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Fernando Pimenta voltou a casa com duas medalhas de ouro ao peito. Um pêndulo dourado conquistado nos Mundiais de Canoagem que o ajudou a colecionar 187 medalhas internacionais na carreira e acrescenta mais duas páginas a uma história de mais de 20 anos que parece não querer acabar.
Em Poznan, na Polónia, o canoísta português foi campeão do mundo em K1 1000 e K1 5000 metros, conquistou o 14.º título mundial e, aos 37 anos, voltou a bater recordes de longevidade. É o mais velho campeão mundial nas duas distâncias.
À chegada ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, esperavam-no a mulher e os filhos. São, reconhece o próprio, duas das grandes âncoras emocionais de uma vida desportista que começou quando o menino hiperativo e irrequieto de Ponte de Lima trocou, aos 12 anos, as pistas de natação pelas pagaias e caiaques nos rios.
“Chegar a casa com duas medalhas de ouro, voltar a bater recordes, voltar a subir ao patamar mais alto do pódio” deixou Fernando Pimenta “emocionado”.
“Chegar a casa com duas medalhas de ouro, voltar a bater recordes, voltar a subir ao patamar mais alto do pódio”, deixaram Fernando Pimenta “emocionado”, adiantou
O último título mundial foi alcançado em 2023 e serviu, então, de passaporte para os Jogos Olímpicos Paris2024.
O sucesso, porém, não nasce do acaso. O canoísta limiano, treinado há mais de duas décadas por Hélio Lucas, conhece de cor os sacrifícios que estão por trás daquilo que agora parece apenas uma coleção de medalhas.
Um percurso durante o qual chegou a estar afastado da competição seis meses depois de se ter excluído dos Mundiais 2013 devido a incompatibilidade com o antigo selecionador, Ryszard Hope (apostava em Pimenta em dupla com Emanuel Silva, sangrando glória pessoal em detrimento da ambição coletiva portuguesa).
Do primeiro título mundial sénior, em K4, ao lado de Emanuel Silva, David Fernandes e João Ribeiro, em Belgrado, até ao duplo ouro de Poznan, o princípio mantém-se.
“É o trabalho, o treino, são sete dias por semana dedicados ao Alto Rendimento. São 24 horas sobre 24 horas”, descreve o canoísta profissional do Sport Lisboa e Benfica que ainda tentou terminar, sem sucesso, o curso de Reabilitação Psicomotora em Ponte de Lima (por troca do curso de Fisioterapia, em Coimbra). A canoagem, viria a ganhar a corrida.
“Depois, estes momentos tornam-se curtos e pequenos para aquilo que foi a preparação e o processo até lá chegar”, confessou aos jornalistas à chegada a Lisboa, juntamente com a comitiva portuguesa.
Os dias de chuva, os pedidos dos filhos e os treinos que fazem a diferença
Chegar a Poznan, este ano, em particular, não foi um caminho de rosas para Pimenta, apesar da “tranquilidade”, da preparação “ter corrido muito bem nesta última parte da época”, e de ter andado “feliz” e “bem em termos físicos”, listou.
Os efeitos da tempestade Kristin, em especial na zona Centro do país, estavam bem gravados na memória passados mais de quatros meses da intempérie.
“Quando vimos em janeiro e fevereiro as árvores a serem cortadas pela tempestade, telhados a serem arrancados, e condições bastante adversas, esses dias também contam”, recuou.
Mas nem a depressão meteorológica parou o obstinado canoísta de Ponte de Lima. Foram meses em que treinou “de forma mais precavida”, realçou.
“Dias de chuva, muito frio, muito vento, dias em que parecia praticamente impossível poder treinar no rio, mas fomos à água, não queríamos apresentar desculpas”, lembrou.
O inverno rigoroso não o impediu de se sagrar campeão europeu de velocidade em K1 5000 (e bronze, em K1 1000), no Campeonato da Europa de Canoagem, em junho, no Centro de Alto Rendimento (CAR) de Montemor-o-Velho, palco onde, em abril, havia deixado apelos ao presidente da República, António José Seguro, para estar “mais atento ao desporto”, após a visita do Chefe de Estado ao local.
