ª da hierarquia WTA). “Pode ser alguém, aquele tipo de talento que poderá vir a ser algo grande”, antecipou.

Tempo dos homens subirem ao palco da fama. “Tenho sido questionado, toda a gente quer saber e ninguém sabe a resposta, quem se intrometerá entre o Alcaraz e o Sinner”, equacionou.

Tirou dois coelhos da cartola dos prognósticos. O brasileiro João Fonseca, 45.º da tabela e o checo, Jakub Mensik (16.º). Ainda não estão preparados, mas caminham nessa direção”, antecipou.

“Acredito que ambos estarão no top 5 mundial em dois anos”, prevê John McEnroe na conversa com jornalistas europeus a propósito do US Open 2025, torneio transmitido pelo Eurosport.