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Líderes mundiais e vários organismos reagiram de forma contundente à intervenção militar, reafirmando o princípio da soberania dos Estados e alertando para possíveis consequências para a ordem global. António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, descreveu a operação como um "ato que ultrapassa os limites aceites do uso da força", enquanto países como a Rússia, a China e vários Estados da América Latina qualificaram o episódio como uma transgressão do direito internacional e um precedente perigoso para futuras intervenções. Estas tensões intensificaram o debate sobre se países envolvidos em ações militares deste tipo poderão enfrentar repercussões no âmbito do desporto internacional.

No plano do futebol mundial, as preocupações tornaram-se públicas num contexto em que a FIFA decidiu recentemente premiar o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o novo Prémio de Paz da FIFA durante o sorteio da fase de grupos do Campeonato do Mundo de 2026, que se realiza nos EUA, Canadá e México. A distinção foi apresentada como um reconhecimento das supostas contribuições para a paz global e dos esforços diplomáticos do líder norte-americano, mas gerou críticas de organizações de direitos humanos e de figuras do futebol que questionaram a neutralidade da instituição e a falta de critérios transparentes para a atribuição do prémio. Para muitos críticos, esta aproximação entre uma entidade desportiva e um chefe de Estado diretamente envolvido em operações militares controversas criou "um ambiente de desconfiança e dúvidas sobre o papel real da organização no cenário internacional".

Há quem afirme mesmo que a FIFA parece enfrentar um dilema de legitimidade. Ao recordar o exemplo recente das sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia, que resultaram na exclusão de equipas russas de competições internacionais, como os Jogos Olímpicos de 2024 e ainda dos Mundiais de 2022 e 2024, o mundo do futebol vê-se agora novamente obrigado a confrontar a questão de até que ponto um Estado pode continuar a receber um torneio se a sua conduta militar e diplomática for contestada por grande parte da comunidade internacional.

"Há um precedente claro no futebol moderno de que atos de agressão ou violação da integridade territorial podem levar a sanções desportivas, como aconteceu com a Rússia. A exclusão de equipas após conflitos bélicos provou que a FIFA pode agir quando existe um forte consenso da comunidade internacional", afirma ao 24notícias Ana Fernandes, especialista em relações internacionais. A questão é saber agora se tal consenso poderá ser alcançado num caso envolvendo os Estados Unidos, que são simultaneamente anfitriões do Mundial deste ano e um dos membros mais influentes nas instâncias desportivas internacionais.

No entanto, os estatutos da FIFA não preveem especificamente sanções contra um país que invade ou bombardeia outro Estado, nem contra um país que detenha um chefe de governo estrangeiro. As sanções aplicam-se apenas às associações membros, e não aos Estados sob cuja jurisdição estas operam. A disposição mais relevante é o Artigo 3.º dos estatutos da FIFA, que estabelece que "a FIFA compromete-se a respeitar todos os direitos humanos reconhecidos internacionalmente e esforçar-se-á por promover a sua proteção". Os Artigos 16.º e 19.º, que tratam da suspensão de associações membros devido a interferência política, aplicam-se estritamente a organismos desportivos e não a governos nacionais. O Código Disciplinar da FIFA, igualmente, não contém disposições relativas a ações militares contra outros países; o seu âmbito limita-se à discriminação e às infrações das regras de competição dentro de um contexto desportivo.

"No atual clima geopolítico, nenhuma grande competição está isolada das realidades internacionais. Mesmo sem uma ameaça formal de retirada, é natural que federações e comités questionem se os valores que promovem se alinham com as políticas externas dos países anfitriões", refere.

Entretanto, surgiram também questões sobre os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028. A intervenção na Venezuela intensificou o foco sobre Washington e sobre "como os princípios olímpicos de paz, inclusão e respeito pelos direitos humanos podem ser conciliados com políticas externas e internas controversas".

"Embora seja improvável que o Comité Olímpico Internacional revogue a atribuição de Los Angeles como cidade-sede, dado ser um processo jurídico complexo e sem precedentes claros, é natural que a pressão para reforçar os padrões de elegibilidade e os critérios éticos de acolhimento cresça nos bastidores", salienta.

A pergunta coloca-se então. Qual a razão para a Rússia ter sido afastada das competições?

"Foi uma decisão mais logística, digamos assim. Segundo os principais organismos mundiais desportivos, as consequências da guerra, nomeadamente sanções internacionais e económicas, restrições de viagem e riscos de segurança, poderiam comprometer a integridade e a neutralidade das competições. Esta decisão foi também confirmada pelo Tribunal Arbitral do Desporto, na sequência de um recurso apresentado pela União de Futebol da Rússia", concluiu Ana Fernandes.

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