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O relógio ainda não marcava as sete da manhã e o calor anunciado fazia prever um dos dias mais quentes do ano.

Na Praia dos Pescadores, em Cascais, o silêncio habitual das primeiras horas matinais foi interrompido pelo movimento de voluntários nas inscrições da prova de águas abertas, embarcações responsáveis pela colocação de boias nos quatro percursos e nadadores chegados a conta-gotas para enfrentarem os 300 metros e três quilómetros, da parte da manhã, e 1500m e estafeta 4x4 ao longo de 300 metros.

Enquanto o país despertava sob avisos vermelho e laranja devido às temperaturas elevadas, a organização da Global Ocean Cascais, a cargo da Associação GOMA (Global Organização para o Movimento e Ambiente) e Associação Humanitária de Bombeiros dos Estoris, preparava um cenário diferente na calmaria de um oceano de água cristalina com temperatura a rondar os 20 graus na receção a centenas de atletas prontos para desafiar esta língua de mar atlântico.

Mais do que uma prova de águas abertas, a Global Ocean quer afirmar-se como um manifesto em defesa do mar.

Inspirada na antiga travessia Estoril-Cascais, a competição recuperou uma das mais emblemáticas ligações entre praias da Linha, acrescentando-lhe uma identidade própria. A sustentabilidade e a proteção dos oceanos passaram a ser tão, ou mais importantes, como os tempos registados à chegada, verificados pelo chip e monitorizados pela multicromo.

Na quinta edição realizada em Cascais, cerca de meio milhar de participantes, provenientes de duas dezenas de países, distribuíram-se por quatro distâncias: 300 metros, 1.500 metros, 3.000 metros e uma estafeta 4x4 disputada em circuito de 300 metros.

A prova rainha continua a ser a travessia de três quilómetros, entre a Praia da Ribeira, ou Praia dos Pescadores, como é conhecida, em frente ao Hotel Baía de Cascais, no centro histórico da vila e a periferia do Tamariz, no Estoril.

O percurso avista conhecidas praias da Linha: praia da Rainha, da Nossa Senhora da Conceição, da Duquesa e praia da Rata antes de espreitar o Tamariz.

Muito antes da buzina de ar comprido dar sinal de partida, porém, já decorria outra corrida.

Antes dos primeiros atletas chegavam para levantar os dorsais, equipas da Associação GOMA (Global Organização para o Movimento e Ambiente) começaram as montagens de tudo o que era necessário para a prova.

Insuflado o pórtico de partida e chegada, posicionaram as boias que delimitariam os diferentes percursos. Começou por um ponto mais curto, na ponta do pontão que se estende aos pés do Palácio Seixas, uma ida e volta que totaliza 300 metros.

Fixada a primeira boia, os botes de apoio navegaram até à amarração mais longa, junto ao Estoril, três quilómetros somados na rotulada prova principal.

Cada detalhe era preparado ao minuto para garantir instantes depois que esta baía atlântica recebesse centenas de nadadores em segurança.

check-in foi realizado em tendas assentes em calçada portuguesa. Alinhada com o Passeio Dom Luís, foi igualmente o local de recolha do chip (devolvido após completarem os percursos) e a escrita do número de participante no corpo de quem ia dar aos braços e às pernas.

Descida a rampa outrora usada por barcos de pescas, a curta língua de areia não tinha tempo para aquecer sob um sol intenso e bastavam poucos passos até à rebentação para baixar a temperatura corporal.

Foi ali, entre o azul do Atlântico e a linha de costa de Cascais, que começou mais uma edição de uma prova que procura ir além da dimensão competitiva e entrar noutra dimensão.

"Recuperámos a travessia, mas demos-lhe um novo propósito"

Álvaro Cardoso, presidente da Associação Goma, madrugou para certificar todo o processo de segurança desta prova de águas abertas. Navegou no bote de montagem das boias e permaneceu sempre contatável com terra e a equipa responsável pela organização.

A inspiração Global Ocean Cascais nasceu da vontade de recuperar uma travessia bem conhecida entre os praticantes de águas abertas. “É inspirada na antiga travessia Estoril-Cascais, reativámos e foi batizada de Global Ocean”, explicou Álvaro Cardoso ao 24notícias.

O conceito mantém o espírito da prova original, mas procura dar uma nova roupagem. “O conceito será o mesmo, muito direcionado para as pessoas, clubes, triatletas”, disse.

Reunindo em Cascais “cerca de 500 participantes, de 20 nacionalidades”, apesar de ainda não integrar o circuito nacional de águas abertas (15 provas por ano), a organização não encara essa ausência como um obstáculo.

A competição conta com arbitragem e apoio oficial da Associação de Natação de Lisboa, apoio de elementos da Federação Portuguesa de Natação e cronometragem oficial a cargo da multicromo, reunindo condições similares às variadas provas do calendário nacional que se realizam um pouco por todo o país.