As duas medalhas de ouro mundiais confirmam que o esforço não foi em vão.
Entre sorrisos nos pódios, recorde e fotografias, Pimenta não esquece as privações que a preparação exigiu e abre uma janela para a parte da carreira que não aparece gravado nas medalhas: o amor à família e à pátria.
“Custa chegar de estágio, 15 dias, ter uma corrida e um treino para fazer, e os meus filhotes pedirem, “pai fica, anda brincar connosco”, e ter este compromisso, primeiro com eles, porque sou pai, e depois também para Portugal, de querer representar o melhor possível”, contou aos jornalistas.
“Sei que esse treino também pode vir a fazer a diferença, e pesa, pesa muito essa parte”, reconheceu. Mas, “essa parte também ajuda quando estou fora, a ser também a gasolina para dar o meu melhor todos os dias”, sintetizou.
A unanimidade sobre quem é o melhor atleta português
Fernando Pimenta não esconde a admiração por Cristiano Ronaldo, demonstrado no salto para o pódio acompanhado pelo grito “sim”, nem de um dia ser reconhecido, de forma consensual, como o maior atleta português de sempre.
Contudo, não quer ser ele a colocar esse rótulo na sua coroa e prefere entregá-lo “esse julgamento” aos “especialistas da área”, apontou..
“Gostava de poder ser de forma unânime. Estou a trabalhar não só para isso, estou a trabalhar para o currículo e para aquilo que gosto realmente de fazer, que é representar Portugal ao mais alto nível, conquistar medalhas, ouvir a Portuguesa, entoar a Portuguesa”, explicou.
Em Poznan, teve oportunidade de o fazer acompanhado por um coro de vozes portuguesas. “São momentos que nos deixam muito felizes”, explanou.
A comparação com Ronaldo é inevitável. De um lado, os golos e os troféus. Do outro, as medalhas, os títulos mundiais e europeus , os pódios olímpicos e uma longevidade que parece desafiar o calendário.
Aos 37 anos, Pimenta continua a construir argumentos e apresenta uma forma física e um corpo destacado pelos jornalistas portugueses presentes no Aeroporto e que é, por si só, uma espécie de mapa da carreira.
A última fase de preparação, em Avis, no Alentejo, na unidade hoteleira da Herdade da Cortesia Hotel, e na barragem do Maranhão, ajudou a esculpir-lhe todas as formas corporais visíveis.
“Cheguei a treinar com 45 graus, treinos de uma hora e 20 minutos, uma hora e meia, correr, algumas das vezes, à uma da tarde, tudo isso molda também o corpo”, contou a sorrir. A isso, junta “os cuidados e o estilo de vida saudável e a alimentação”, adicionou.
A figura de segundo GOAT português faz envergonhar a estátua de David poderá ficar imortalizado na cidade que o viu nascer, Ponte de Lima, à imagem do sucedido com o busto de Ronaldo, no Funchal.
Para tal, basta que a edilidade minhota cumpra o desafio lançado por Diogo Freitas, empresário local que detém a marca de bolachas Belgas e Chipicao (Officetotal Food Brands).
“As medalhas são importantes, mas não é tudo na vida”
A idade costuma ser um posto. Para Fernando Pimenta parece ser também um dínamo que o alimenta, dia após dia, ano após ano, a sede de treino e conquistas.
No entanto, admite que a motivação já não é uma coisa simples.
“Aos 37 anos depois de tantas épocas desportivas, é impossível conseguir estar motivado e a querer sempre mais todos os dias, mas sei que todos os dias tenho que dar o meu melhor”, contrapôs num aparente contrassenso.
A energia vem do exterior. “Vou buscar às pessoas que me passam sempre esta energia positiva, aos meus filhos, a pessoas anónimas que diariamente se vão cruzando e dão-me sempre uma palavra de apoio”, referiu.