Sustentabilidade e proteção dos oceanos

Álvaro Cardoso insiste na mensagem ambiental.

“Já é uma prova consolidada”, garantiu, reforçando a intenção de dar um toque diferenciador, “ligado à sustentabilidade”.

Assume, sem hesitar, a bandeira de “proteção dos oceanos”, tema que deixou de estar apenas associado ao nome do evento para passar a orientar a sua identidade.

“Tentamos fazer diferente, melhorar, somos preocupados um bocadinho com essa mensagem dos oceanos”, aludiu, ambição que já ultrapassou Cascais.

Depois de cinco edições na vila, a organização criou a Global Ocean Swim Series. O propósito maior é “criar outras provas a nível nacional” e alargar os tentáculos das preocupações ambientais e proteção dos oceanos a diferentes zonas costeiras do país.

“Criámos uma espécie de minicircuito e demos o nome de Global Ocean Swim Series”, avançou. Terá “três provas”, anunciou. Sagres (29 de agosto)s já recebeu duas edições e este ano estreia-se a prova de águas abertas da Figueira da Foz, a 26 de julho.

A segurança

A segurança foi uma preocupação da organização, garantiu Álvaro Cardoso. Para receber meio milhar de participantes e acompanhar quatro provas ao longo do dia foi necessário montar um sistema de acompanhamento.

“Três motos de água com nadadores-salvadores, dois nadadores nas embarcações, seis semirrígidos, 10 canoas e 16 elementos nas equipas de arbitragem”, discriminou o responsável da GOMA.

Avisos da Proteção Civil à parte, não houve lugar a qualquer plano de contingência devido ao calor. “Não temos grande problema, eles (nadadores) estão dentro de água, a água está boa, não está fria, está uma temperatura bastante agradável, não está vento, o que é que também é bom para quem está a nadar”, atestou Álvaro Cardoso.

“Dizem que a água está a 20 graus, mas não está”

A temperatura do ar aproximava-se rapidamente dos 30 graus pela fresca da manhã (subiria aos 38), mas para alguns nadadores a verdadeira temperatura é medida por outro termómetro: o da água.

Paulo Pereira dispensava aplicações meteorológicas ou medições oficiais. Do alto da experiência de vida de 63 anos e depois de década e meia dedicada ao triatlo e às águas abertas, bastou-lhe mergulhar os pés para tirar as próprias conclusões.

“Dizem que a água está a 20 graus, mas não está. Deve estar nos 19 ou 19,5”, mediu.

A diferença pode parecer irrelevante para quem observa a prova a partir da areia, mas para quem vai permanecer quase uma hora dentro de água representa uma decisão importante.

“Tivemos essa opção e vou fazer com fato. Três quilómetros já é muito tempo dentro de água” confessou ainda de tronco nu, antes de vestir o fato isotérmico.

Atleta da Associação de Nadadores dos Estoris (ANE), Paulo Pereira, nadador Master, não preparou esta competição de forma diferente das restantes.

"É treinar todos os dias, mais ou menos. No inverno é piscina. No verão, quando o tempo permite, treinamos aqui no Tejo."

Sem promessas nem grandes objetivos, a perspetiva era “demorar uma hora e meia”, apontava. Contudo, o oceano acabaria por lhe ser mais favorável que as previsões feitas. Cruzou o pórtico e pisou a areia ao fim de 58 minutos e 31 segundos.

Phelps do Estoril acaba todas as provas em mariposa

Renitente em falar desde a primeira pergunta, Paulo Pereira reencaminhou o 24noticias até José Correia.

No areal, o presidente da Associação de Nadadores dos Estoris distribuía sorrisos e palavras de incentivo pelos atletas do clube.

Quase ninguém o trata pelo nome. É conhecido na comunidade das águas abertas por Zé Phelps, alcunha inspirada no norte-americano Michael Phelps e conquistada à custa de uma marca muito própria.

“Acabo todas as provas em mariposa”, explica o responsável do clube do Estoril.

O presidente da Associação de Nadadores dos Estoris olha para a Global Ocean Cascais como uma prova já integrada no calendário do clube.

“Sendo um clube da Linha, fazemos questão de estar presente”, anunciou.

Este ano trouxe cerca de 40 nadadores a Cascais. No dia seguinte seriam quase 70 na Travessia António Bessone Bastos, em Oeiras. A etapa do circuito nacional, liga Paço de Arcos à Marina de Oeiras e homenageia o antigo nadador olímpico, considerado como o mais eclético desportista nacional.

Por fim, afastou receios do calor previsto e real. “Já nadámos em situações muito piores”, assegurou. Deu um exemplo. Em Montargil, “com água a trinta graus, cá fora, quarenta. Um bafo”, recordou.