Ciente que, um dia, fará as despedidas dos rios, dos caiaques, das pagaias, dos treinos, estágios e da competição.
Medalha de prata em Londres2012 (em K2, em equipa com Emanuel Silva) e bronze em Tóquio, falta-lhe, contudo, o ouro olímpico.
A medalha que ainda não tem e que muitos portugueses gostariam de ver ao seu peito parece, contudo, pesar menos nele do que nos outros.
“Sou o mais sincero possível, neste momento, quero desfrutar do processo até lá chegar”, confidenciou o atleta, atual líder do ranking, que terá 39 anos nos JO Los Angeles2028, e que será a quarta participação olímpica.
Obrigado a apresentar “um nível de forma muito idêntico” ao de este ano para se qualificar, em resultado das alterações dos critérios de qualificação olímpica, diz “não ter muito mais a provar” neste longo e duradouro desejo.
“A medalha nos Jogos Olímpicos, uma terceira medalha, seria a cereja do topo do bolo, mas sinceramente já não me movo só por causa das medalhas”, surpreendeu.
“Movo-me por causa das emoções que estou a conseguir criar nas pessoas. É das coisas mais bonitas, quando alguém me liga ou me manda uma mensagem - chorei enquanto estava a competir - ”, exemplificou.
Vai além das emoções e introduz o legado.
“Deixar o legado para os mais novos, para os meus filhos, que as medalhas são importantes, mas não é tudo na vida, e há coisas, às vezes, bem mais importantes que nós desfocamos quando olhamos só para uma coisa que é a medalha”, reconheceu o atleta cujas mãos que seguram a pagaia há mais de duas décadas são testemunha viva da vida dedicada ao Alto Rendimento.
“Os calos das mãos são aquelas medalhas invisíveis, que vão ficar. São as medalhas invisíveis, que as pessoas não veem, mas que naqueles dias de grande frio, fazem-se sentir com bastantes dores”, rematou Fernando Pimenta, o canoísta que regressou a Lisboa com duas medalhas para acrescentar às 185 medalhas visíveis conquistadas anteriormente.
PALMARÉS: OS TÍTULOS DE CAMPEÃO
CAMPEÃO DO MUNDO — 14 TÍTULOS
Velocidade
- K1 5.000 — Racice, 2017
- K1 1.000 — Montemor-o-Velho, 2018
- K1 5.000 — Montemor-o-Velho, 2018
- K1 1.000 — Copenhaga, 2021
- K1 1.000 — Duisburgo, 2023
- K1 1.000 — Poznan, 2026
- K1 5.000 - Poznan, 2026
Maratonas
- K1 curta distância — Ponte de Lima, 2022
- K2, com José Ramalho — Ponte de Lima, 2022
- K1 curta distância — Vejen, 2023
- K2, com José Ramalho — Vejen, 2023
- K2, com José Ramalho — Metkovic, 2024
- K1 curta distância — Gyor, 2025
- K2, com José Ramalho — Gyor, 2025
CAMPEÃO DA EUROPA — 12 TÍTULOS
Velocidade
- K4 1.000 — Belgrado, 2011
- K1 1.000 — Moscovo, 2016
- K1 5.000 — Moscovo, 2016
- K1 1.000 — Plovdiv, 2017
- K1 1.000 — Belgrado, 2018
- K1 5.000 — Munique, 2022
- K1 5.000 — Szeged, 2024
- K1 1.000 — Racice, 2025
- K1 5.000 — Racice, 2025
- K1 5.000 — Montemor-o-Velho, 2026
Maratonas
- K1 curta distância — Ponte de Lima, 2025
- K2, com José Ramalho — Ponte de Lima, 2025
AS MEDALHAS NOS JOGOS OLÍMPICOS
- Prata — K2 1.000, Londres 2012, com Emanuel Silva
- Bronze — K1 1.000, Tóquio 2020
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