“(19)74. Dorsal que conta o ano do nascimento

Miguel Garcia, 52 anos, tem o número 74 escrito em dobro nas costas. “(19)74. É o ano do meu nascimento”, reparou a sorrir, quando confrontado com uma fotografia.

Nadador de águas abertas há uma mão cheia de anos, repete a participação nesta linha de água que liga a Baía de Cascais ao Tamariz.

Representa a Associação de Nadadores dos Estoris, um clube habituado a competir em peso nas provas realizadas entre Cascais e Oeiras.

“Inundamos Cascais. E fazemos o mesmo em Oeiras”, descreveu.

Deixou elogios à beleza da prova e garante ter objetivos mais altos do que apenas a participação. Não escondeu estar ali a disputar lugares. A nível individual e coletivo.

“Tentamos ficar sempre em primeiro lugar na qualificação coletiva”, desenhou Miguel Garcia. A profecia estava escrita na areia e o clube estorilense garantiu o topo da classificação por equipas à frente da Swin4fun e do Condeixa Acua Clube.

Do geral, para o pessoal, Garcia pega nas mesmas linhas para coser objetivos iguais. “É giro participar, mas é sobretudo para competir. Dou sempre o melhor que consigo”, avisou.

Treina “quatro horas e trinta minutos” nas piscinas do Estádio Universitário de Lisboa, divididos por “três treinos por semana”, apontou. Sem grande tempo de preparação para as águas abertas, o “treino é sempre nas provas”, exclamou Miguel Garcia.

Nos três quilómetros terminou na 22.ª posição, tempo superior em 11m, 31s acima do vencedor, Hugo Ribeiro (36,07m).. Não igualou o seu melhor resultado em Cascais — o 15.º lugar alcançado na edição anterior.

“Adapto-me melhor a condições mais adversas”

Hugo Ribeiro, 38 anos, saiu da água a respirar fundo. O sorriso denunciava os objetivos concretizados e desenhados para os três quilómetros.

O nadador da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, de Tomar, inscrito com o dorsal 208 (números escritos no braço), natural de Matosinhos, foi o mais rápido na prova rainha da Global Ocean.

Especialista em ultramaratonas de águas abertas, está habituado a desafios bem mais exigentes do que o tranquilo mar encontrado em Cascais.

Na verdade, prefere navegar em condições opostas e que envolvam ondulação e correntes marítimas. “Adoro nadar no mar. Adapto-me melhor a condições mais adversas. Gosto quando está mais mexido”, confidenciou na praia recheada de embarcações de pesca com vista para a Praça 5 de Outubro.

A travessia de Cascais serviu-lhe sobretudo como preparação para uma época composta por competições nacionais e internacionais.

“Foi um bom teste”, asseverou, num cenário merecedor de elogios. “É uma prova bonita. Este é um sítio espetacular para nadar”, atirou antes de fazer um pódio improvisado com os três primeiros classificados e ser cumprimentado pela Gotinha -, a mascote da associação.

Já conhecia estas águas de outras competições disputadas entre Cascais e Oeiras, mas foi a primeira vez que alinhava na Global Ocean.

Subiu ao pódio depois de completar os três quilómetros em pouco mais de 36 minutos. Recebeu o troféu das mãos do presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes.

Uma cerimónia simples, mas descontraída, à imagem da própria prova, à qual se associou, na areia e local de entrega de prémios, a mascote da organização, a Gotinha.

A primeira prova de águas abertas num evento com uma mensagem

No arranque do dia, Francisco Lopes, 15 anos, fez igualmente a estreia na prova de águas abertas em Cascais.

Saiu da água com um rasgado sorriso a lamber as gotas de água salgada. Sem pensamentos de vitória a toldarem-lhe a prestação, não procurava um lugar no pódio nem um novo recorde pessoal.

Demorou pouco mais de três minutos (3m,20s) a virar a primeira boia e a desviar-se da carreira de barcos dos pescadores fundeados na Baía de Cascais.

Inscrito nos 300 metros, a primeira prova do dia, não fez “qualquer preparação especial” prévia, admitiu o nadador da Associação de Bombeiros dos Estoris.

“Esta não é a minha especialidade”, confessou Francisco Lopes. “Estou a treinar para a piscina fechada, mariposa e crawl”, adiantou.

“Vim apenas para me divertir e para ganhar alguma experiência de prova”, avançou o jovem nadador realizado por fazer parte de uma narrativa que vai além da competição e do cronómetro. Tudo porque a real intenção da GOMA e da Global Ocean é que cada braçada transporte uma mensagem de sustentabilidade e preservação dos Oceanos. E que, no final, cada participante saia da água com a consciência que proteger e preservar o mar é também uma vitória de novas e velhas gerações.

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